Feixe de esperança

O voto consciente é a única forma de frear a marcha do populismo que nos deixou um desastroso legado de corrupção, miséria e desemprego recorde

Luiz Felipe D’Ávila, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 03h00

A eleição de 2022 será a mais importante desde a redemocratização do País em 1985. O que estará em jogo não é a apenas a alternância de poder, mas a própria democracia. A perpetuação do populismo pavimentará o caminho para a erosão dos alicerces da democracia, do Estado de Direito e das liberdades individuais. Se o populismo triunfar nas urnas, corremos o risco de ver a democracia ser solapada paulatinamente e seguir o trágico destino de países como Venezuela, Hungria e Turquia. Mas o eleitor detém o poder para sepultar o populismo nas urnas em 2022. 

Os populistas chegaram ao poder por meio do voto dos brasileiros e da omissão das elites. O desinteresse pela política resulta no voto sonâmbulo. O eleitor procura na véspera da eleição um amigo que gosta de política para pedir sugestões de candidatos e acaba votando em alguém que mal conhece. O resultado do voto sonâmbulo é preocupante: 70% do eleitorado não se recorda em quem votou na última eleição para deputado. Se não se lembra em quem votou, como cobrar, avaliar e reconhecer o desempenho dos seus representantes? O esquecimento do eleitor colabora para a consolidação dos interesses corporativistas. Aqueles que apoiam o corporativismo votam, cobram e fazem pressão para que os parlamentares protejam os seus “direitos” dos ataques da opinião pública contra os seus feudos de privilégios público e privado.

A elite, viciada em subsídios e protecionismo do Estado que lhe conferem reserva de mercado, peca pela omissão. Prefere sempre ser amiga do dono do poder e não se envolver com a política. Afinal, governos são temporários, mas os interesses econômicos são permanentes. O voto da elite é baseado no pragmatismo do mal menor. Como dizia a filósofa Hannah Arendt, “aqueles que escolhem o mal menor esquecem rapidamente que escolheram o mal”. Para uns, Bolsonaro é o mal menor; para outros, Lula. O simplismo do “voto pragmático” do mal menor vem contribuindo para debilitar a democracia, o Estado de Direito e a competitividade do mercado. A escolha do mal menor perpetuou a existência de instituições exclusivistas, que impedem o crescimento econômico sustentável, a igualdade de oportunidade e a redução da pobreza e da corrupção.

Nesses tempos natalinos, devemos lembrar a sabedoria de São Paulo que dizia que “a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”. Se o pragmatismo dos céticos crava a inevitabilidade do embate eleitoral entre Lula e Bolsonaro em 2022, a fé de que podemos criar um Brasil melhor e mais justo é um alento para aqueles que enxergam uma oportunidade histórica para sepultar nas urnas os governantes que condenaram o Brasil à corrupção endêmica, à miséria e ao desemprego recorde. Se os “realistas” se acomodam com um País cabisbaixo, envergonhado e maltratado na arena internacional, a eleição do próximo ano é a hora de mostrarmos que o brasileiro de bem quer se desvencilhar do populismo e pavimentar o caminho para nos tornarmos uma nação respeitada, admirada e parceira da comunidade internacional na construção de um mundo sustentável, onde o respeito ao meio ambiente e o esforço coletivo para a preservação da paz restabelecerão o orgulho de ser brasileiro. 

O voto consciente é a única forma de frear a marcha da insensatez do populismo que nos deixou um desastroso legado: 10 anos de recessão econômica, 14 milhões de desempregados e mais de 20 milhões de brasileiros de volta à miséria. O destino do País balança entre a fé e a esperança dos cidadãos de bem e o pragmatismo e o ceticismo dos “realistas” que só creem no mal menor. 

Durante o momento mais sombrio da Segunda Guerra Mundial, quando a Europa havia sucumbido à tirania nazista e a democracia parecia que estava morta, restou um feixe de esperança na figura emblemática e nas palavras inesquecíveis de Winston Churchill. Ao externar sua fé inabalável na vitória da democracia e da liberdade, ele nunca se curvou ao realismo daqueles que aceitavam uma Europa escravizada pelo nazismo. Churchill dizia que “a coragem é a maior das virtudes, pois todas as demais dependem dela”. A coragem de Churchill inspirou milhares de pessoas a lutar pela democracia e a destruir a tirania nazista. Seu exemplo deixou uma lição crucial para os nossos tempos: a escolha do mal menor é sempre a opção dos covardes que escondem sua covardia no ceticismo.

É hora de coragem, fé e esperança para lutarmos contra o populismo e resgatarmos a democracia e a liberdade para os nossos filhos e netos. Afinal, eles nasceram e cresceram num País condenado ao baixo crescimento e, hoje, sonham em mudar de país para empreender, desenvolver o seu talento e viver em paz e com segurança. Vamos mostrar por meio do voto consciente que a fé vence o ceticismo; a esperança, o cinismo; e a coragem abre novos caminhos e novos futuros. 

Essa é a missão dos brasileiros de bem em 2022. 

Boas festas! 

*CIENTISTA POLÍTICO, É AUTOR DO LIVRO ‘10 MANDAMENTOS – DO BRASIL QUE SOMOS PARA O PAÍS DE QUEREMOS’

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