Julio de Mesquita Filho e a educação

Teve atuação intensa na criação da USP e na consolidação da escola pública gratuita e laica

JOSÉ ALFREDO VIDIGAL PONTES*, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2019 | 03h00

Vivemos tempos muito difíceis para a educação brasileira. Nossos níveis de aprendizado são sofríveis e o novo governo se preocupa em instrumentalizar o Ministério da Educação como arena ideológica. Motivações políticas acima do verdadeiro objetivo da educação: ensinar. E ensino com qualidade. Esse é o nosso maior desafio, problema que vem sendo enfrentado há quase um século por pioneiros dessa luta incessante contra a ignorância.

Há 50 anos o Brasil perdia Julio de Mesquita Filho, um dos seus filhos mais ilustres. Obstinado com o bem comum da Nação, esse foi o compromisso que assumiu por toda a sua intensa e profícua existência. Dedicou-se ao jornalismo, à política e à educação, com participação decisiva na História do País durante o século 20. Como jornalista, comandou a redação de O Estado de S. Paulo por 37 anos, tornando-o um dos melhores jornais do mundo. Como político, foi preso 18 vezes e exilado em duas ocasiões. E como educador teve atuação intensa em duas importantíssimas conquistas da educação brasileira: a criação da Universidade de São Paulo (USP), em 1934, e a votação da Lei de Diretrizes e Bases de 1961, marco da consolidação da escola pública gratuita e laica.

Refletir acerca de Julio de Mesquita Filho é um verdadeiro exercício multidisciplinar, dadas as suas variadas atividades em diversos campos. Sua importante atuação em favor da educação no País esteve sempre imbricada com a carreira jornalística e, também, com o seu grande envolvimento nos rumos políticos do Brasil. Aos 35 anos de idade assumiu a redação do Estado, em 1927, enquanto seu irmão Francisco tomava as rédeas da administração do jornal. Trabalharam juntos até 1969, ano do falecimento dos dois, com diferença de alguns meses. Em 1930, os dois irmãos apoiaram a revolução liderada por Getúlio Vargas, coerentes com a oposição do jornal às oligarquias. Porém, dois anos após, insatisfeitos com os desvios autoritários do regime, tomaram parte ativa nas articulações da Revolução Constitucionalista de 1932. Derrotados, Julinho e Francisco foram para o exílio em Portugal.

Em Lisboa, durante o período de degredo, Julio de Mesquita Filho desiludiu-se com a política, mas não com a possibilidade de fortalecimento da nacionalidade por meio da cultura e da educação. Quando retornou ao Brasil, depois da anistia, tinha uma só ideia em mente: a criação de uma universidade em São Paulo, inspirada na experiência francesa. Em 1934 Armando de Salles Oliveira, seu cunhado, assinou o decreto de fundação da Universidade de São Paulo, a qual seria estruturada por Julio de Mesquita Filho, Fernando de Azevedo e Theodoro Ramos.

Assim, na área educacional Julio de Mesquita Filho ficou conhecido por muitos por sua atuação decisiva na criação da USP, mas não seria menos importante a sua luta pela instituição do dever do Estado brasileiro de prover escola básica para todos. Participou com entusiasmo da Campanha em Defesa da Escola Pública, a qual resultaria vitoriosa com a aprovação da Lei de Diretrizes e Bases, de 1961. Era uma retomada dos ideais do histórico Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, do qual Mesquita Filho havia sido um dos signatários. O texto propunha o ensino escolar laico, universal e gratuito, sintonizado com amplo projeto político democrático e liberal. Um ensino em que o mérito deveria ser o mais essencial critério de progresso do indivíduo e o método de impulsão de toda a sociedade.

Foram esses ideais, ainda atualíssimos, que o animaram a se empenhar e pôr o jornal a serviço da Campanha de Defesa da Escola Pública e assinar o “Manifesto de 1959”. Nesse movimento, além de muitos educadores liberais, esteve acompanhado de representantes da esquerda, como o sociólogo Florestan Fernandes e o líder operário Luiz Tenório de Lima, político atuante do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Liberal por formação, em defesa da educação Julio Filho superava as colorações ideológicas ou partidárias. Interessava-se, acima de tudo, por educação pública de qualidade, a partir da qual lideranças legítimas e esclarecidas pudessem ser formadas.

A lembrança desses fatos é de grande oportunidade nesses dias atuais, em que a banalização do debate sobre a educação atinge um nível baixíssimo, jamais imaginado pelos grandes educadores do passado – e do presente! Esse quadro lamentável, muito bem descrito em recentes editoriais de O Estado de S. Paulo, retoma a importância do enaltecimento da escola pública gratuita e laica como paradigma de civilidade.

Pode ter havido alguma intenção de integrantes do PT de ideologizar a escola, com ocorrências pontuais em alguns livros e escolas. Entretanto, não é essa a característica mais marcante da pobre educação brasileira. Seu traço mais significativo é o da penúria de conteúdos e eficácia. Quando o novo governo enfatiza a contrapropaganda como critério prioritário de governança para a educação, não somente reforça a ideologização da escola, como enfraquece o seu verdadeiro objetivo: ensinar.

Se o Brasil realmente deseja ingressar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), terá de investir muito em educação de qualidade, um dos inúmeros requisitos civilizatórios exigidos pela organização a seus membros. E retomar diretrizes estabelecidas há quase um século pelos pioneiros brasileiros da luta pela educação. Desafio enorme, mas transponível, desde que haja vontade política e uma compreensão profunda, pela sociedade, da importância vital da educação de qualidade como a melhor possibilidade de um futuro de paz e prosperidade para qualquer nação.

* JOSÉ ALFREDO VIDIGAL PONTES É HISTORIADOR, AUTOR DOS LIVROS ‘A POLÍTICA DO CAFÉ COM LEITE: MITO OU HISTÓRIA?’ E ‘1932: O CARÁTER NACIONAL DE UM MOVIMENTO DEMOCRÁTICO’

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