Lula, o PT e a segunda via

São eles os verdadeiros adversários a ser batidos, como tem sido há mais de 30 anos

Marcelo Guterman, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021 | 03h00

Nunca se falou tanto numa terceira via eleitoral capaz de ultrapassar a polarização entre o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT), provavelmente Lula da Silva, e o atual presidente, Jair Bolsonaro. Lula pela esquerda e Bolsonaro pela direita representariam caminhos deletérios para o futuro do País. Como afirmou Luís Stuhlberger, conhecido gestor de fundos de investimento, em entrevista a este periódico em 28 de março deste ano, “os empresários estão literalmente apavorados com a hipótese de ter de escolher num segundo turno entre Bolsonaro e Lula”.

A ideia de uma terceira via é boa. Falta apenas um detalhe: votos. Alguns atores políticos e analistas falam do assunto como se a alternativa, quando se materializar num nome, atrairá automaticamente os votos dos insatisfeitos com o PT e com Bolsonaro. Esse nome precisaria ser único, para não dispersar os votos desses insatisfeitos, de modo a colocar o candidato centrista no segundo turno. Então, qualquer que seja o adversário, Lula ou Bolsonaro, esse candidato se beneficiaria da rejeição a ambos e teria condições objetivas de vitória. Essa é a tese.

Seria assim se fosse assim. De todas as eleições desde a redemocratização, o segundo colocado no primeiro turno só teve menos votos do que todos os outros candidatos em 1989 e 2002. Em 1989, na eleição mais fragmentada da História recente, Lula obteve 16,7% dos votos contra 50,8% da soma de todos os outros candidatos menos Fernando Collor. E em 2002 José Serra recebeu 23,2% dos votos, contra 30,4% da soma dos outros candidatos menos Lula, principalmente Ciro Gomes e Anthony Garotinho. Tirando a primeira eleição, completamente diferente de todas as demais, será que podemos afirmar que se Ciro ou Garotinho tivessem renunciado um dos dois iria para o segundo turno? Pouco provável.

Portanto, o que a História recente nos mostra é que não existe terceira via eleitoralmente viável no Brasil. O que existe é uma segunda via contra o PT. Em todas as eleições pós-redemocratização, o PT chegou pelo menos em segundo lugar. Esse fato nos leva à conclusão de que não basta que um tertius se torne eleitoralmente viável a ponto de chegar ao segundo turno. É preciso que esse candidato seja capaz de vencer Lula no segundo turno, pois o PT estará lá, como sempre esteve. É neste ponto que a figura de Lula precisa ser mais bem analisada.

Lula foi a figura onipresente em todas as campanhas eleitorais desde 1989. Em 2018, mesmo preso, foi candidato (!) e conseguiu transferir seus votos para Fernando Haddad. Portanto, é somente natural que apareça bem colocado em qualquer sondagem eleitoral. Por exemplo, na última pesquisa patrocinada pela CNT, feita no início de julho, Lula aparecia com 28% das menções espontâneas de voto, contra 22% do atual presidente. Para quem está espantado, não custa lembrar que Lula, em pesquisa patrocinada pela mesma CNT em agosto de 2018, aparecia com 20% das intenções espontâneas de voto, mesmo sendo hóspede da carceragem da Polícia Federal em Curitiba desde abril daquele ano.

Não se deve menosprezar esse fenômeno. Se é difícil entender como um político periférico como Bolsonaro conseguiu eleger-se presidente da República, o mesmo espanto deveria aplicar-se ao fato de que, mesmo encarcerado, Lula tenha tido tamanha influência nas eleições de 2018. E esse fenômeno ganha ainda mais cores quando consideramos que nas eleições de 2016 o PT foi quase varrido do mapa eleitoral, ao perder 60% das prefeituras que detinha. Pode-se até questionar se o PT tem um futuro além de Lula, mas essa é uma questão, por enquanto, acadêmica. Na prática, Lula será, mais uma vez, o candidato do PT nas próximas eleições, e esse é o problema concreto dos outros candidatos.

Sendo assim, a alternância de poder deve ser construída tendo o PT em mente. E isso não se faz para uma eleição. Trata-se de uma construção. Lula perdeu três eleições presidenciais antes de vencer a primeira. Soube construir um posicionamento ao longo dos anos. Quem quiser fazer face a isso precisará construir uma agenda de oposição. O PSDB teve a chance de fazê-lo, mas jogou-a pela janela ao não defender a herança do governo Fernando Henrique Cardoso. Nem o próprio FHC a defendeu. O famoso “colete das estatais”, ostentado por Geraldo Alckmin na campanha de 2006, foi o ápice dessa vergonhosa retirada de campo.

Bolsonaro, ainda que tenha vencido as eleições também com o voto de protesto antiestablishment, entendeu igualmente que só existe chance eleitoral em nível nacional para quem confronta Lula e o PT construindo uma agenda alternativa com convicção. Para um aspirante ao Palácio do Planalto, bater em Bolsonaro é perda de tempo. Essa tática só faz sentido para Lula. Os verdadeiros adversários a ser batidos são Lula e o PT, como tem sido nos últimos mais de 30 anos.

O Brasil precisa de uma segunda via alternativa ao PT que não seja Bolsonaro. Caso os partidos que tentam construir uma “terceira via” não entendam isso, estarão pavimentando o caminho do atual presidente como essa alternativa e ficarão de fora do segundo turno em 2022.


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