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Lutar pela História

Especialmente agora, quando ‘fake news’ são vomitadas por atacado, de forma organizada

Jaime Pinsky, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2021 | 03h00

A credibilidade da História faz todos tentarem se apropriar dela. Ouvimos o tempo todo frases como “a História ensina que...”, ou sua variante mais humilde “temos de aprender com a História” e ainda “a História é a mestra da vida”. Mas, na verdade, a maioria das pessoas não quer aprender com a História, mas ensiná-la. Cada um do seu jeito. Alguns ainda se dão antes ao trabalho de estudá-la, outros nem isso. Veja-se o que acontece com as pessoas que usam o passado, real ou imaginado, para tirar e ensinar lições. E os governantes, então... Chamam suas deturpações de versões, ou narrativas, para passar mais confiança. Mas, geralmente, são deturpações mesmo.

Todo mundo sabe que governantes autoritários torturam a História para ver se ela confessa e declara o que eles querem ouvir. Governos antidemocráticos odeiam a verdade. A verdade revela coisas que eles não admitem em público, embora não tenham o menor pudor de praticá-las no dia a dia. Ditadores e candidatos a ditadores têm um esquema sólido para alimentar seus seguidores com mentiras. Atentados contra a cidadania, a ciência, a natureza, a Justiça, a educação são perpetrados a toda hora. Governos autoritários se ocupam em escondê-los e para isso contratam especialistas em marketing. Verbas astronômicas, desviadas da saúde, da educação, da habitação, do bem-estar dos cidadãos, são usadas em propaganda. E veículos sérios da imprensa são punidos com verbas insignificantes, ou nenhuma verba, por sua independência. Afinal, os cofres oficiais estão nas mãos do governo e agradecer ou punir a mídia depende apenas de sua boa vontade.

Não, ser infiel à verdade dos fatos não é algo que surgiu agora. Governantes e políticos praticam isso há muitos séculos. Hamurabi, ao codificar as leis de seu império, fez questão de se mostrar justo, generoso, operante, dinâmico, como se estivesse fazendo campanha eleitoral. Ramsés II mandava raspar o nome de dirigentes anteriores de monumentos e colocar o seu, para ficar com o crédito de obras e conquistas militares. Reis tinham seus próprios “historiadores”, cuja função era mostrar a grandeza dos soberanos a que serviam. Os nazistas até criaram um campo de concentração “de artistas”, Terezin, para mostrar como se tratavam bem os prisioneiros, particularmente os judeus. Mas nunca se fez isso de forma mais intensa e desavergonhada do que hoje em dia. Governantes se comunicam diretamente com os cidadãos pelas redes sociais, bancam a difusão de fake news, politizam questões científicas, distorcem acontecimentos para plantar versões que lhes agradem com a finalidade de favorecer sua ideologia ou seu projeto de poder.

Verdade seja dita, o ataque à verdade histórica não provém apenas de governos. Militantes organizados também se acham no direito (e, segundo suas convicções, na obrigação) de nos impingir sua versão sobre os fatos. Muitas vezes há choque frontal entre o que aconteceu e a “interpretação” que eles dão ao acontecido. Nesses casos, pior para os fatos, que saem perdendo, uma vez que o compromisso do militante – tenha ou não boas causas – é apenas com sua militância. Interpretações “convenientes” também são ataques contra a História.

Um amigo historiador conta que até sua tia, uma senhora simpática e de bom gênio, tem o péssimo hábito de receber mensagens geradas sabe-se lá onde e as pôr em circulação, como se fossem verdades. Mensagens que afrontam a ciência, que reproduzem argumentos antidemocráticos, que alertam contra supostos perigos das vacinas “demonstram” a suspeição dos nossos tribunais, explicam os motivos que nos devem levar a acabar com a Câmara dos Deputados e o Senado. Repassar informações que não informam também pode ser um atentado à verdade histórica.

A História pode e precisa ser defendida. Especialmente agora, quando as mentiras, que sempre existiram, ganham dimensão diferente, com fake news vomitadas por atacado, de forma organizada. Alguns governantes, em vários países do planeta, embora eleitos democraticamente, colocam-se em posição de negar a democracia, as eleições, o direito à palavra dos opositores. Há mesmo lugares onde opositores são sumariamente presos, aí, sim, por uma Justiça corrupta. Em outros, os governantes estabelecem um esquema paramilitar destinado a calar os que se opõem às suas decisões e ambições. E uma vez mais se usa a História para esconder, distorcer, mentir.

E há mais: querem mudar a História utilizando a técnica do negacionismo, recusando-se a admitir fatos comprovados. Repressão conduzida pelo governo militar nos anos de chumbo? “Isso nunca existiu.” O massacre dos armênios pelos turcos, no começo do século 20? Pura invenção. O Holocausto, que dizimou o judaísmo europeu, uma cultura que existia havia mais de sete séculos? “Invenção.” Negacionismo é, provavelmente, a forma mais deslavada de negar a História.

Sim, estão em guerra contra a História. Há que cerrar fileiras e combater pela História. Não merecemos viver na mentira.


HISTORIADOR, PROFESSOR TITULAR DA UNICAMP, DOUTOR E LIVRE-DOCENTE DA USP, É AUTOR, COAUTOR E ORGANIZADOR DE 30 LIVROS, INCLUÍDO ‘NOVOS COMBATES PELA HISTÓRIA’

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