Filho do Mourão? Problema maior é no BB

Bolsonaro precisa fazer uma profunda reforma da gestão de RH no governo federal

Roberto Macedo, economista

17 de janeiro de 2019 | 03h30

Tenho grande apreço pelo Banco do Brasil (BB), pois ele foi muito importante na definição do rumo da minha vida. Quando concluí o ensino médio trabalhava noutro banco, em Belo Horizonte, e procurava realizar um sonho na época típico de mineiro, o de ser funcionário do BB. Um concurso foi aberto e me inscrevi. Fiz o mesmo no vestibular para a Faculdade de Economia da UFMG, passei e comecei o curso. Depois veio a aprovação no concurso do BB, mas ser nomeado para Belo Horizonte era muito difícil, pois no banco havia muitos mineiros funcionários de carreira que pleiteavam remoção para essa cidade.

Pedi então ao BB a nomeação para qualquer cidade com faculdade de Economia. Consegui uma entrevista com o chefe de pessoal do banco, cuja sede ficava no Rio de Janeiro. Ele me levou à janela da sua sala, apontou o prédio do Ministério da Educação (MEC) e me orientou a ir lá e obter uma relação de cidades com faculdade dessa área. Chegando ao MEC, fui atendido por um funcionário da portaria. Ele ficava atrás de um balcão, curvou-se, pegou e me entregou um livreto com estatísticas sobre o ensino superior onde havia a informação desejada. Voltei ao BB e o referido chefe me disse: “Vou ver o que posso fazer por você”. Uma semana depois recebi um telegrama do banco dizendo que me apresentasse na sua agência Centro, em São Paulo, para começar a trabalhar.

Sorte enorme! Eu teria ido para qualquer cidade com a faculdade desejada, mas creio que noutras cidades, até mesmo na capital mineira, eu não teria as mesmas oportunidades de ascensão educacional, profissional e social que encontrei em São Paulo.

Transferi-me da UFMG para a USP, mas o primeiro dia de trabalho no BB freou um pouco o meu entusiasmo. Fui designado para trabalhar com um líder sindical, de nome Odilon. Quando soube de meu passado como bancário, disse: “Então, você é um bancário reincidente”. E mais: “Você chegou atrasado. Hoje a única coisa que presta aqui é a aposentadoria”.

Decidi pelo vou ficar para ver como é que fica. Na USP optei pelo curso noturno e no Banco do Brasil, pelo regime de seis horas diárias. Como tinha as manhãs livres para estudar em casa, tive um desempenho muito bom. No meio do curso, tornei-me estagiário de um ótimo professor, hoje muito conhecido, o Affonso Celso Pastore, que foi presidente do Banco Central. Com ele passei a entender melhor o trabalho de um economista pesquisador, e gostei tanto que meu desempenho no curso foi ainda melhor. No final dele fui convidado para ser professor assistente da mesma cadeira em que trabalhava o Pastore. Depois vieram a pós-graduação, a bolsa para doutorado nos Estados Unidos e a admissão na Universidade Harvard. Então pedi demissão do banco, optando pela carreira acadêmica na USP. Meu pai, que também foi bancário, sempre achou que eu deveria ter ficado no BB.

Tenho, assim, uma dívida com esse banco, pois acrescentou vários degraus no avanço da minha carreira educacional e profissional, com o que passei também pelo que os sociólogos chamam de ascensão social. E não fui o único. Conheci vários outros ex-funcionários do BB que também seguiram caminho similar, como o jornalista Alexandre Garcia, o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega e o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Carlos Ayres Britto.

Nunca fechei minha conta no BB, já fui um microacionista dele e sempre me interessei pelo noticiário a seu respeito. A última notícia que vi, entretanto, causou-me grande espanto. Foi a de que um filho do general Mourão (vice-presidente da República), funcionário do Banco do Brasil, de nome Antonio H. R. Mourão, que ali ganhava R$ 12 mil por mês como assessor empresarial, fora promovido a assessor especial do novo presidente do BB, Rubem Novais, passando a receber R$ 36 mil (!) por mês. E mais: segundo o site O Antagonista, esse funcionário também “(...) ingressará no famoso Programa de Alternativas para Executivos em Transição (Paet), que garante bônus de ‘saideira’ para quem ocupou cargo no banco por dois anos. O valor desse benefício é de 2 milhões de reais, em média”.

Minha primeira reação foi também de dúvida: será que o meu pai não estava certo? Em vez de optar pela USP, não teria sido melhor ir para Brasília e no BB buscar algo lá no topo? Mas logo caí na real: como é que o Banco do Brasil se dispõe a pagar a um consultor esse salário, muito perto do de um ministro do Supremo Tribunal, que passou a R$ 39.300 com o último reajuste? Pelo que sei de remunerações do mercado de trabalho, por metade desse valor esse consultor já seria muito bem pago. E o Paet? Acho que é de fazer inveja até mesmo a altos executivos de bancos privados, mas é problema de seus acionistas se neles houver algo do tipo ou coisa melhor.

O noticiário sobre ao assunto focou mais no pai do que no filho, aquele procurando justificar a nomeação, mas também reconhecendo que o salário é muito alto, conforme matéria no mesmo site. Como o acionista controlador do BB é o governo federal, ele não pode permitir desatinos desse tipo. Assim, o problema maior está no BB. Soube de funcionários do banco que com a ascensão do PT ao poder a corporação de funcionários ganhou maior força, outorgando-se uma série de vantagens que não se coadunam com a gestão ética de um banco dessa natureza. Soube também que, além do alto salário e do Paet, Antonio Mourão terá direito à participação nos lucros atribuídos à diretoria a que está ligado.

Mantenho a esperança de que Bolsonaro poderá fazer um bom governo. Mas para merecer essa avaliação a posteriori ele não poderá deixar de realizar uma profunda revisão e reforma da gestão de recursos humanos (RH) das várias instituições governamentais. Não será surpresa se encontrar outros disparates nas remunerações depois de quase 14 anos de gestões petistas.

*ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR, ROBERTO MACEDO É PROFESSOR SÊNIOR DA USP

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