Imprensa - hora de superar rótulos

O leitor só ficará conosco se soubermos apresentar-lhe um produto de qualidade

Carlos Alberto Di Franco*, O Estado de S.Paulo

05 de outubro de 2020 | 03h00

O presidente dos EUA, Donald Trump, confirmou a indicação da juíza Amy Coney Barrett para a Corte Suprema do país. A notícia recebeu um rótulo que, a meu ver, escancara um viés ultrapassado, injusto e unilateral: “ultraconservadora”. Minha afirmação se apoia na constatação de um desequilíbrio recorrente. Quantas vezes, amigo leitor, você viu semelhante carimbo na outra ponta do espectro ideológico? Nenhuma, estou certo. Não vejo na imprensa uma gradação análoga para definir os que apoiam causas da esquerda. Todos são chamados genericamente de progressistas, qualificativo que transmite glamour e modernidade.

Vende-se ao leitor não informação, mas uma percepção, cartas marcadas, quase contrabando opinativo. Essa é a verdade. Aí você dá uma garimpada e descobre coisas interessantes. Amy Coney Barrett entrou no Poder Judiciário pelas mãos de dois democratas: nomeada pelo presidente Jimmy Carter em 1980 como juíza do Tribunal de Apelações dos EUA e por Bill Clinton para o cargo de Associada de Justiça da Suprema Corte. Finalmente, foi elevada por Trump à Suprema Corte.

É casada, católica, mãe de sete filhos, dois deles adotados e negros. Sua fotografia familiar atrai e tem pegada. Foi pupila de Antonin Scalia. É defensora da 1.ª Emenda da Constituição americana, que garante às pessoas plena liberdade de expressão.

O rótulo “ultraconservadora” e a má vontade, creio, têm duas razões bem precisas. Primeiro, o que está em jogo na indicação de Amy Barrett é a possibilidade de a Suprema Corte dos EUA reverter o famoso caso Roe x Wade, que permitiu a prática do aborto. Isso causa vertigem nos chamados progressistas. Depois, e para complicar, Amy Barrett é uma originalista. Ela acredita que a enxuta Constituição dos EUA basta para resolver os conflitos jurídicos, mesmo tendo sido escrita há 233 anos. Os valores constitucionais, sobretudo o respeito às liberdades individuais e à vida, devem ser defendidos e conservados. 

Não é o que acontece aqui. Na realidade brasileira, ministros progressistas da Suprema Corte, armados de intenso ativismo judicial, atropelam o Congresso Nacional e impõem valores que estão na contramão da sociedade.

Creio que chegou a hora de a imprensa superar a síndrome dos rótulos e desarmar essa armadilha antijornalística. Trata-se de uma prática que, certamente, acaba arranhando sua credibilidade. Alguns colegas, talvez inconscientemente, não perceberam que o mundo mudou. Insistem, teimosamente, em reduzir a vida à pobreza de quatro qualificativos: direita, esquerda, conservador, progressista. Tais epítetos, estrategicamente pendurados, têm dupla finalidade: exaltar ou afundar, criar simpatias exemplares ou antipatias gratuitas. É tudo menos jornalismo. Debatam-se os temas, com clareza e transparência, nas páginas de opinião. Mas não se use o espaço informativo para enviesar a notícia. O leitor não quer ser conduzido. Quer ser informado.

A reportagem é, ou deveria ser, sempre substantiva. O adjetivo é o enfeite da desinformação, o farrapo que tenta cobrir a nudez da falta de apuração. É, frequentemente, uma mentira.

É importante que os repórteres e responsáveis pelas redações tomem consciência desta verdade redonda: a isenção (que não é neutralidade) é o melhor investimento. O leitor quer informação clara, corajosa, completa, bem apurada. E hoje em dia pode buscá-la em muitos espaços do imenso mundo digital. Ficará conosco se soubermos apresentar um produto de qualidade.

É necessário perceber, para o bem o para o mal, que perdemos a hegemonia da informação e da narrativa. Impõe-se um jornalismo menos anti e mais propositivo. Precisamos olhar para as nossas coberturas e nos questionarmos se há valor diferencial no que estamos entregando aos nossos consumidores.

Outro problema recorrente: o negativismo e a falta de um jornalismo propositivo. Alguns setores da mídia, em nome da independência, castigam diariamente o fígado dos consumidores. Dominados pelo vírus do negativismo, perdem conexão com a vida real. O jornalismo não existe para elogiar, argumentam os defensores de uma imprensa que se transforma em exercício permanente de contrapoder. Tem uma missão de denúncia, de contraponto. Até aí, estou de acordo. A impunidade, embora resistente, está se enfrentando com o aparecimento de uma profunda mudança cultural: o ocaso do conformismo e o despertar da cidadania. Por isso a imprensa investigativa, apoiada em denúncias bem apuradas, produz o autêntico jornalismo da boa notícia. Denunciar o mal é um dever ético.

A deformação, portanto, não está apenas no noticiário negativo, mas na miopia, na obsessão pelo underground da vida. O que critico não é o jornalismo de denúncia, mas o culto ao denuncismo e a ausência de um jornalismo propositivo. Estou convencido de que boa parte da crise que castiga a mídia pode ser explicada pelo isolamento de algumas redações, por sua orgulhosa incapacidade de ouvir suas audiências.

Menos rótulo e mais informação. Pode parecer uma pequena providência. Mas passará aos leitores um recado do equilíbrio cada vez mais demandado.

*JORNALISTA. E-MAIL: DIFRANCO@ISE.ORG.BR

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