Lições da pandemia em São Paulo

Com força, foco e fé, nossa cidade e todos nós vamos sair desta mais fortes

Bruno Covas*, O Estado de S.Paulo

25 de julho de 2020 | 03h00

No início da pandemia fui morar na Prefeitura. Se a mensagem que passamos para a sociedade era sobre a importância de ficar em casa, julguei decisivo fazer o mesmo. Foram 82 dias, período que apelidei de “office home”. Aprendi com meu avô que inspirar as pessoas e dar o exemplo são parte da tarefa pública. A primeira lição que a pandemia reforça é a importância que os símbolos e atitudes têm no exercício da liderança.

Sem um manual para enfrentar um inimigo desconhecido e invisível, nossa equipe se uniu ainda mais e, juntos, formulamos as premissas para o enfrentamento da pandemia: garantir atendimento médico a todos, proteger os mais vulneráveis e assegurar um enterro digno a quem, infelizmente, viesse a falecer. 

Nosso compromisso sempre foi – e continua sendo – com a vida, em primeiro lugar. Nosso referencial era aproveitar o conhecimento produzido pela ciência até agora e as experiências aplicadas pelos países que estavam à nossa frente na escalada da covid-19 para adaptá-los à nossa realidade, criar novas soluções e evitar, a todo custo, os erros cometidos por muitas cidades, até mais ricas do que São Paulo.

Além disso, estabelecemos um paradigma: não nos omitirmos. Não ter receio de recuar sempre que alguma medida não se revelasse adequada, compreendida, ou se os números assim determinassem. A segunda lição que a pandemia impõe é a humildade. Neste momento, quando há muito mais perguntas do que respostas, é fundamental manter os ouvidos abertos às críticas e às contribuições e corrigir rapidamente os rumos sempre que necessário.

De todo esse processo surgiram os três pilares do nosso trabalho “SP contra o Coronavírus”: a Estratégia Municipal de Saúde, o Programa Cidade Solidária e o Plano de Contingência Funerária. E aqui, a terceira lição: o planejamento com base em evidências como fundamento decisivo para as políticas públicas. São Paulo tem um norte e um caminho traçado no enfrentamento da doença, e a população percebe e confia no trabalho realizado até aqui.

A cidade ganhou até agora seis novos hospitais definitivos – Parelheiros, Brasilândia, Bela Vista, Capela do Socorro, Guarapiranga e Cruz Vermelha – e mais de 1.300 novos leitos de UTI. Foram contratados 9.100 profissionais de saúde. Estamos realizando o maior inquérito sorológico do País, para nortear os nossos próximos passos.

Por meio do Cidade Solidária distribuímos até agora mais de 1 milhão de cestas básicas, 456 mil kits de higiene e limpeza, 655 mil marmitas e 775 toneladas de alimentos. Além disso, cerca de 600 mil alunos (dois terços dos estudantes da rede municipal) receberam o Cartão Alimentação – dinheiro para a merenda entregue na casa dos alunos, para as mães das famílias mais vulneráveis da cidade. 

A Prefeitura não parou de trabalhar. Algumas obras, como o novo Vale do Anhangabaú e os 12 novos CEUs, em breve serão entregues. Preservamos, com manutenção de contratos terceirizados e obras, mais de 108 mil empregos diretos. Aqui reside a quarta lição: manter o foco. Trabalhar, continuar “prefeitando”. A cidade não pode ficar sem manutenção e temos de atuar para reduzir ao máximo o problema social e econômico decorrente da pandemia.

Hoje, na fase amarela do Plano São Paulo, a cidade estabeleceu protocolos seguros de retomada de parte da sua atividade econômica. O espírito que preside este novo momento é o “fazer juntos”. A adesão da maioria da população às medidas de proteção e quarentena, o sacrifício que todas as famílias estão enfrentando, o despertar, ainda mais forte, do sentimento de solidariedade em nossa cidade e o esforço dos trabalhadores e empresários para atravessar tempos difíceis são expressões da quinta lição da pandemia: parceria como instrumento de transformação da sociedade.

O cenário ainda exige muita atenção e prudência, não podemos baixar a guarda. Todos os dias monitoramos os indicadores, tomamos decisões e aprendemos novas lições.

O vírus atinge a todos, mas faz mais infectados e vítimas entre os mais vulneráveis. A lição mais importante da pandemia é aquela que ficou evidente para todos: nossas injustiças e desigualdades sociais, nosso racismo estrutural e a resistência da pauta das mulheres, como a organização de protocolos de proteção para as mães de crianças pequenas que estão sem aulas. Não são problemas novos, mas a pandemia colocou-os como ainda mais urgentes. 

Quando a ciência autorizar, nosso maior desafio será a volta às aulas. Dar acolhimento, suporte emocional às famílias, garantir segurança aos professores e, sobretudo, aos alunos. Ter uma proposta pedagógica eficaz para garantir o aprendizado de todos e ofertar reforço escolar. Educação é sempre – e agora ainda mais – a chave para corrigir desigualdades e construir mais oportunidades.

Com força, foco e fé, nossa cidade e todos nós vamos sair desta mais fortes. São Paulo vai dar o exemplo, com humildade, planejando sempre nossas ações, fazendo juntos, em parceria, para mudar, avançar e construir uma cidade mais justa e melhor.

* BRUNO COVAS É PREFEITO DA CIDADE DE SÃO PAULO, FOI SECRETÁRIO DO MEIO AMBIENTE DO ESTADO, DEPUTADO ESTADUAL E FEDERAL

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.