Isolamento social x flexibilização, jogo brasileiro de prognóstico fácil

Quanto tempo é preciso para diluir 5 milhões de pacientes em nossos 65 mil respiradores?

Antonio Carlos do Nascimento, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2020 | 03h00

Alheios à necessidade da busca por um amplo e único miradouro que enxergue e gerencie nossa monstruosa adversidade atual estão oportunistas que encontram capitalização política com investimento zero. Sem consenso estabelecido em nenhum ponto planetário a aposta é livre e sem ônus, pois, criticar o isolamento social pela óbvia resultante imediata é tiro certo. 

A Alemanha registrou seu primeiro caso de covid-19 em 28 de janeiro, 80 dias depois, em 20 de abril, anotava 141.672 casos confirmados, com 4.404 mortes, quando iniciou a flexibilização monitorada do isolamento social. O país de monitoramento epidemiológico exemplar, que conta com farta retaguarda de terapia intensiva e se aproxima dos 3 milhões de testes executados, aguardou perto de três meses para atingir fator de contágio (RT) menor que 1 (RT=1 significa que um infectado contamina um indivíduo) para adotar lenta retomada do cotidiano de seus 83 milhões de habitantes.

Sob a luz dos dados alemães, num mesmo (utópico) cenário de ações estaríamos em alguns dias iniciando o nosso desconfinamento, contudo nossos dados não convergem para tal resultante.

Contados 53 dias de sua primeira confirmação, o Ministério da Saúde alemão informava balanço com a realização de 348.619 testes RT-PCR (padrão ouro para o diagnóstico) em raspados da nasofaringe, o equivalente a 7,17 testes por mil habitantes. Em nossos 55 dias pelejando em mesmo combate havíamos feito a mesma investigação em 132.467 indivíduos, o que correspondia a 0,62 testes por mil habitantes.

Dos critérios listados pela OMS para serem observados pelos países pretendentes ao afrouxamento da rigidez da quarentena, não somos consonantes em nenhum deles, a começar pelo controle da transmissão viral, neste momento em franca ascensão. Quando Angela Merkel anunciava a retomada gradativa da economia, seu país evoluía havia oito dias consecutivos com mais altas hospitalares que internações, enquanto nossa realidade é inversa.

Em outra orientação, a instituição aponta a obrigatória capacidade do sistema de saúde em detecção, testagem, isolamento e tratamento de todos com covid-19, item que alguns Estados e municípios convulsionam para estabelecer ao menos a assistência de sintomáticos em todos os níveis de cuidados, incluindo confirmação diagnóstica.

Contudo as vitoriosas estratégias de Alemanha, Coreia do Sul e Cingapura (com escape e recuperação), utilizando investigação, monitoração de contatos de casos positivos e diagnóstico diferencial em síndromes gripais com RT-PCR, por aqui não foi possível nem mesmo em administrações visionárias, que debutavam março com seus serviços adaptados para o surto iminente, como observado em Santo André e pouco depois em São Paulo.

Da premissa de 80% dos infectados serem assintomáticos ao tempo que são contaminantes, sem testagens e monitoramento, só encontraremos segurança para retomar nossa vida sem restrições quando alcançarmos a imunidade de rebanho, o porcentual de imunizados suficiente para fechar os caminhos de disseminação do vírus. Estudos apontam que essa condição se dará quando 50% a 70% de nossa população tiver desenvolvido a covid-19.

Em fácil e otimista aritmética, seremos 110 milhões de infectados com 80% de assintomáticos, contudo 22 milhões de doentes, metade deles de fácil suporte, enquanto 10 milhões necessitarão de internação e metade desse contingente precisará de assistência ventilatória. Qual o tempo necessário para diluir 5 milhões de pacientes em nossos 65 mil respiradores?

Sem a opção do genocídio, só nos resta o isolamento e a testagem abrangente para limitar o universo de circulação do vírus. Com a falta mundial de insumos para realização de RT-PCR e buscando a janela temporal entre o desastre e o que ainda podemos fazer, estreamos a utilização dos testes sorológicos, nos quais é possível identificar anticorpos contra o coronavírus. A presença do anticorpo IgM denuncia a doença em atividade e nos testes mais sensíveis ocorre a partir do quinto dia do início dos sintomas, desaparecendo entre o nono e o décimo. A produção de IgG aponta que o indivíduo já foi infectado e desenvolveu imunidade, pode ser detectado a partir do décimo dia, porém sua pesquisa dirigida deve buscar o 15.º.

Com custo individual entre R$ 150 e R$ 200 para os kits de melhor qualidade, essa ferramenta não deve ser utilizada sem observação quanto ao início dos sintomas ou tempo de contato com paciente confirmado, salvo em pesquisa de grupos específicos, como serviços essenciais e vulneráveis. Para o restante é necessária a pesquisa cronológica do surgimento de sintomas ou contato com doentes, o que aumenta a precisão do teste e sua importância para nortear o mapeamento de ações.

Porém, qualquer movimento contrário ao isolamento social enquanto não estiverem desenhadas as trilhas seguras para o desconfinamento resultará em tragédia e esta carregará até mesmo os pretendidos votos dos tantos aproveitadores de plantão.

DOUTOR EM ENDOCRINOLOGIA PELA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP), É MEMBRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA (SBEM)

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