Grandes crises nos EUA e o nosso Banco Central

A década atual é a de pior desempenho do PIB desde 1900

Roberto Macedo*, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2019 | 03h00

Em quatro artigos anteriores – 4/7, 17/7, 15/9 e 21/9 –, argumentei por uma atuação bem maior do Banco Central (BC) diante da depressão econômica e social que assola o País desde o final de 2014. Este ano ela completará seu quinto aniversário e permanece sem saída à vista. Com base em dados do produto interno bruto (PIB), vi que ela levou a um resultado insólito e muito preocupante: o de que a década atual é a de pior desempenho desse indicador econômico desde 1900!

Em contraste, cheguei ao mercado de trabalho no período de maior crescimento da economia nesse ínterim, o final dos anos 1960 e início dos anos 1970, após me graduar como economista e seguir pela pós-graduação. Não me lembro de nenhum momento em que, então, eu e meus colegas tivéssemos encontrado qualquer dificuldade para conseguir trabalho. Era como se os empregos corressem atrás das pessoas. Hoje estas correm atrás de empregos e não acham.

É preciso disseminar a noção desse imenso desastre atual, pois a percepção dele e de sua enorme gravidade ainda não foi suficientemente difundida a ponto de levar a um inconformismo da sociedade. Isso para que ela cobrasse dos que governam o País que cumpram o seu dever de bem conduzi-lo, pela rápida adoção de mais políticas para pôr em ordem as finanças públicas e reativar a economia.

E para reverter também a gravíssima dimensão social da crise, estampada por números alarmantes de desemprego e subemprego, até quanto à desistência de procurar trabalho, dadas as enormes dificuldades de encontrá-lo. Muitos jovens que chegaram, e ainda estão chegando, ao mercado de trabalho têm seu futuro comprometido por essas dificuldades, que carecem de enfrentamento mais forte e mais amplo.

Com esse objetivo, continuo defendendo um afrouxo monetário pelo Banco Central (BC) na linha do chamado quantitative easing (QE), praticado desde o final da década passada pelos EUA, pelo Reino Unido, pelo Japão e pelo Banco Central Europeu (BCE). Em particular nas crises enfrentadas pelos EUA (2009) e na zona do euro (2012), cabendo destacar que o BCE voltou a adotar essa política no mês que passou.

Não vou repetir detalhadamente todos meus argumentos pelo QE, mas resumidamente são os seguintes: 1) no Brasil, a situação desastrosa das contas governamentais impede realizar mais gastos públicos para estimular a economia; 2) as reformas propostas pelo ministro Paulo Guedes são importantes, mas tomam muito tempo para serem aprovadas e levarem a resultados da magnitude necessária; 3) a política monetária vem reduzindo a taxa básica de juros, ou Selic, mas isso tem efeito muito fraco sobre a redução das taxas do crédito em geral, que permanecem em níveis muito altos e dificultam maior retomada de empréstimos e financiamento pelos agentes econômicos; 4) pelo QE, o BC passaria a adquirir créditos do sistema financeiro, mas de forma seletiva e focada nos ligados ao financiamento habitacional em geral e de obras de infraestrutura pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com o que esse sistema teria recursos para emprestar mais, e mais tomadores interessados, pois as taxas desses financiamentos são no primeiro caso inferiores a 10% ao ano e no segundo, um pouco acima desse valor; noutras palavras, a economia carece de crédito barato pelos padrões nacionais; 5) o BC deveria ainda realizar uma robusta liberação dos depósitos compulsórios nele realizados por instituições financeiras, mas também de forma seletiva e voltada para o financiamento habitacional.

No meu último artigo voltei ao assunto, animado pela recente retomada do QE pelo BCE. Hoje retornei mais uma vez, depois de refletir sobre o papel da política monetária no contexto de crises, ao ler um documento muito interessante acerca desse assunto no contexto da chamada Grande Depressão nos EUA, entre 1929 e 1933.

Quanto a isso, há muitos anos tomei conhecimento de estudo considerado um clássico da análise econômica, de Milton Friedman e Anna Schwartz, intitulado Uma História Monetária dos EUA – 1863-1960, publicado em inglês na forma de um livro da Princeton University Press, em 1963. Num dos capítulos, os autores argumentam que a política monetária seguida pelo banco central daquele país, conhecido como Fed, teve papel causal importante no surgimento da Grande Depressão, ao contrair a oferta de moeda e aumentar a taxa de juros.

Voltei a esse estudo após receber de um amigo economista, Edy Luiz Kogut, cópia de pronunciamento realizado em 2002 por Ben Bernanke, ex-presidente do Fed (2006-2014), numa conferência em homenagem ao referido Friedman, ao ensejo do seu 90.° aniversário. Friedman foi um famoso economista, que recebeu o Nobel da sua área de atuação em 1976. Quem se interessar por esse documento poderá encontrá-lo por meio do Google digitando Ben Bernanke on Milton Friedman’s Ninetieth Birthday.

Com 11 páginas e 13 referências bibliográficas, mais parece um artigo científico, tamanha é a profusão de argumentos bem fundamentados que dão sustentação à citada conclusão de Friedman e Schwartz. A conclusão de Bernanke é clara e direta, dirigida a esses pesquisadores: “Vocês estão certos, fizemos isso. Sentimos muito. Mas, graças a vocês, não faremos isso novamente”.

Quis o destino que sete anos depois, em 2009, o próprio Bernanke estivesse à frente do Fed, quando, diante da crise em andamento, houve a opção pelo QE. Então ninguém atribuiu a crise à política monetária e o Fed prontamente atuou eficazmente para contorná-la, ao contrário do que fez na crise de 1929 a 1932.

Não culpo a ação do nosso Banco Central pelo surgimento da depressão, que segue desastrosa, mas estou convencido de que está se omitindo ao não tomar medidas mais contundentes para superá-la.

* ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP, É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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