Ir às causas é ir ao futuro

Somente o presidente Biden reconheceu o perigo das mudanças climáticas

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 03h00

Como num passe de mágica, subitamente se “descobriu” a crise hídrica e até o presidente da República pede agora que economizemos água. Escrevo “até o presidente” porque a característica de Bolsonaro tem sido desconhecer os problemas fundamentais e perder-se ou emaranhar-se nos pequenos acessórios sem maior importância. A forma como o presidente desconheceu o perigo da pandemia revela um estilo de administrar que não se limita a ser cego em face do horror da covid-19.

Além disso, uma de nossas características como povo, no Brasil, tem sido apontar apenas as consequências, deixando as causas concretas para plano subalterno sem nos interessarmos em conhecer as origens dos fenômenos. Essa situação se acentuou no atual governo da República. Neste momento, por exemplo, a longa estiagem no Sudeste e no Sul diminuiu o volume dos reservatórios e põe em risco a capacidade de produzir energia elétrica no País. Até a gigantesca Itaipu começa a ser afetada. Fala-se, inclusive, em importar eletricidade do pequeno Uruguai, que não dispõe sequer de um sistema de rios de grande porte, como temos nós no Brasil. Se chegarmos a importar, receberemos eletricidade gerada por poluentes usinas a diesel próximas à fronteira sul do Brasil.

Pergunta-se: será que a poluição estrangeira não entra pela fronteira?

As previsões meteorológicas indicam que o perigo de maior escassez de chuvas começará a partir deste mês de junho, estendendo-se até setembro e afetando pelo menos cinco Estados – São Paulo, Paraná, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás –, além do Distrito Federal. No entanto, a crise já se vive desde o final de fevereiro. Ao longo do primeiro trimestre deste ano, o Sistema Cantareira – essencial para o abastecimento de toda a Região Metropolitana de São Paulo – recebeu o menor volume de chuvas desde 2013. Os hábitos de consumo da população não mudaram, porém. Continuamos a lavar calçadas ou automóveis com água tratada (e assim, teoricamente, potável) sem perceber que se trata de um desperdício perverso, beirando um crime acintoso.

As longas estiagens ou os breves períodos de chuvas diluvianas são, porém, consequência das mudanças climáticas, as quais, por sua vez, são causadas por nosso desdém e desprezo por salvaguardar o meio ambiente.

É esdrúxulo e contraditório que, de um lado, o presidente da República diga ser necessário economizar água e, de outro, facilite o desmatamento da Amazônia e, assim, elimine, cada dia mais, os chamados “rios aéreos” formados nas nuvens e que, ao correrem de Norte a Sul, fazem chover no Sudeste. Seria absurdo pensar que o recente escândalo da derrubada ilegal de madeira brasileira (descoberto nos Estados Unidos) tenha sido um ato solitário do ministro Ricardo Salles, sem aprovação direta do presidente Bolsonaro. Salles é o ministro dileto do presidente, seu espelho e seu retrato fiel.

O ministro das Minas e Energia, Bento Albuquerque, reconhece que as mudanças climáticas são a causa da escassez de chuvas e, assim, da crise no setor energético, que poderá levar a produção industrial ao colapso. Ele parece, porém, uma voz solitária (e, por isso, débil e sem ressoar) dentro de um governo que teima em não dar importâncias às advertências da ciência sobre a necessidade de que o planeta chegue a 2050 com “carbono zero”.

A meta anterior era 2030 e, agora, o novo prazo terá de ser cumprido para a sobrevivência da vida no planeta. Todos os governantes coincidem num palavreado similar em “defesa da vida”, mas que se esgota na oralidade. O secretário-geral da ONU, António Guterres, por um lado, e o papa Francisco, por outro, frisam ser criminoso financiar tudo o que provoque efeito estufa, num apelo para que o sistema bancário internacional entenda as causas profundas da degradação do planeta. Ambos, porém, têm apenas poder de persuasão.

Assim, essa coincidência de opiniões sobre o grande perigo tem sido mais retórica do que prática. Os acordos internacionais se sucedem um ao outro desde a cúpula do meio ambiente no Rio de Janeiro, mas os compromissos encontram quase sempre uma fresta para não serem cumpridos.

Só a gestão do presidente Joe Biden, nos Estados Unidos, reconheceu em profundidade o perigo das “mudanças climáticas” e sua transformação em “crise”, e tratou o clima como tema autônomo. Nomeou o experiente John Kerry – um dos autores do Acordo de Paris, quando secretário de Estado de Barak Obama – como ministro extraordinário para o clima.

O horror da pandemia, que avançou nos EUA na desastrosa era Trump, interrompeu, porém, o projeto de transformar o cuidado com o clima em missão principal e fundamental do governo Biden. Mesmo assim, Biden e Kerry levarão à próxima reunião do G-7 propostas concretas para barrar as desastrosas consequências do efeito estufa.

Pelo menos lá nos Estados Unidos sabem que ir às causas é ir ao futuro.


JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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