Fome, inflação e caça aos votos

Em campanha eleitoral, o presidente Bolsonaro tenta passar a empresários e governadores a responsabilidade pela inflação.

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2022 | 03h00

Fartura e fome foram destaques do noticiário, de novo, neste país conhecido como terra de contrastes. Em novo recorde, a safra de grãos deve chegar a 271 milhões de toneladas, segundo o Ministério da Agricultura. Não devem faltar, nos armazéns, feijão, arroz e outros alimentos essenciais para os brasileiros. Pode faltar, e tem faltado, dinheiro para quem precisa pagar pela comida. Divulgada no mesmo dia, uma pesquisa apontou 33 milhões de pessoas sujeitas à fome, 15,5% da população, e 125 milhões em condição de insegurança alimentar. O Brasil proporciona alimentos a 1 bilhão de pessoas, disse o presidente Jair Bolsonaro, em Los Angeles, na Cúpula das Américas. Não ficou claro se esse bilhão inclui aqueles subnutridos, se o desconto foi feito ou mesmo se Bolsonaro tinha ouvido a notícia.

Mas comida no prato depende do poder de compra. Como este depende dos preços, Bolsonaro foi alertado sobre os efeitos eleitorais da inflação. Na quinta-feira o presidente e o ministro da Economia, Paulo Guedes, participaram virtualmente de uma reunião do setor de supermercados e pediram ajuda aos empresários. Bolsonaro sugeriu redução do lucro sobre os produtos da cesta básica. O ministro apelou por uma trégua nos aumentos de preços. Transferiram às empresas, portanto, uma responsabilidade pública, a ação anti-inflacionária, confessando implicitamente sua impotência e menosprezando fatores como a incerteza fiscal e a instabilidade do câmbio.

Transferir responsabilidades e culpas é uma das especialidades do presidente Bolsonaro. Nesse jogo, ele demitiu três presidentes da Petrobras e um ministro de Minas e Energia. Conseguiu retardar alguns aumentos de preços, mas sem eliminar um ponto essencial da política da empresa, a observância das cotações internacionais.

Também governadores e prefeitos foram envolvidos nesse jogo. Bolsonaro responsabilizou-os pelas perdas econômicas na pior fase da pandemia, quando impuseram restrições à circulação e à aglomeração de pessoas. Nunca reconheceu a dianteira das administrações estaduais nas campanhas de imunização, enquanto o Executivo federal atrasava a distribuição de vacinas e ele espalhava desinformação sobre o assunto. Vencida a pior fase, o presidente agora gasta dinheiro em campanha publicitária para se atribuir mérito pela vacinação e por sucessos econômicos em grande parte imaginários.

Com o mesmo tipo de manobra, Bolsonaro e seus aliados do Centrão tentam envolver os Tesouros estaduais na redução de preços dos combustíveis. Num espetáculo patético, na segunda-feira à noite, o presidente da República defendeu a redução do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) cobrado sobre gasolina, diesel, gás de cozinha, eletricidade, telecomunicações e transporte público. A proposta inclui até a adoção de alíquota zero. O poder federal, segundo se prometeu, compensará as perdas de arrecadação.

O ministro da Fazenda mencionou um custo provável entre R$ 25 bilhões e R$ 50 bilhões, sem esconder a improvisação. Não houve como disfarçar o caráter eleitoreiro da jogada, tão óbvio quanto o erro de avaliação econômica e política. Bolsonaro e sua turma trataram o custo dos combustíveis como se fosse muito mais importante que o desemprego, a perda de remuneração e o encarecimento de itens como comida, gás e transporte público. Além disso, tratar o imposto indireto como causa de aumento de preços dependentes do mercado é tolice evidente. Esse imposto apenas incide sobre o preço básico e entra, portanto, na composição do valor final.

Divulgada na quinta-feira, a inflação de maio motivou novos comentários do presidente e do ministro Guedes. A taxa mensal diminuiu de 1,06% para 0,47%, mas a alta de preços acumulada em 12 meses, de 11,73%, ainda foi muito grande. Grande também foi a alta acumulada de itens essenciais, como alimentação (13,51%), transporte público (17,43%) e combustíveis domésticos (29,56%), incluído o gás.

Não se ganharia muita coisa, eleitoralmente, alardeando a redução da taxa mensal de inflação ou o barateamento de produtos como tomate, cenoura e batata inglesa. Mas presidente e ministro tentaram mostrar empenho pedindo a colaboração dos empresários e dos governadores.

Cidadãos de enorme boa vontade podem ter celebrado o recuo da taxa mensal de inflação. Mas parece irrealista apostar em arroubos de alegria, quando há tantos sinais de dificuldades. As dimensões da fome e da subnutrição ficaram mais claras com os dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Penssan) e do Instituto Vox Populi. O quadro piorou a partir de 2013. Em 2018 os famintos eram 5,8% dos brasileiros. Em 2019 eram 9% e em 2022 o contingente chegou a 15,5%. Esses números compõem parte importante do balanço do atual presidente, juntamente com uma das maiores taxas de desemprego do mundo, 10,5% no trimestre móvel encerrado em abril. Bolsonaro conseguirá debitar tudo isso nas contas de empresários e governadores?

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