Lygia Fagundes Telles

Para seus amigos e confrades, como para os seus leitores, é um consolo lembrar o que dizia Cícero no ‘De amicitia’.

Celso Lafer, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2022 | 03h00

A presença de Lygia tinha o sopro de uma aura. Conjugava-se com sua beleza, que perdurou no correr dos muitos anos de sua vida. O seu olhar tinha características próprias que transpareciam no contato pessoal. Era um olhar pluriantenado de sensibilidade que agudizava a sua percepção das coisas, das pessoas e do mundo. Traduziu-se numa obra literária de primeira grandeza que, no romance e no conto, possui a limpidez adequada a uma visão que penetra e revela, como observou Antonio Candido. Filia-se no seu escrever à linhagem de Machado de Assis. Na sua obra, para evocar Octavio Paz em Blanco, na transcriação de Haroldo de Campos, “a irrealidade do que é visto / dá realidade à visão”.

A recente publicação (2018) de um volume que reúne os seus contos vem acompanhada de um brilhante posfácio de Walnice Nogueira Galvão. Nele Walnice destaca que, na diversidade das estruturas e das matérias de seus contos, o fio condutor da limpidez de sua linguagem é a criatividade literária de uma imagem pregnante. Esta é “um concentrado ou condensado de sentido, uma síntese extremada de tudo o que o conto insinua”. A multiplicidade destas “imagens pregnantes” – o isqueiro, a cor verde, o colar de âmbar ou de pérolas, as mãos dadas, o espartilho, o vestido bordado –, como indica Walnice na análise dos seus contos, traz “consigo um senso de revelação, iluminando como um rastilho toda a narrativa”.

O mundo de Lygia é o mundo contemporâneo, com seus desvãos e as imperfeições dos seres humanos que o habitam, desvendados com agudeza crítica e fôlego inspirador. Daí a universalidade de sua obra, que foi traduzida em muitos idiomas.

No trato deste mundo e, especialmente, o brasileiro, a persona pública de Lygia foi corajosa na sua postura em relação às injustiças, ao arbítrio e à censura. Não padeceu “do enxofre da subserviência / do purgatório da indiferença / do exílio da ingratidão / da asfixia de rótulos e de amarras / da gangrena de toda a covardia / ou do deserto do desamor”, para evocar o poema Prece, do seu querido amigo e confrade Paulo Bomfim. 

São Paulo, urbana e metropolitana na qual viveu, com remissão ao interiorano de sua vivência familiar, foi terreno dos estímulos de sua criação literária. Na Federação das nossas Letras, Lygia é uma grande expressão do abrangente talento de nossa querência paulista. Por isso, integrou em convergente complementaridade a Academia Paulista de Letras e a Academia Brasileira de Letras, e o Prêmio Camões que lhe foi outorgado assinalou o reconhecimento de seu papel na ampliação do repertório expressivo da Língua Portuguesa, da qual era uma devota apaixonada.

Lygia enfrentou os desafios da condição feminina com a perseverança bem-sucedida da sua maneira de ser. Gostava de citar, especialmente em conversas comigo, uma lição de Bobbio: a grande revolução do século 20, como uma mudança radical não precedida de um movimento revolucionário, foi a revolução feminina que transformou os costumes e foi corroendo os valores das sociedades patriarcais.

Lygia também gostava de citar a frase de Santo Agostinho: a sede da alma reside na memória. Na sede da sua alma, desempenhou um grande papel a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde estudou e se formou, exercitou a experiência da cidadania e com a qual manteve laços de afeto e de vínculos durante toda a sua vida. Laços de afeto e de vinculação que foram correspondidos por gerações e gerações de alunos e professores, que nela identificaram uma grande expressão da tradição literária da São Francisco, iniciada pelos poetas românticos que ela conhecia e apreciava, em especial Álvares de Azevedo. Alunos e professores a velaram, antes da sua partida, no saguão da Academia Paulista de Letras.

Em 2016, a antiga aluna foi a áurea patrona da turma 184 dos formandos da faculdade. A sede da Academia de Letras dos alunos da faculdade, acolhida no prédio da nossa Casa do Largo São Francisco, recebeu em 2017, com a sua presença, o seu nome tutelar.

Foi na faculdade que nos meus tempos de estudante conheci Lygia e desde aquela época, precedida pela leitura no colegial de seu livro de 1958, Histórias de Desencontro, a ela dediquei admiração e amizade que, no correr dos anos, se estreitaram e aprofundaram. Com a boa vontade que tinha com os estudantes, aceitou colaborar com a Revista do XI de Agosto, da qual fui o redator literário. Foi assim que a revista de 1961 publicou uma primeira versão de seu conto A Medalha, que subsequentemente retrabalhou e que agora está inserido no volume de 2018 que acima mencionei. Neste conto, a medalha é um exemplo de “imagem pregnante” apontada por Walnice.

Para os amigos e confrades de Lygia, assim como, penso eu, para os seus leitores que na sua obra sentem o sutil impacto da presença de sua obra, é um consolo lembrar o que dizia Cícero no De amicitia: “Graças à amizade, o que é difícil dizer, os mortos vivem: vivem na honra, na memória e na dor dos amigos.”

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PROFESSOR EMÉRITO DA FACULDADE DE DIREITO DA USP, É MEMBRO DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS E DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

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