Inclusão como urgência

Pelo bem do País, as empresas têm de passar a atuar efetivamente para incluir pessoas negras em todos os níveis hierárquicos.

Flavio Soares de Barros, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2021 | 03h00

As empresas precisam ir além do tokenism, a contratação simbólica de pessoas de grupos minoritários, e da promoção de palestras e workshops sobre inclusão e racismo – muitas vezes por causa de ações trabalhistas –, e passar a atuar efetivamente na inclusão de pessoas negras em todos os níveis hierárquicos, pelo bem do País.

Olhe ao redor. Quantas pessoas negras, homens ou mulheres, ocupam cargos de diretoria? A pergunta também pode ser dirigida às redações, ao Judiciário, etc.

A justificativa é sempre a qualidade da educação. No entanto, as disparidades de renda e riqueza, cada vez maiores e mais pronunciadas, afetam o desempenho escolar e se refletem no acesso a oportunidades. Assim, as fraturas econômicas e raciais que se perpetuam na sociedade brasileira não podem ser amenizadas apenas por esse fator.

É fato que a exclusão deste grupo prejudica a geração de riqueza. O artigo The allocation of talent and U.S. economic growth (HSIEH, Chang‐Tai et al., 2019), com base na redução da discrepância entre a proporção de mulheres e pessoas negras na população estadunidense e na presença desses grupos em posições altamente qualificadas, conclui que, à medida que essa distribuição se aproxima da composição da população, há um efeito positivo no PIB. A inclusão, portanto, beneficia o conjunto da sociedade.

As lideranças precisam estar prontas para agir em prol da inclusão. São necessárias medidas reais de mudança, com base na compreensão da realidade e das demandas da população negra, contando, inclusive, com a participação de parcerias institucionais e do movimento negro.

Os passos necessários, além da atração de talentos, incluem preparação, plano de carreira, letramento das equipes e, principalmente, o compromisso da empresa com a inclusão.

Não basta promover o acesso inicial. É necessário garantir às pessoas negras a complementação de eventuais lacunas na educação e na formação para o trabalho. Em sua maioria egressas da escola pública, elas necessitam de mentoria específica e apoio para que talentos aflorem.

É indispensável garantir que tanto jovens como profissionais mais experientes permaneçam na empresa e que haja sua inserção progressiva nos cargos mais altos. O treinamento e a conscientização das equipes sobre racismo, em todos os níveis, devem assegurar que as pessoas negras se sintam parte do ambiente corporativo.

O comprometimento da organização, desde a sua base, passando pelos cargos intermediários e chegando à alta direção, deve ser efetivo. Adotar o discurso da diversidade mantendo uma composição da diretoria que não reflita essa preocupação ou não remover obstáculos à progressão na carreira – muitas vezes difíceis de identificar sem auxílio externo – não são compatíveis com o enfrentamento da desigualdade.

A questão demanda o engajamento do ecossistema como um todo, inclusive com a exigência do mesmo compromisso em relação aos stakeholders externos.

O tema não pode ser reduzido à preocupação com representatividade ou imagem. Empresas com indicadores ambientais, sociais e de governança corporativa (ESG) mais altos, por exemplo, perderam menos durante a pandemia e apresentam desempenho melhor.

O investimento em inclusão nas empresas não pode, portanto, ter um caráter beneficente. É um esforço que a sociedade precisa assumir, simultaneamente à melhoria da educação no longo prazo. Inclusão é urgência. Não pode ser uma esperança irrealizável.

Frequentemente, a adoção de medidas de equidade é vista como uma distorção da “meritocracia” ou como indução de “ineficiência”. Esse questionamento precisa ser endereçado a outras situações. Como para a foto que circulou há pouco tempo nas redes sociais exibindo a equipe de uma empresa quase exclusivamente branca e masculina. Não foi um exemplo de color blindness.

No Brasil, a segregação formal não foi necessária. A exclusão ocorre por meios muito mais eficientes, dissimulados ou tácitos, mas com resultados ruidosos. No entanto, mais e mais pessoas negras talentosas estão estudando e ingressando no mercado de trabalho – o que desmente o livro de Thomas Sowell sobre ações afirmativas. Essas pessoas estão prontas para contribuir com a melhoria do País.

Os efeitos prejudiciais da desigualdade para a sociedade e para as gerações futuras faz com que este problema deva ser enfrentado agora, o que precisa levar em conta a disputa implícita por espaços de poder.

Um poema do poeta e jornalista Oswaldo de Camargo começa assim: “Minha vida seria muito diferente se eu não tivesse, quando pequeno, aprendido a tocar oboé”. Uma oportunidade muda uma vida. O processo real de inclusão nas empresas pode começar a mudar o País.

Antes que Morgan Freeman seja invocado, já que 20 de novembro está próximo: não falar sobre uma doença não faz com que ela desapareça. Líderes que se dizem “daltônicos” em relação à raça apenas reproduzem as práticas racistas. Elas precisam ser abandonadas de uma vez por todas.

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ADMINISTRADOR, É DOUTOR EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS

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