Mães na adolescência

Um problema com tais implicações históricas, econômicas e sociais não pode ser ignorado

Pedro Cavalcanti *, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2019 | 03h00

Pouco antes das eleições que o levaram à Vice-Presidência da República, o general Hamilton Mourão afirmou que as famílias compostas apenas por mãe e avó “equivalem a uma fábrica de elementos desajustados”. Diante das repercussões negativas, esclareceu que se referia apenas às mães de comunidades carentes onde não há creches e “muitas vezes o pai não está lá porque está preso ou já morreu”. Alguns julgaram que essa desastrosa emenda apenas piorou o lamentável soneto da declaração anterior, pois no Brasil em hipótese alguma se fala “mal da mãe” dos outros, sobretudo das mães da periferia, heroínas do cotidiano. Outros, observadores mais serenos, opinaram que o general Mourão apenas se permitiu uma declaração óbvia, pecando mais pela forma do que pelo fundo.

De qualquer maneira, ficou claro que ignorar problemas não é uma forma de resolvê-los, sobretudo um problema como esse, com fundas implicações históricas, econômicas e sociais. E que revela vertentes totalmente inesperadas a quem se aproxima dos serviços sociais na periferia das grandes cidades.

Uma dessas “frente da batalha” é o Centro Assistencial Cruz de Malta, localizado junto a uma das inúmeras favelas da cidade de São Paulo. Quem conversa com suas enfermeiras e assistentes sociais se depara com uma informação inicial surpreendente. As adolescentes, de 16, 14 e até 12 anos que vão procurá-las com suspeita de gravidez, recebem, como era de esperar, a confirmação do seu estado assustadas com a perspectiva do que lhes acontecerá antes e depois do parto. Inesperadamente, porém, o susto vem acompanhado de um largo sorriso, aparentemente inexplicável

De onde ele vem?

Não existe uma resposta definitiva, mesmo porque cada caso é um caso. Mas as profissionais do centro assistencial que acompanham há muitos anos esses casos são capazes de reconhecer algumas pistas que levam a uma melhor compreensão. 

Uma parte do sorriso vem simplesmente do instinto materno, presente com força maior ou menor em toda mulher desde que seu corpo começa a se transformar de menina em mulher. Outra parte, já de cunho espiritual, mas de origem também muito remota, surge das profundezas da memória: o sorriso no rosto da adolescente é o mesmo que ela distinguiu pela primeira vez no rosto da própria mãe nos seus primeiros meses de vida. Muito antes de aprender as primeiras palavras, já aprendera a sorrir. 

Embora as ocasiões de sorrir não tenham sido tão frequentes para elas quanto se desejaria, a necessidade do sorriso, como reflexo do amor materno nunca desaparece. Ao contrário, é como se a ausência de afeto na vida familiar e social criasse um vazio que elas precisam preencher criando o próprio objeto de amor. Isso explica, em parte, a universalidade da questão das adolescentes grávidas. 

Um caso de grande repercussão aconteceu em 2006 na cidade portuária de Gloucester, a uma hora de trem de Boston (EUA): 17 estudantes da mesma escola, todas menores de 16 anos, apareceram grávidas ao mesmo tempo. Aparentemente haviam feito um pacto com a ideia de criar os futuros bebê numa comunidade imaginária, que por motivos evidentes nunca chegou a existir. No campo da ficção temos o romance Daisy Sisters, de Henning Mankell, mais conhecido entre nós pelos romances policiais do detetive Kurt Wallander. Nessa obra, profundamente feminista, Mankell conta como a gravidez na adolescência pode destruir os sonhos de realização em gerações sucessivas. A ação transcorre na Suécia a partir de 1941. Mas caberia perfeitamente no Brasil de hoje. Como toda boa obra de ficção tudo soa como verdade, com exceção dos nomes e datas.

No Brasil, a alegria das adolescentes que se descobrem grávidas tem outra razão de ser. Sobem automaticamente de status social. Quanto mais precárias forem as condições de vida, mais respeitada será a mãe. Inúmeras vezes, por ausência ou abandono do pai, ela se torna chefe da família. Mesmo entre marginais não há insulto mais grave do que “xingar a mãe”.

Mas o sorriso inicial ao descobrir a própria gravidez é logo substituído quando as adolescentes caem na real. Cuidados básicos como dar banho, alimentar ou trocar o bebê não inspiram grandes preocupações. Elas se sentem capazes de lidar com essas tarefas. Temem, sobretudo, as doenças, a necessidade de procurar um pronto-socorro no meio da madrugada, a eventualidade de internação e até de morte do bebê. O dinheiro, sempre escasso, obriga a abandonar a escola, à procura de bicos. Do pai, em geral, nada se espera.

Nesse caso, as avós da criança costumam ser o esteio mais sólido, muito embora também elas tenham uma vida sobrecarregada. As avós nessas comunidades mais carentes costumam ter menos de 40 anos de idade, trabalham fora para o sustento da casa e têm vários outros filhos para cuidar.

Por felicidade, esse panorama sombrio também provoca reações positivas. A mãe adolescente “vai à luta”, aproxima-se da família, corre à procura de ajuda. Assistentes sociais são essenciais na luta contra dificuldades de vocabulário invencíveis na papelada Exige-se uma “certidão”, mas o que será isso? E “estado civil” o que significa? E como arranjar uma conta de luz como prova de residência, se na favela as ligações são clandestinas?

Todos esses aspectos foram analisados detidamente por Paula Rosemberg de Andrade, enfermeira pediatra do Centro Assistencial Cruz de Malta, autora de extensas pesquisas que lhe serviram de base para vários artigos e suas teses de mestrado e doutorado. 

Paula anotou num de seus artigos: “Como consequência dessa busca de ajuda e de ser ajudada, a mãe adolescente vai se fortalecendo como mãe e mulher e, assim, vai superando dificuldades no cuidar. Ela consegue dar os cuidados e percebe-se cada vez mais independente e confiante, por sentir-se capaz de satisfazer as necessidades do filho, até mesmo surpreendendo-se com seu desempenho”.

* JORNALISTA E ESCRITOR 

E-MAIL: PRA@UOL.COM.BR

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