Mais em defesa de um QE (afrouxo monetário)

O Banco Central não atenta bem para a enorme gravidade da depressão econômica

*Roberto Macedo*, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2019 | 03h00

Retomo meu artigo anterior, sobre a adoção desse afrouxo no contexto das imensas dificuldades por que passa economia brasileira. O QE – quantitative easing, em inglês – foi adotado nos EUA, no Reino Unido, na União Europeia e no Japão. Trata-se de instrumento não convencional de política monetária; na sua forma usual ela opera com a taxa básica de juros – no Brasil, a Selic – com o objetivo de controlar a inflação, via efeitos dessa taxa no sistema de crédito e de operações que envolvem ativos financeiros em geral.

A política monetária, mesmo nessa forma mais convencional, como praticada no Brasil, aqui também atenta, ainda que sem alarde, para os níveis de atividade e de emprego de economia, procurando estimulá-los em condições de recessão ou de depressão, esta mais forte que aquela, e que é o meu diagnóstico do caso brasileiro.

Um QE, conforme meu artigo anterior, “se dá quando um banco central adquire do setor financeiro, com expansão monetária, títulos privados ou públicos para estimular o crédito em situações marcadas por esfriamento da atividade produtiva, baixa inflação e fraca resposta a taxas básicas de juros muito baixas”. Essa expansão monetária deve ser qualificada. Pelo que li sobre o QE, em troca dos ativos que comprou o banco central aumenta escrituralmente o saldo das contas de reservas que as instituições financeiras nele mantêm. Saques devem ser feitos para expansão de créditos voltados para a atividade produtiva, e minha proposta se limitaria a créditos privados, como os habitacionais e de infraestrutura, estes do BNDES. Um QE não envolve endividamento público. Se os meios de pagamento se expandirem em decorrência dos desdobramentos creditícios do QE, isso virá com expansão da atividade produtiva que ele financiou, mitigando eventuais efeitos inflacionários.

Também argumentei que embora um QE típico tenha ocorrido em condições de inflação e taxa básica de juros próximas de zero, aqui essa situação não está no horizonte que se pode contemplar, em face de uma indexação ainda disseminada de salários, preços e tarifas. Creio que na ausência da indexação nossa inflação já estaria bem próxima de zero. No caso da Selic há outro limite, dado pela necessidade de rolar uma dívida pública elevada e em expansão, necessidade essa que correria risco de não ser atendida se os credores dessa dívida considerassem inaceitável a taxa oferecida.

Também assinalei que políticas macroeconômicas convencionais de alívio do estado depressivo da economia estão com sua utilização prejudicada. A péssima situação das contas públicas impede estímulos fiscais relevantes. E a política monetária, via redução da Selic, tem efeitos restritos sobre a expansão da atividade produtiva. O elevadíssimo spread bancário inibe a tomada de volumes significativos de crédito. O mercado vem prevendo uma redução da Selic para 5,5% até o fim do ano, mas, como disse um economista, isso apenas faria cócegas na expansão do crédito.

Vista de outra forma, a necessidade de um QE no Brasil se sustenta porque a economia está gravemente doente. Para examiná-la, os economistas, tidos como seus médicos, monitoram as condições da paciente. Dois exames muito importantes são: um, da vitalidade da economia, evidenciada por sua atividade produtiva e sintetizada por seu produto interno bruto (PIB); ainda quanto à vitalidade, outro exame é o da taxa de desemprego, que também mostra o impacto social da doença.

Começando pelo desemprego, os últimos dados que consultei, relativos ao trimestre encerrado em abril, mostram que alcançou 13,2 milhões de pessoas, cerca do dobro (!) do que era no final de 2014. E a população subutilizada, 28,4 milhões de pessoas, foi recorde da série histórica iniciada em 2012. Nesse grupo estão, entre outras pessoas, as desempregadas e as que não procuraram trabalho, embora em condições de fazê-lo.

O crescimento do PIB vem fraquejando há quatro décadas, num processo que se agravou desde 2014, quando o PIB cresceu apenas 0,5% e, em seguida, caiu fortes 3,6% e 3,3% em 2015 e 2016, respectivamente. Em 2017 e 2018 voltou a crescer, mas à mesma taxinha de 1,1% em cada ano, longe de suficiente para tirar a economia do profundo buraco em que caiu no biênio anterior. O ano de 2019 começou com previsão de 2,5% de acréscimo, mas, conforme o relatório semanal Focus, do Banco Central, essa previsão vem caindo há 20 (!) semanas consecutivas e a última, divulgada nesta semana, foi de apenas 0,8%.

Comparando essa evolução do PIB brasileiro com a observada na recessão que afetou a economia dos EUA em 2007-2008 – e que tanto alarido provocou mundialmente, a ponto de ficar marcada na literatura daquele país como a Grande Recessão –, seu PIB caiu 0,1% em 2007 e 2,5% em 2008, mas em 2009 praticamente se recuperou ao crescer 2,6%. Ou seja, o buraco foi muito menor que o nosso e a saída, muito rápida. Aqui já vamos para cinco anos dentro desse buraco muito mais profundo. Lá, recorreu-se a um QE e, pelo que li, há o reconhecimento de que ele ajudou.

Aqui, o Banco Central não atenta suficientemente para a enorme gravidade da depressão econômica, que há longo tempo exige providências mais imediatas e adequadas. O novo governo herdou essa encrenca, a equipe econômica faz um bom trabalho, aposta muito nas reformas que propõe, mas estas tomarão bastante tempo para mostrar resultados relevantes.

Se não vierem robustas e sustentáveis em 2020, a má situação econômica e a aproximação da eleição de 2022 aumentarão a pressão política sobre o governo, e este poderá tomar decisões precipitadas, até mesmo incompatíveis com a presença de Paulo Guedes à frente da equipe econômica.

*ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP, É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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