Fraternidade e vida

Quando a fraternidade e a justiça são tidas na devida conta, a vida torna-se boa para todos

Dom Odilo P. Scherer*, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2020 | 03h00

A Quarta-Feira de Cinzas marca o início da Quaresma, período em que os cristãos se preparam para a Páscoa, a maior e mais importante celebração da Igreja. As práticas quaresmais de jejum, esmola e oração são propostas como auxílios à conversão a Deus, à purificação dos pecados e à orientação da vida segundo o Evangelho de Cristo.

Há quase 60 anos, a Igreja Católica no Brasil, por intermédio da Conferência Nacional dos Bispos (CNBB), promove a Campanha da Fraternidade durante o tempo quaresmal, com uma proposta específica para cada ano, para aprofundar o amor ao próximo e a fraternidade, que são dimensões essenciais da vida cristã e também constituem valores fundamentais do convívio social, independentemente de crença religiosa. Para o cristianismo, a adoração a Deus e o amor ao próximo, traduzido em múltiplas expressões de fraternidade, são aspectos inseparáveis de um único amor. No dizer do apóstolo São João, é mentiroso quem diz que ama a Deus, a quem não vê, mas não ama o próximo, que vê (cf 1Jo 4,20).

A Campanha da Fraternidade deste ano retoma o tema da vida, já tratado em edições anteriores, “Fraternidade e vida: dom e compromisso”. A proposta é aprofundar a reflexão sobre o dom precioso da vida humana e da vida da natureza em geral, mostrando a relação entre esse dom e o compromisso de todos de respeitar, promover e valorizar a vida. Viver é um dom, que envolve um compromisso de justiça e fraternidade. E quando a fraternidade e a justiça são tidas na devida conta, a vida torna-se boa para todos.

A principal questão posta é, justamente, a valorização da vida. Todos os seres humanos têm direito a vida digna e decente e a ninguém é concedido o direito de se apossar da pessoa e da vida do próximo. Uma sociedade será tanto mais evoluída quanto mais respeitar e valorizar a pessoa e a vida humana. Isso vale também para o ser humano ainda em gestação e não nascido, da mesma forma que para aquele que está no termo de sua vida neste mundo. O respeito intocável à pessoa e à vida humana é uma linha divisória sutil que separa o humano do desumano: uma vez rompida essa linha, abre-se o espaço para a barbárie e qualquer atrocidade contra a pessoa.

Afirmar as coisas dessa forma pode parecer chocante e radical. No entanto, quem quisesse justificar um suposto direito de tirar a vida ao próximo deveria responder primeiro a complicadas questões: esse suposto direito seria de todos? Quem poderia ser morto? Por quais motivos? A sociedade ou alguma autoridade daria o aval para matar, ou isso seria um direito subjetivo, sem limites? Quem defenderia as pessoas indefesas, vulneráveis ou indesejadas? Quem conseguiria viver em paz num mundo tão cruel, prepotente e arbitrário?

Mesmo não sendo legalmente permitido matar, nem moralmente aprovado, vivemos num mundo marcado por assustadora violência contra a pessoa e a vida humana! Mata-se e morre-se de maneira violenta por motivos banais. O número anual de assassinatos no Brasil é preocupante! E muita violência letal seria evitável, como as 19.398 vítimas de morte no trânsito em 2018, os 11.433 suicídios em 2016 e as 11,7 mil mortes violentas de crianças e adolescentes em 2017! Sem esquecer que a letalidade nas intervenções de forças policiais também está alta.

E como aceitar tanta violência contra pessoas, decorrente simplesmente de preconceitos ou discriminações de vários tipos, ou a violência bruta que se impõe sem nenhuma consideração pelo direito e pela dignidade do próximo? E a violência decorrente da disputa por legítimos direitos? E aquela pesada, quotidiana e impiedosa violência decorrente das injustiças sociais e econômicas, suportada sobretudo pelas camadas excluídas do bem comum? Como justificar tudo isso diante dos homens e de Deus, “amigo da vida”? (cf Sb 11,26).

O tema da Campanha da Fraternidade inclui também a vida da natureza, precioso dom que aprendemos a valorizar devidamente apenas quando já pesam sérias ameaças sobre ela. Cresce, felizmente, a consciência ambiental e ecológica, que não pode ser bandeira apenas de alguns idealistas. O zelo pela “casa comum”, como o papa Francisco definiu nosso planeta e o ambiente da vida, é dever de todos os beneficiários desse maravilhoso e variegado dom. Sem falar que desse cuidado dependem o futuro e a sobrevivência da nossa própria espécie.

No centro da reflexão da campanha deste ano está o conceito do “cuidado”. A vida do próximo, a nossa e a da natureza são realidades frágeis e valiosas, postas em nossas mãos e sob os nossos cuidados. Muitas vezes isso vai demandar também a nossa compaixão e a capacidade de nos inclinarmos para a vida vulnerável e ferida, assumindo sua defesa, suas dores e angústias. É humano ter compaixão e solidariedade efetiva diante da vida ameaçada. É desumano permanecer na fria indiferença diante do sofrimento e da dor do próximo.

Amar a vida significa amar as pessoas, os seres que vivem ao nosso redor e zelar pelo ambiente da vida. É compromisso de justiça e fraternidade.

*CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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