Jean-Paul Belmondo lá no Céu!

A vida é maravilhosa, aqui e lá, onde hão de estar à nossa espera amigos como ele.

Eros Roberto Grau, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2021 | 03h00

Conhecemo-nos na Brasserie Lipp, em Paris, onde nos reencontramos várias vezes – ele, Tania e eu –, a primeira nos anos 1990. Uma cena inesquecível!

Dois homens almoçavam, face a face, na chamada tableau un, Tania e eu na deux. Um deles ao lado dela, com um pequeno cão, Misha. Imediatamente, começaram a conversar. De repente, passaram à nossa frente uns japoneses e Misha latiu. O homem disse c’est la guerre! Tania concordou e os dois, ela e ele, riram sem parar!

Tentei com sinais de olhar, alçando as sobrancelhas para o lado desse homem, chamar a atenção de Tania quanto à sua identidade. Inutilmente, pois ela continuava a conversa com naturalidade, sem dar importância a ele, somente a Misha, o que o encantou. Estavam na sobremesa esses dois amigos. Tomaram café, levantaram-se e ele, gentil e charmoso, despediu-se dela dizendo “bon aprés-midi, Madame”. Era Jean-Paul Belmondo!

Cá onde estamos, Tania e eu em Tiradentes, temos três fotos fixadas em paredes, de Jean-Paul com Jean Seberg – que se foi de nós em agosto de 1979 –, em torno de um filme maravilhoso, À bout de souffle (Tot de laatste zucht). Filme de Jean-Luc Godard construído a partir de um cenário de François Truffaut e apoio de Claude Chabrol, que cá, entre nós, recebeu o título de Acossado. Um filme maravilhoso, inesquecível! Jean-Paul representa Michel Poiccard, um criminoso, obcecado por Humphrey Bogart que rouba um carro, mata um policial e vai para Paris, onde conhece Patricia Franchini – Jean Seberg –, linda garota americana que vende jornais na Champs-Élysées. Bandido sem escrúpulos, a única certeza de Michel Poiccard na vida é a de que morreria cedo. Um filme primoroso, símbolo da chamada Nouvelle Vague, a explodir os anteriores, reinventando-os. Ladrão de automóveis, Michel tenta convencer Patricia a se mandar com ele para a Itália, mas a polícia o mata.

Jean-Paul cá esteve, no Brasil, como ator de um belíssimo filme, O homem do Rio, um dos 80 filmes nos quais desempenhou papéis inesquecíveis, além de tudo, repito, em Acossado e no O Homem do Rio, em 1964. Por conta do O Homem do Rio, Belmondo esteve no Rio de Janeiro, em Petrópolis e em Manaus.

E mais! No início dos anos 1970, existia em Ouro Preto uma loja de fotografias na qual um casal de turistas entrou para comprar um filme. De repente, alguém encara o cliente e pergunta: “Jean Paul Belmondo?” / “Oui!” – ele responde. / “Toma uma cachacinha?” / “Sûrement!

Veio, então, o garrafão, seguiram-se as doses acompanhadas por um violão e Belmondo saiu de lá prometendo voltar sempre. Tenho certeza de que ele esteve também aqui, em Tiradentes, hospedado no Solar da ponte, exatamente ao lado de nossa casa. Esteve mesmo? Um dia, no futuro, quando nos reencontrarmos lá no Céu, ele me dirá se esteve.

Nasceu em 9 de abril de 1933, em Neuilly-sur-Seine, filho do escultor Paul Belmondo, que faleceu no dia 1.º de janeiro de 1982, e da pintora Sarah Madeleine Rainaud-Richard, filha de um joalheiro parisiense que – como lá se diz – morreu pela França em 1915.

Em 2001, após um acidente vascular cerebral, afastou-se de filmes e teatro, mas em 2008 não hesitou em, maravilhosamente, representar o papel de um idoso rejeitado pela sociedade num filme de Francis Huster, Un homme et son chien. Em 2011, Belmondo recebeu a Palma de Honra no Festival de Cannes e, em 2016, o Leão de Ouro, em Veneza.

Tenho mais, mais e mais a relembrar de nossos reencontros na Brasserie Lipp, algumas vezes com outros amigos por ali. Numa delas o Ivo Pitanguy na mesa à nossa frente, outra a Juliette Gréco, ambos agora também lá em cima, à nossa espera! Muita saudade dele e dos nossos encontros, de verdade.

Em 4 de dezembro de 1952 Belmondo casou-se com Élodie Constantin, com quem teve três filhos. Patricia, que morreu num incêndio, Florence e Paul. Separaram-se em 1965 e Belmondo teve relacionamentos com Ursula Andress de 1965 a 1972, com Laura Antonelli de 1972 a 1980 e com Barbara Gandolfi de 2008 a 2012. Mais, sua ligação com o Brasil intensificou-se ao viver um romance na década de 1980 com a atriz Maria Carlos Sotto Mayor, de quem foi amigo para sempre. Em 1989 conheceu a dançarina Natty Tardivel. Viveram juntos por mais de uma década antes de se casarem, em 2002. Em 13 de agosto de 2003, Tardivel deu à luz Stella Eva Angelina. Divorciaram-se em 2008.

Belmondo era um torcedor do clube de futebol Paris Saint-Germain, do qual também sou! Morreu em 6 de setembro de 2021 em sua casa em Paris, aos 88 anos. Sua saúde debilitada desde que sofreu um derrame duas décadas antes. Uma bela homenagem nacional foi-lhe prestada no dia 9 de setembro, o presidente Emmanuel Macron referindo-se a ele como “nosso herói nacional”. Ouço frequentemente Ivan Lins cantando uma canção na qual afirma que a vida pode ser maravilhosa. Ouço com imensa vontade de lhe dizer que não, que a vida é maravilhosa! Aqui e lá, no Céu, lá onde hão de estar à nossa espera – sorrindo para nós – Belmondo, Jean Seberg, Ivo Pitanguy e Juliette Gréco!

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PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, FOI MINISTRO DO STF

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