Incor, 40 anos servindo à sociedade

Apesar dos percalços, os nossos recursos humanos o mantiveram em elevado patamar

*CHARLES MADY, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2019 | 03h00

O Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidad de São Paulo (USP) comemorou 40 anos de existência. Foi, e está sendo, um longo trajeto de muitas vitórias e algumas derrotas. Tivemos vitórias expressivas na assistência, no ensino e na pesquisa, colocando-nos entre os melhores hospitais de excelência do País. As derrotas foram e estão sendo resolvidas graças à enorme capacidade de seus funcionários, institucionais por formação, que apesar das adversidades mantiveram esse centro dentro dos melhores padrões. Mesmo em ocasiões em que as condições eram muito adversas, souberam contornar as dificuldades, associando capacidade de trabalho ao amor pela instituição.

O Incor nasceu pelas mãos de um grupo de mestres ilustres, altamente qualificados, moral e profissionalmente, que dedicaram boa parte da vida à sua construção. Eram tidos como sonhadores, pois não havia, de acordo com os críticos da ocasião, necessidade de um hospital dessa envergadura para tratar apenas os corações da população. Os opositores diziam, antes da inauguração, que deveria ser chamado “Instituto do Pericárdio”, pois só conseguiríamos tratar a membrana que reveste o coração. Hoje somos insuficientes para atender às demandas da nossa sociedade.

Idealizaram um órgão de saúde único, agregando equipes multiprofissionais atuando em assistência, ensino e pesquisa num mesmo espaço físico. Faço parte de um grupo que assistiu, e participou, com orgulho, dessa construção. Alguns, como eu, estão ainda presentes, às vezes são chamados de “dinossauros”, esforçando-se por manter o mesmo espírito de seus fundadores, qual seja, o amor e a dedicação à instituição.

Certos nomes devem sempre ser lembrados e reverenciados. Zerbini, Décourt, Pileggi, Verginelli, Macruz, Tranchesi, Bittencourt, Serro-Azul, Ebaid, Del Nero, Bellotti, entre outros, deixaram uma herança intelectual e de trabalho inesquecível. Não buscavam prestígio e eram avessos à mídia. Queriam construir para a sociedade. E realizaram, transpondo todos os obstáculos. Pelo valor, o prestígio veio espontaneamente a eles. Eram construtivos, e não destrutivos. Souberam agregar. Foi uma geração que deveria e deve ser cultuada para sempre em nosso meio. Sempre digo a quem me cerca que “quem não cultua os mestres jamais será um mestre”. Foram exemplos de dignidade e integridade, que alçam o ser humano ao que de melhor ele pode apresentar. São, e foram, lições eternas. As escolas clínicas e cirúrgicas que formaram encontram-se nos anais da medicina deste e de outros países. Tinham foco na universidade, e a tinham como finalidade, não se apequenando perante as tentações da vida. Dificilmente a erosão do tempo fará com que sejam esquecidos. Muitos seguiram seus ensinamentos, perpetuando suas lições de vida. Mas alguns, infelizmente, se perderam por caminhos tortuosos.

As gestões seguintes administraram cada qual à sua maneira, produzindo benefícios e malefícios, como é a regra no setor público deste país. A simples conquista de postos de comando não leva à evolução construtiva. Como dizia Blaise Pascal, de que adianta conquistar o mundo, o poder pelo poder, sem retorno social, quando a consciência da instituição é a maior crítica das gestões? Apesar dos percalços, nossos recursos humanos se incumbiram de manter o Incor em seu elevado patamar. 

Para manter essa estrutura, cara, nossos idealizadores foram novamente criativos. Com apoio público, a Fundação Zerbini foi instituída, captando recursos provenientes de convênios médicos e doações. Os profissionais recebiam uma complementação de seus salários para permanecer, no também original projeto de trabalho, em tempo integral. Assim, nosso “elefante branco” começou a caminhar.

Rapidamente o sucesso surgiu, com índices qualitativos e quantitativos que surpreenderam as áreas de saúde e educação, nacional e internacionalmente. Formamos, em graduação e pós-graduação, profissionais que fazem parte de centros de ponta, no Brasil e no exterior. Produzimos ciência que ocupa espaço nos melhores congressos e periódicos do mundo. Nossos profissionais dão assistência de elevado nível.

Nos últimos tempos, o modelo de tempo integral, infelizmente, vem sendo corroído. Há motivos para essa mudança de rumo – assunto que foge às finalidades deste texto. Houve um projeto, por nós coordenado, para construir um centro de diagnóstico, em terreno próximo ao nosso hospital, doado à Fundação Zerbini, a nosso pedido, pelo Bradesco. Esse banco realizou uma planta de edifício com vários andares, que por ele seria realizado, onde funcionariam consultórios médicos e multiprofissionais, além de laboratórios de análises clínicas e imagens. No andar térreo haveria uma agência bancária, preço a “pagar” pelo empreendimento. Os profissionais ficariam fixos, desenvolvendo todas as suas atividades num único centro, que seria o Centro Diagnóstico do Incor, reforçando o tempo integral como filosofia de trabalho. Seria nossa independência financeira, além de liberar espaço no edifício original. Por motivos políticos, que representaram interesses que me recuso a aceitar e aqui comentar, que vão além da minha compreensão como profissional da saúde e muito me desiludiram, o projeto foi destruído. Gestões devem usar o poder para construir, e não para destruir. A consciência, pessoal e social, exerce inevitavelmente seu poder de cobrar.

Esta é uma análise de quem está chegando, em sua vida acadêmica, “à outra margem do rio”, que viveu a história dessa instituição ao longo de toda a sua existência, com orgulho e lealdade. Esta é uma homenagem que os “dinossauros” que ajudaram a construir o Incor deixam, esperando que o espírito acadêmico de seus fundadores, e discípulos, permaneça presente nas gerações atuais e futuras. 

Sendo redundante, “quem não cultua os mestres jamais será um mestre”.

*PROFESSOR ASSOCIADO INCOR-FACULDADE DE MEDICINA DA USP. E-MAIL: CHARLES.MADY@INCOR.USP.BR

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