Incertezas sobre a volta às aulas

O que se tem visto é improvisação, busca de soluções inviáveis, questões impertinentes

João Batista Oliveira*, O Estado de S. Paulo

01 de junho de 2020 | 03h00

Merecem reflexão as palavras do ministro da Educação da França sobre o retorno às aulas: as consequências de não abrir as escolas são muito mais sérias do que a alternativa. Juntamente com dois pesquisadores da consultoria IDados, Thaís Barcellos e Matheus Souza, fizemos uma extensa revisão das evidências científicas sobre o que se pode esperar e aprender de situações similares à presente. Aqui vai uma brevíssima síntese. 

Primeiro, há danos. Eles tendem a incidir de maneira desigual sobre pessoas e grupos. Primeira infância e alunos ainda não alfabetizados serão os mais afetados no longo prazo. São os menos autônomos para aprender. Há um momento certo para certas aprendizagens, especialmente no início da vida. No curto prazo, os que concluem etapas de ensino – especialmente o ensino médio e superior – terão mais dificuldade de ingressar no mercado de trabalho. As perdas de aprendizagem pela paralisação de aulas são menos graves do que parece. Na verdade, o que acontece é mais interrupção de ganhos do que perdas propriamente ditas. Quanto à desigualdade, seu eventual aumento no curto prazo tende a se recuperar ao longo dos anos.

Segundo, a recuperação se dá em longo prazo, não no imediato. Aumentar dias e horas de ensino não se confirma como estratégia promissora, especialmente se consistir em mais do mesmo e, pior ainda, se implicar doses maciças que acabam prejudicando a retenção e fixação das novas aprendizagens. As evidências também não corroboram a fé ilimitada no potencial das tecnologias educacionais, embora seu uso se torne crescente dentro e fora da escola.

Terceiro, as estratégias que promovem saltos qualitativos de qualidade dependem de uma série de condições que não se encontram presentes no cenário educativo brasileiro e, particularmente, no cenário e no horizonte das políticas educacionais e dos parâmetros dentro dos quais operam as redes públicas de ensino. A eficácia das pedagogias – inclusive com mediação de tecnologias – está fortemente associada ao nível de preparo acadêmico dos professores e de um currículo robusto. O Brasil não dispõe desses elementos.

Resta a evidência sobre as estratégias que podem funcionar com ou sem pandemia. A principal delas tem que ver com o uso do tempo disponível. É fundamental assegurar a frequência escolar – a mais barata e mais eficaz de todas as estratégias, especialmente com alunos de maior risco de reprovação e deserção. Depois dela, há um conjunto de estratégias associadas com pedagogias mais estruturadas, que envolvem materiais e orientações mais específicas, associadas a um processo de avaliações pertinentes e frequentes, implementadas de forma articulada para orientar o trabalho do professor. Nesse contexto, o uso dos deveres de casa também pode ser um valioso instrumento – mas sua eficácia varia de acordo com o nível de ensino e a pertinência do retorno dado a partir dele. Ou seja, o que funciona é oferecer algo bem feito e que o professor consiga fazer, com base em currículos robustos e materiais estruturados de alta qualidade.

Também existe alguma evidência a respeito de estratégias eficazes para atender os alunos com maior nível de dificuldade. A depender dos resultados da Prova Brasil, isso incluiria metade ou mais dos alunos. Soluções eficazes foram experimentadas em situações intensivas, como as férias alongadas ou o uso do contraturno. Elas incluem um tutor altamente preparado, materiais adequados e de implementação flexível para atender às diferenças individuais, quatro a seis alunos por tutor e um processo intensivo de sessões diárias. Ou seja: isso pode funcionar para corrigir os problemas de falta de base, mas exige recursos e talentos de custo e complexidade relativamente elevados. Aqui também há espaço para uso de tecnologias adequadas.

Sobre as habilidades socioemocionais, há mais evidências indiretas do que diretas. A mais relevante é animadora: as pessoas são resilientes e capazes de se superar e de melhorar em face das adversidades. Traumas profundos causam estresse continuado, e este pode afetar funções essenciais para a aprendizagem como a atenção e a memória. Mas para a maioria das pessoas a volta progressiva à rotina num ambiente acolhedor e o estímulo dos colegas e professores serão suficientes para que se dê a volta por cima. A mera possibilidade de ir à escola já apresenta estímulos saudáveis para enfrentar o dia a dia.

Até aqui o que se tem visto é muita improvisação, busca de soluções inviáveis, promessas e cobranças impertinentes: repor integralmente o calendário escolar e as horas-aula previstas na lei, apelar para as tecnologias. Nada disso parece ter chances de ajudar de maneira significativa a recuperar o tempo perdido. As evidências sugerem caminhos que, se bem planejados e implementados, podem ajudar a reduzir os prejuízos. E, quem sabe, fugir da improvisação, da mediocridade reinante, e promover estratégias mais eficazes, até mesmo para a operação regular das escolas no longo prazo.

*PRESIDENTE DO INSTITUTO ALFA E BETO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.