Indagações para uma noite de primavera

Preocupa-me chegarmos até lá com dois candidatos portadores de reluzentes credenciais populistas.

Bolívar Lamounier, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2022 | 03h00

Se o próximo presidente for, de fato, um dos dois que lideram as pesquisas, uma coisa é certa: na noite de 2 de outubro nós, a maioria dos brasileiros, estaremos por aí desnorteados, cambaleando como um pobre-diabo atingido no cocuruto por um coice de cavalo.

Esqueçamos, porém, a nobre espécie dos equinos e tentemos entender as coisas através do nosso singelo vernáculo. Suponhamos que fomos atingidos não por um coice, mas por uma reles interrogação. Reles, sucinta e, sobretudo, inusitada para um momento pós-eleitoral. Que raio de interrogação será essa? Ei-la: e daí? E a resposta, igualmente inusitada, será: nada. Nada?! Como nada? Ora, meus caros leitores, nada porque ninguém saberá dizer que diferença fará para nós e para o Brasil o vitorioso ser Luiz Inácio ou Jair Bolsonaro. Algum de vocês imagina que este nosso país letárgico vai subitamente dar um salto de dois metros e aterrar ágil, afável, pacífico e próspero só porque o vencedor foi aquele, e não o outro? Creiam-me: as chances de isso acontecer são iguais num ou noutro caso, e próximas de zero em ambos.

Exploremos a hipótese inversa. Algum de vocês imagina o Brasil despencando morro abaixo e só parando quando bater seu cocuruto numa pedra que estava lá embaixo, em sua plácida solidez? Neste caso, vença Lula ou Bolsonaro, minha aposta é a de que nossas chances de quebrar a cabeça serão iguais, mas não próximas de zero. Ao contrário, como manda a lógica, ambos nos causarão uma dor de cabeça atroz. Até o Dr. Pangloss (lembram-se dele?), em seu infinito otimismo, já nos recomendou certos cuidados, porque uma hora destas poderemos cair de verdade.

Meus leitores com certeza se lembram de um país, a Argentina, que atingiu um nível de riqueza superior ao de Espanha, Itália, Suíça, Alemanha e Suécia, mas de repente, não mais que de repente, deu com os burros n’água e lá está até hoje, estagnado, com seus outrora altivos cidadãos embusteados pelos que detêm o poder, mas não sabem o que fazer com ele. Assim tem sido desde o desaparecimento do comandante-general Juan Domingo Perón.

Mas a Argentina não se dissolveu: continua lá, com todas as qualidades que sempre teve. Por essa e por outras é que Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), um sapientíssimo teólogo alemão, sempre nos garantiu que vivemos no melhor dos mundos possíveis. Não sei se a média dos séculos e milênios respalda seu ponto de vista, mas o Brasil dos dias de hoje parece-me às vezes inclinado a contestá-lo. Percebo que certo número de brasileiros contraiu o curioso hábito de anotar em seus diários alguns dos motivos que os deixam assustados. Eu mesmo, que não sou temeroso, lembro-me de que até poucos anos atrás nos referíamos à nossa economia como a oitava maior do mundo, mas o que agora nos chama a atenção é que ela parece incapaz de dar um passo à frente. Pergunto-me se Leibniz atualizou suas estatísticas sobre o nosso sistema de ensino. Às vezes vejo na TV certas coisas que me parecem aterradoras, mas vou me abster de dar exemplos, para não afligir almas frágeis que porventura frequentem esta página.

Por favor, entendam-me: sempre tive imenso respeito pelos conhecimentos do Dr. Leibniz. O que me preocupa no momento é chegarmos à primavera com dois candidatos portadores de reluzentes credenciais populistas. Um deles, o sr. Luiz Inácio, a rigor nem poderia se candidatar, por dever explicações à Justiça. O outro, o sr. Bolsonaro, não parece apreciar a elevada magistratura a que foi alçado, que em tese o obriga a permanecer muito tempo no quarto andar do Palácio do Planalto. Sente-se tolhido em sua paixão por atividades atléticas. Imaginem que, outro dia, convocou seus amigos motoqueiros para um passeio. Bloqueou quase 200 quilômetros de uma rodovia federal, na véspera de um feriado. Aí sim, esbanjando alegria, retornou ao palácio, feliz por nos haver proporcionado mais uma demonstração de seu pendor esportivo. Olhando à minha volta, percebi que os cidadãos comuns, policiais rodoviários, juristas e generais que testemunharam o episódio nada viram de insólito no episódio, e aí decidi votar com o relator: concluí que, realmente, não pode haver mundo melhor que este.

É por isso que, quando me acontece de ir a Brasília, chego a me comover com a brandura que ora reina entre os Três Poderes. Percebo indícios de que nosso sistema político encontra-se em avançado estado de desidratação e que nossa estrutura de partidos se esfarelou já há algum tempo, mas não me deixo levar pela turva premonição de que uma hora destas vamos nos ver em escombros. Somos a oitava economia do mundo. E podemos contar com a coragem, o tirocínio e o senso de responsabilidade de nossa atual classe política.

Leibniz não esclareceu se a divina providência fez questão de executar sozinha seu projeto do melhor dos mundos ou se acolheria de bom grado a cooperação de terráqueos qualificados que se dispusessem a ajudar. Pelo sim, pelo não, penso que teria sido prudente.

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CIENTISTA POLÍTICO, É SÓCIO-DIRETOR DA CONSULTORIA AUGURIUM. SEU ÚLTIMO LIVRO É ‘JANO: IMAGENS DA VIRTUDE E DO PODER’ (EDITORA DESCONCERTOS)

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