Lições da pandemia

Ficou evidente o que temos de melhor: recursos humanos altamente qualificados

Charles Mady, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2020 | 03h00

A pandemia de covid-19 trouxe consequências destrutivas, sentidas em toda a sociedade. Sofrimento físico, psicológico e material estão marcando nossa vida, com feridas e sequelas profundas, que persistirão por muito tempo. Essa enorme agressão está deixando lições para nós?

Filósofos e religiosos, de forma pragmática, comentam que o sofrimento abre portas didáticas para o ser humano, despertando a visão sobre erros e estimulando a criatividade para novas soluções. Na área da saúde, pública e privada, o que aprendemos com esta catástrofe?

No setor público, as universidades e o SUS deram demonstração de quão eficientes podemos ser. As universidades, política e economicamente muito agredidas pelos dirigentes, mostraram resultados impressionantes, apesar da precária situação em que estão. Há razões para isso, a maior delas é o fator humano, que se mostrou determinado, superando todas as expectativas. Se políticas de saúde realistas, baseadas em ciência, tivessem sido implementadas pelas autoridades, teríamos tido resultados mais convincentes. Boa parte do pessoal que atuou na linha de frente foi graduada em universidades públicas, tendo conhecimento profundo da situação do nosso povo. Soube enfrentar a catástrofe de forma equilibrada, dentro das possibilidades disponíveis. Não se rendeu, ficando exposta às consequências.

Os hospitais universitários, os que mais sofreram, tiveram de se reinventar para se adaptarem à nova realidade. Não foram raras as vezes que, com semblante de esgotamento, os reitores das estaduais se manifestaram na imprensa requisitando, e recebendo, ajuda de setores privados. As administrações ficaram sobrecarregadas pelos problemas que surgiam e surgem diariamente. Nesse ponto, em nosso meio, é que o valor humano se destacou. Quando os escalões de segundo plano foram solicitados, sem que tenham tido cursos de administração, deram aulas de competência e criatividade. Foram educados para ensinar, atender e fazer ciência, com responsabilidades administrativas limitadas. Modernizaram-se, mostrando sua excelência. Isso demonstra a importância de um corpo administrativo profissional, junto aos recursos humanos de saúde, que têm outras obrigações. Empresas com corpos administrativos insuficientes tendem ao fracasso. As rédeas devem estar nas mãos de profissionais qualificados para esses fin, em tempo integral, aconselhando e construindo soluções. Esse é um aspecto cultural antigo em hospitais universitários. O acúmulo de atividades acadêmicas consome quase todo o tempo disponível. Será que, com estrutura administrativa mais poderosa, os resultados teriam sido melhores?

Outro ponto a destacar é a forma como as ciências de saúde enfrentaram o problema. Projetos científicos de qualidade internacional foram elaborados por pesquisadores, produzindo excelentes resultados. São cabeças que teriam sucesso em qualquer centro universitário do mundo. Estão eles sendo valorizados? Os setores políticos entendem o progresso que isso nos traz? Eles compreenderam o valor dessas pessoas? Esse pessoal tem muito a aprender com a saúde de nosso país, como já comentamos recentemente no artigo A saúde como exemplo, na Folha de S.Paulo. As academias são barreiras à pretensa política de destruição das universidades e dos hospitais públicos. São reconhecidos internacionalmente. Há falhas e imperfeições, mas, ao invés de apoiar, ajudar a evoluir, assumem atitudes destrutivas. A pergunta que deve ser feita é: qual ou quais seriam as intenções dessas orientações? Ideológicas? Materiais, representando grupos com outros interesses? Fica a impressão de que, nos bastidores, o caminho para enfraquecer as academias e a saúde públicas está sendo devidamente pavimentado.

Negar valor e desqualificar, com intenções destrutivas, revela profunda ignorância ou desonestidade intelectual. O sentimento de desolação é nítido em nossos corredores.

Outro setor a destacar é o SUS. É um sistema de saúde muito bem elaborado para o atendimento de toda a população. Foi introduzido sem base administrativa adequada na ocasião. Gerenciá-lo foi, e é, um desafio. A falta de recursos, e a burocratização não impediram que os bons resultados surgissem, e se mostrou indispensável. É evidente que esse sistema deve ser aprimorado, precisando, para isso, de vontade política, com pessoas preparadas. Sua importância para a saúde no País é indiscutível. Muitos estão migrando de planos suplementares, aumentando mais a sua responsabilidade. O que teria acontecido se o SUS não tivesse atuado como o fez?

Importante enaltecer a rede privada hospitalar, abrindo portas quando a pública estava prestes a se esgotar. Essa associação foi um sinal de maturidade e responsabilidade, pondo recursos à disposição, recebendo elogios de todos. Lembramos que boa parte de seus profissionais foi formada na rede pública.

Para concluir, a pandemia evidenciou o que temos de melhor, ou seja, recursos humanos altamente qualificados, que souberam reagir à altura num momento muito difícil. Esperamos que os setores políticos tenham aprendido algo com essa pandemia e que sejam no futuro representados por pessoas com esses valores. E que nos façam ter orgulho deles também.


PROFESSOR ASSOCIADO DO INCOR, FACULDADE DE MEDICINA DA USP. E-MAIL: CHARLES.MADY@INCOR.USP.BR

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