Igreja e política

A ‘Igreja’ só não deveria se envolver na vida política se seus membros fossem seres espirituais desencarnados, mas não o são.

Dom Odilo Pedro Scherer, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2022 | 03h00

Em tempos de campanha eleitoral, voltam a circular questionamentos sobre o envolvimento da Igreja na política. Falo da Igreja Católica Apostólica Romana. Há quem esperaria um claro engajamento partidário da Igreja e, até, que se formasse uma bancada católica no Legislativo para defender as reivindicações da Igreja Católica. Outros não aceitam qualquer envolvimento da Igreja na vida política, reconhecendo-lhe apenas competências cultuais e caritativas. Que pensar disso?

Vamos começar por esclarecer alguns conceitos. Por Igreja Católica entendemos a comunidade de todos aqueles que nela foram batizados e aderem à sua fé. É frequente a identificação indevida da Igreja com o clero, como se ela fosse uma organização clerical. É certo que bispos, padres e diáconos desempenham funções importantes, mas a Igreja não se identifica com eles, simplesmente. Daí decorre outra distinção necessária para o campo da política: é norma clara da Igreja que os clérigos não tenham identificação nem militância partidária, uma vez que estão a serviço de todos os membros da Igreja, não importando a adesão partidária.

Porém, excetuados os clérigos e membros de institutos de vida consagrada, todos os demais membros da Igreja estão plenamente livres para participarem da ação político-partidária e para se proporem como candidatos ao exercício de cargos políticos. Eles são, mesmo, incentivados a fazê-lo, exercendo seus direitos de cidadãos e participando da edificação do bem comum. O que se espera deles é que se mantenham fiéis aos princípios éticos coerentes com sua fé na vida pessoal e social e na atuação política. Portanto, é falso afirmar que a Igreja Católica é contrária à participação de seus fiéis na vida política. Muito pelo contrário, eles são incentivados a assumirem responsabilidades públicas para, dessa forma, darem sua contribuição ao bem comum.

Seria o caso de incentivar a formação de uma bancada católica, aproveitando a campanha eleitoral para eleger o maior número possível de candidatos católicos? Essa parece uma grande tentação, mas também pode revelar-se um grave equívoco. No ensinamento da Igreja Católica, os fiéis são livres para participar de agremiações partidárias, contanto que não estejam em contradição com os princípios da fé e da moral que professam. Entendemos que a promoção do bem comum não acontece de forma plena mediante uma única percepção da realidade. Um partido traz sempre uma percepção parcial da realidade e a uniformidade de visões e de propostas para a vida social e política pode levar a graves injustiças e violências.

O papa Francisco, em diversas ocasiões, fez apelo aos católicos para participarem dos mais variados âmbitos da vida pública, sem a pretensão de buscar e defender vantagens para a Igreja Católica. Eles são convocados a se empenharem na edificação do bem comum nas muitas formas como isso é possível. A atuação política, quando orientada por nobres fins, é serviço prestado ao homem e à sociedade. Há causas que se coadunam especialmente com suas convicções católicas e, então, enquanto cidadãos, eles têm o direito de se associar com quem pense da mesma forma para propor e defender suas ideias e propostas para a sociedade. Não o farão em nome da instituição Igreja Católica, mas como cidadãos, com direitos e deveres como os demais cidadãos.

Há, evidentemente, causas que são especialmente afinadas com a visão cristã de pessoa e da atividade humana, da sociedade e da cultura, como a defesa da vida humana, a dignidade da pessoa e seus direitos fundamentais, a justiça e a equidade nas relações sociais e econômicas, a solidariedade social e a paz, a atenção prioritária aos pobres, enfermos e pessoas vulneráveis, o cuidado do ambiente, “casa comum” da família humana. Na promoção e defesa dessas causas, cabe a colaboração entre as agremiações partidárias, pois, mais que religiosas, elas são causas humanas em torno das quais deveria haver o máximo consenso entre os partidos.

Os cristãos católicos sabem que não pode haver religiosidade agradável a Deus sem unir amor a Deus e amor ao próximo. E isso não por opções ideológicas de direita ou de esquerda, mas é “a partir do coração do Evangelho que reconhecemos a conexão íntima existente entre evangelização e promoção humana”, ensinou o papa Francisco na exortação Evangelii Gaudium (2013, n.º 178). Por isso, mesmo sendo dever primeiro do Estado a promoção da ordem social justa, todos os membros da Igreja, incluídos os clérigos, “não podem nem devem ficar à margem da luta pela justiça” – assim já ensinava Bento XVI na encíclica Deus caritas est (2005, n.º 239-240). Todos os cristãos são chamados a se preocupar com a construção de um mundo melhor.

Cabe, ainda, discutir se a “Igreja” deve envolver-se na vida política? Só não o deveria fazer se os seus membros fossem seres espirituais desencarnados, sem relações sociais e sem necessidades humanas. Mas não o são: são cidadãos como os demais seres humanos.

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CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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