Impunidade e irresponsabilidade

Cumpre dar um choque ético na sociedade brasileira. Acordá-la de sua anestesia moral

Ruy Martins Altenfelder, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2021 | 03h00

Ruy Barbosa, um dos maiores juristas brasileiros, ensina que a impunidade e a irresponsabilidade são as causas eternas e infalíveis das perturbações da ordem pública e da ordem moral. Lembrei-me dessa lição ao comparar recentes frases dos presidentes Jair Bolsonaro e Joe Biden.

Bolsonaro, ao afirmar que a democracia depende das Forças Armadas. Biden, o novo presidente dos Estados Unidos, ao afirmar, em seu pronunciamento de posse, que aquele dia era o dia da democracia. “Hoje”, enfatizou Biden, “celebramos o triunfo não de um candidato, mas a de uma causa, a causa da democracia. A vontade do povo foi ouvida. E a vontade do povo foi feita.”

Ressalta que as últimas semanas nos ensinaram uma lição dolorosa. Existem verdades e existem mentiras contadas para se ter lucro e poder. E cada um de nós teve uma responsabilidade, como cidadãos e, especialmente, como líderes que se comprometeram a honrar a Constituição, defender a verdade e derrotar as mentiras.

Ao falar da importância do espírito solidário, o novo presidente dos Estados Unidos pediu que todos se juntem a ele nesta causa: união. “Vim para lutar contra os inimigos que enfrentamos: a raiva, a violência, a doença, o desemprego e a desesperança. Com união podemos fazer coisas grandiosas, coisas importantes. Podemos corrigir os erros. Podemos colocar as pessoas para trabalhar. Podemos educar nossas crianças em escolas seguras. Podemos derrotar o vírus mortal. Podemos recompensar o trabalho e reconstruir a classe média, garantir que o sistema de saúde seja para todos. Podemos promover a justiça racial e fazer da América, uma vez mais, a principal força do bem no mundo” (Estado, 21/1, A12).

Os Estados Unidos enfrentam desafios que exigem que o governo ajude, não apenas pare de atrapalhar.

A revista britânica The Economist afirma que para ter mais chance de sucesso Biden precisa se ater à sua folclórica marca de centrismo obstinado. Os aliados ocidentais precisam ter paciência, não esperar uma transformação milagrosa da noite para o dia. O retorno da moderação à Casa Branca será apenas o primeiro passo de uma longa jornada.

E no Brasil?

Como lembrou o jurista José Renato Nalini em sua obra Ética Geral e Profissional, cumpre dar um choque ético na sociedade brasileira. É passada a hora de acordá-la de sua anestesia moral. Extraí-la da letargia é missão de quem procura enxergar além dos estreitíssimos limites de suas próprias conveniências.

A salvação da humanidade, em risco grave e não remoto de desaparecimento, está na consciência de quem não se conforma com a passividade de muitos, a inconsequência de tantos e o regime de “salve-se quem puder” instaurado nas últimas décadas. A sociedade humana está enferma. Praticamente na UTI. A doença moral deixou-a em coma. Há quem diga que o estágio é irreversível. Despertá-la para uma reação é premente.

Urge fazer que toda pessoa se compenetre de sua responsabilidade individual, cidadã e social. Esse é o papel reservado à ética neste terceiro milênio. O objeto da ética é a moralidade positiva, ou seja, o conjunto de regras de comportamento e formas de vida por meio das quais tende o homem a realizar o valor do bem. A ética é uma disciplina normativa, não por criar normas, mas por descobri-las e elucidá-las. Seu conteúdo mostra às pessoas os valores e princípios que devem nortear sua existência. A ética aprimora e desenvolve o sentido moral do comportamento e influencia a conduta humana. Não é tão importante definir ética, senão vivenciar ética. Na mania de complicar as coisas, somos pródigos em sofisticar o que pode ser absorvido e mais bem assimilado com a singeleza.

Cabe indagar: o mundo é como é e não pode ser modificado? Ou está em cada um de nós a capacidade de transformá-lo em algo mais agradável, tranquilo, fraterno e, portanto, mais humano?

Quem consegue descobrir a beleza da ética e se maravilhar com ela não recusará o convite a se deslumbrar com os frutos a serem colhidos a partir desse encontro profundo.

O presidente Joe Biden alerta que este é um tempo de provação. Enfrentamos um ataque à nossa democracia e à verdade, um vírus violento, a desigualdade crescente, a ferroada do racismo estrutural, a crise climática, o papel da América no mundo. Qualquer um desses ataques seria o suficiente para nos desafiar da maneira mais profunda. Mas o fato é que enfrentamos todos de uma vez, pondo diante desta nação uma das responsabilidades mais sérias que já tivemos. Agora vamos ser testados mais uma vez. Vamo-nos erguer mais uma vez? É hora de coragem, pois há muito por fazer.

Alerta que vale para todos os países.

Para finalizar, resposta à pergunta: para que servem as Forças Armadas? Para garantir, pelo respeito à Constituição, a integridade, a democracia, a saúde, a educação, o progresso e a paz de seu povo.


ADVOGADO, É PRESIDENTE DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS JURÍDICAS (APLJ) E DO CONSELHO SUPERIOR DE ESTUDOS AVANÇADOS  (CONSEA/FIESP)

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