Lições de Velloso, o que olhava para longe

O Ipea funcionou sem intervenção no regime militar. Com ficará nos próximos anos?

Rolf Kuntz, jornalista

24 de fevereiro de 2019 | 04h00

Há um piauiense discreto, refinado e amante do cinema por trás do superávit comercial de US$ 87,65 bilhões obtido no ano passado pelo agronegócio, o setor mais competitivo da agricultura brasileira. Graças a esse resultado, suficiente para cobrir com folga o buraco deixado por outros setores, o Brasil fechou 2018 com saldo positivo de US$ 58,30 bilhões no comércio de bens. Uma balança comercial superavitária tem sido garantia de tranquilidade numa fase especialmente difícil da economia brasileira. Problemas cambiais, uma desgraça frequente na História brasileira, teriam complementado de forma desastrosa o bem conhecido desarranjo das contas públicas, um dos legados mais notórios da gestão petista. Uma agropecuária eficiente contribui, enfim, para preços bem comportados – se a política monetária estiver, é claro, na direção correta. O piauiense por trás da modernização na produção rural, muito sensível a partir da segunda metade dos anos 1980, morreu na terça-feira, no Rio de Janeiro, aos 87 anos.

A morte de João Paulo dos Reis Velloso foi noticiada em todos os grandes jornais, biografias foram publicadas, com destaque para seu papel nas áreas de planejamento e pesquisa, nos governos militares. Também foi citada sua realização mais vistosa nos últimos 30 anos, a criação do Fórum Nacional, o mais amplo, mais aberto e mais notável espaço de debate econômico mantido no País nesse período. Mas ficou quase esquecido um dos detalhes mais notáveis de sua história: sua influência no programa de ocupação do Cerrado, na criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e, portanto, seu papel na criação de um agronegócio moderno, eficiente e capaz de competir com sucesso no mercado global.

Ministro do Planejamento, Velloso encomendou um estudo sobre o potencial agrícola do Cerrado ao Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Daí nasceram o Programa de Insumos Modernos para a Agricultura, com recursos fornecidos pelo Banco Central, a Embrapa, criada em 1973, o Programa de Desenvolvimento dos Cerrados, lançado em 1975, e uma proposta de corredores de exportação.

Esse programa de modernização se ampliou, contaminou produtores agropecuários, cooperativas, empresas de insumos, organizações de pesquisa e grandes grupos econômicos. Os efeitos só apareceram depois de alguns anos, como seria normal, mas já eram sensíveis bem antes do Plano Real, lançado em 1994. O frango barato foi eleito por muita gente como um símbolo da vitória contra a hiperinflação, mas o entusiasmo, nesse caso, foi mal dirigido. Quando o plano surgiu o Brasil já havia entrado com sucesso no mercado internacional de aves. A avicultura modernizada era um dos efeitos da onda transformadora da atividade rural.

Os ganhos de eficiência da agropecuária refletiram-se também na composição dos gastos de consumo. No começo dos anos 1990, institutos de pesquisa começaram a rever os modelos de orçamento familiar usados na formação dos índices de preços. A mudança mais notável foi a redução do peso dos alimentos.

Esse item continua importante para a maioria das famílias, especialmente para as de renda mais baixa, mas, em todos grupos, o barateamento relativo da alimentação deixou mais dinheiro para outros gastos. Os consumidores podem queixar-se, e sempre se queixarão, mas a diversificação do consumo a partir dos anos 1990 é um dado inegável.

Essa evolução só foi prejudicada, nas últimas duas décadas, quando o governo, por alguma barbeiragem, deu combustível à inflação. Houve barbeiragens de vários tipos, na política monetária, na gestão cambial, na administração das contas públicas e, em certos momentos, no controle desastrado de alguns preços, como os da eletricidade.

Mas Velloso dificilmente se acomodaria. Em julho de 2006, num seminário da Embrapa, o então diretor do Instituto Nacional de Altos Estudos (Inae) propôs um novo desafio à agricultura: tentar um novo salto de competitividade pelo uso mais intensivo da tecnologia da informação e incorporando mais velozmente os avanços da biotecnologia. A agricultura de precisão e o desenvolvimento de novos insumos e de produtos diferenciados estariam nesse roteiro. Os principais concorrentes do Brasil, argumentou Velloso, eram muito bons e seria um erro menosprezá-los.

Ele continuava olhando para a frente, atualizando os desafios e lembrando a importância de planejar de forma permanente, sempre olhando para o longo prazo. Fora do governo desde 1979, ele mantinha padrões de avaliação cultivados na chefia do Ipea e, depois, no Ministério do Planejamento.

Ao apresentar em livro os trabalhos do Fórum Nacional de 1997, ele discorreu sobre uma nova era a partir do Plano Real. Destacou três condições essenciais: o ajuste macroeconômico, a construção de uma economia internacionalmente competitiva e a implantação de uma nova estratégia de desenvolvimento, com ênfase na atualização tecnológica e na formação de capital humano. A elevação da taxa de investimento, então limitada a modestos 16% do PIB, era também uma condição evidente.

Pouco se avançou nesse roteiro nas duas décadas seguintes. Houve algum avanço tecnológico, mas insuficiente. Os ganhos de competitividade foram insuficientes, exceto na agropecuária e em alguns poucos segmentos, como a indústria aeronáutica. O investimento continua abaixo de 20% do PIB. A formação de capital humano foi negligenciada, como comprova o desempenho dos estudantes brasileiros em testes internacionais. E assim continuará se depender do atual Ministério da Educação.

Além da atenção ao longo prazo, atividade hoje quase esquecida, Velloso deixou ainda uma lição preciosa: sob seu comando, o Ipea foi preservado da censura e da repressão durante o período militar. Continuará livre de controle ideológico nos próximos anos?

*ROLF KUNTZ É JORNALISTA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.