Indignação e coragem

Derrotar o populismo é vital para nos livrarmos dos asnos que querem destruir a democracia

Luiz Felipe D’Ávila , O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 03h00

O Brasil vive o mais longevo ciclo de governos populistas da sua História. Já se passaram quase 20 anos desde a posse do primeiro governo Lula. Após um breve hiato de sensatez, Lula embarcou no populismo desenfreado, aparelhando o Estado e institucionalizando um gigantesco esquema de corrupção que sangrou os cofres do Estado, corrompeu partidos e políticos, debilitou o funcionamento das instituições democráticas e aplainou o caminho para a eleição de Dilma Rousseff.

Fiel retrato da combinação de incompetência administrativa e inabilidade política, Dilma mergulhou o País em profunda recessão econômica, que produziu 13 milhões de desempregados e fez disparar a dívida pública. Ao tentar maquiar a situação lastimável das contas públicas, ela cavou a sepultura do seu impeachment, em 2016.

O cataclismo da era Lula-Dilma despertou o sentimento antipetista que elegeu Bolsonaro em 2018. A farsa do populismo de direita veio rapidamente à tona. A maquiagem liberal foi removida e a agenda reformista, sepultada. Aliás, Bolsonaro e Dilma parecem irmãos gêmeos: ambos são guiados pelo nacionalismo tacanho, pela defesa implacável dos interesses corporativistas e por um funesto intervencionismo do Estado na economia.

Não é por outra razão que a democracia brasileira atravessa a mais grave crise institucional desde a redemocratização do País, em 1985. Ao debilitar o sistema de freios e contrapesos institucionais, os governos populistas buscam a conquista do poder autoritário. Foi assim na Venezuela de Hugo Chávez, na Polônia de Andrzej Duda, na Hungria de Viktor Orbán e assim será no Brasil se o eleitor não expelir o populismo do poder pelo voto em 2022. Mas o populismo só se converte em autoritarismo quando a passividade cívica neutraliza a capacidade de nos indignarmos e de reagirmos às barbaridades cometidas pelo governo.

Nos Estados Unidos, a indignação cívica com a invasão do Congresso uniu milhares de cidadãos, imprensa conservadora e liberal e políticos republicanos e democratas em torno da defesa das instituições democráticas e da condenação do ato de vandalismo que representou o assalto ao Capitólio. Nas verdadeiras democracias há uma fronteira de respeito, decência, civilidade e dignidade que não pode ser cruzada, sob pena de o país descarrilar para o autoritarismo.

No Brasil, quando a sociedade civil se mobiliza – como foi no caso da reforma trabalhista e no da previdenciária –, o Congresso responde à pressão popular e aprova as reformas. Mas toda vez que a sociedade civil baixa a guarda, passa a boiada do interesse corporativista. A pressão do funcionalismo público desidratou a PEC Emergencial em mais de R$ 50 bilhões da proposta original. A vitória do corporativismo significa menos instrumentos de gestão para governadores e prefeitos frearem o gasto público e menos recurso para financiar o auxílio emergencial para os mais pobres. Mais uma vez o Congresso e o governo apostaram unicamente no aumento das receitas, como corte de benefícios tributários e aumento de impostos, para conter a escalada do rombo das contas públicas.

Santo Agostinho dizia que “a esperança nos deu duas filhas lindas: a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como elas são; a coragem, a mudá-las”. Será preciso uma boa dose de indignação para erradicar a passividade cívica que nos leva a tolerar doses diárias da cicuta populista que mina a credibilidade da democracia e do funcionamento das instituições.

A sociedade civil precisa se mobilizar em torno de três pautas essenciais: engajar-se no esforço de guerra da vacinação da população, ajudar prefeitos e governadores a estancar a desesperadora crise social que foi agravada pela fome e pressionar o Congresso para votar os projetos que ajudem a impulsionar a retomada do crescimento, investimento e emprego. Na política, os partidos do campo democrático precisam se unir em torno de uma candidatura presidencial que personifique os seguintes atributos: capacidade de restabelecer a tolerância e a civilidade num país destruído pela boçalidade e pela corrupção moral e institucional que esgarçaram a confiança na democracia; competência técnica e política para tirar 20 milhões de brasileiros que o populismo jogou de volta à pobreza; coragem para sepultar a república de privilégios que sustenta o corporativismo; e liderança pública para reconstruir uma nação sustentável, capaz de conciliar a preservação do meio ambiente, o crescimento econômico e a abertura comercial.

A indignação e a coragem são vitais para mobilizarmos a sociedade e nos unirmos em torno de uma missão crucial: remover do poder os governantes “egoístas, vítimas de apoteose mental ou culto à personalidade. São asnos carregados de relíquias”, como bem descreveu Ulysses Guimarães, um grande líder político que lutou para restaurar a democracia no País. Derrotar o populismo em 2022 é vital para nos livrarmos dos asnos carregados de relíquias que querem destruir a democracia no Brasil.


CIENTISTA POLÍTICO, É AUTOR DO LIVRO ‘10 MANDAMENTOS – DO BRASIL QUE SOMOS PARA O PAÍS DE QUEREMOS’

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