Jornalismo ubíquo e multissensorial

É fundamental que cada jornalista recupere o que tecnologia alguma será capaz de suprir

Carlos Alberto Di Franco, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 03h00

O jornalismo multimídia está com os dias contados. Símbolo de uma recente evolução narrativa e cume do processo de digitalização das redações, ele estará, muito em breve, obsoleto. Ouvi essa consideração, não literal, do professor Ramón Salaverría, vice-diretor de pesquisas da Faculdade de Comunicação da Universidade de Navarra. Segundo ele, a linguagem que hoje integra texto, áudio, vídeo e outros tantos recursos visuais certamente se manterá como base do trabalho da reportagem. Mas a tecnologia que incidirá na produção e distribuição de notícias possibilitará um tipo de jornalismo mais bem descrito como “ubíquo”, presente em múltiplos espaços por meio de objetos conectados, e “multissensorial”, capaz de estimular outros sentidos que não apenas a visão e a audição.

Falando a um grupo de gestores de meios de comunicação, Salaverría, um dos mais renomados estudiosos do tema, não seduzia a plateia com uma espécie de delírio futurístico. Ao contrário. Trazia dados consistentes para demonstrar que a tal transformação digital está apenas no início. Algo bem maior e surpreendente trará soluções no âmbito da comunicação que ainda não somos capazes de imaginar. Um cenário altamente fascinante, reservado para aqueles que vislumbram, por exemplo, todo o potencial informativo dos carros autônomos, dos eletrodomésticos e de todas as coisas que, conectadas, passarão a captar e a fornecer dados.

A conferência pronunciada no programa Estratégias Digitais para Empresas de Mídia, curso por mim dirigido há mais de duas décadas, muito me ajudou a refletir sobre o futuro do nosso setor. Temo não estarmos preparados para suportar o impacto das próximas etapas dessa revolução tecnológica. Enquanto as novidades chegam a galope para bater às portas das redações, nossas iniciativas digitais caminham com angustiante timidez. Somos facilmente deixados para trás e, por isso, saber que o tsunami tecnológico ainda está por vir deve nos servir de alerta. Nem nos recuperamos do primeiro nocaute – a perda das receitas publicitárias e a necessidade de um novo modelo de negócio – e, ainda desorientados pelo golpe certeiro, cambaleamos sabendo que a próxima queda pode ser ainda mais dura.

Nas análises publicadas neste espaço venho insistindo que os meios precisam superar suas velhas dinâmicas e os conceitos caducos. É urgente que se abram às necessidades reais de suas audiências e dialoguem com o público. Hoje, porém, intencionalmente, desvio o foco das empresas para dirigi-lo à figura do jornalista. Individualmente, estaremos nós, profissionais das redações, prontos para enfrentar os desafios dos negócios digitais?

O jornalista, sem dúvida, sofre na carne as consequências da crise que assola grande parte dos veículos no Brasil e no mundo. Mas arrisco dizer que sua posição costuma ser, por vezes, um tanto cômoda. É mais simples procurar o inimigo no entorno e responsabilizar a direção das empresas informativas pelos repetidos fracassos na condução do negócio. Na visão de muitos profissionais, é da alta cúpula que partem as ordens para a implementação de uma estratégia fracassada e por onde se inicia a disseminação de uma cultura resistente a mudanças. É bem possível que haja uma dose de verdade nessa percepção. Mas ela não é completa. Em não poucos casos, são os próprios jornalistas, um a um, que precisam ser sacudidos e resgatados da perigosa inércia. Tragados pela nostalgia dos bons tempos, são muitos os que se mantêm presos a um passado glorioso que não voltará.

Slide após slide, o professor Salaverría avançava em seu diagnóstico de tendências: listou os principais efeitos da tecnologia 5G sobre o jornalismo, mostrou diversas reportagens escritas por mecanismos de inteligência artificial e nomeou empresas que já fazem uso dessa tecnologia. Com um jogo de palavras, Salaverría trouxe um interessante contraponto ao inevitável questionamento sobre a substituição de um profissional qualificado por um computador. Segundo ele, o problema não é que os robôs escrevam como jornalistas, mas que jornalistas escrevam como robôs. E eis aí uma consideração que nos deve levar a refletir sobre o trabalho que temos feito.

Não terá sido o jornalismo produzido no piloto automático, sem alma e, portanto, sem vida, um dos deflagradores da crise dos veículos? Não terão os profissionais da redação perdido o seu encanto pela investigação, pela checagem dos fatos, pelos conteúdos exclusivos? Não estarão eles construindo ou contribuindo para aumentar as barreiras levantadas por outros às iniciativas de inovação?

Estou convencido de que o jornalista, independentemente do posto que ocupe, pode e deve assumir sua parte de responsabilidade para o futuro do negócio. O jornalismo ubíquo, ou como queiramos denominá-lo, precisa ser feito por alguém. Alguém com uma visão de médio e longo prazos, que domine tanto o lado do business quanto do componente editorial. Boas leituras sobre a mídia e cursos que ajudem a compreender as mudanças do setor são sempre bem-vindos. Além disso, é fundamental que cada um se proponha a recuperar aquilo que o faz jornalista. Aquilo que nenhuma tecnologia, em nenhum momento, será capaz de suprir.

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JORNALISTA. E-MAIL: DIFRANCO@ISE.ORG.BR

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