Mais um ano para Bolsonaro piorar

Ele conseguiu nomear um ministro da Saúde pior que Pazuello, atrasou a vacinação de crianças e poderá superar-se em 2022.

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2022 | 03h00

Superação é a marca mais notável do assim chamado governo de Jair Bolsonaro. O médico Marcelo Queiroga é pior que o general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde. O ministro da Educação, Milton Ribeiro, é tão incompetente quanto seu antecessor, mas avançou um passo, ao proibir a exigência, nas universidades federais, do comprovante de vacina. Teve de recuar, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), mas poderá atacar de novo, a qualquer momento, se for açulado por seu chefe. O próprio Bolsonaro lidera a conquista de novos patamares de irresponsabilidade e barbárie. Em 2020, atrasou e dificultou a vacinação de adultos contra a covid-19, negando proteção a milhares de vidas. Sua nova façanha, mais sinistra, foi retardar a imunização de crianças de 5 a 11 anos – desprezando parecer da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – e, ainda, incitar seus seguidores contra funcionários da agência. Mais lances macabros poderão surgir nos próximos meses, no sombrio cenário econômico e político previsível para um ano de intensa disputa eleitoral.

O alerta mais estridente partiu dele mesmo no início do ano passado. Algo parecido com a invasão do Congresso americano, em 6 de janeiro de 2021, poderia ocorrer no Brasil, em 2022, avisou Bolsonaro. Várias foram as ameaças golpistas insinuadas por ele, em sua campanha contra o voto eletrônico. Palavras ameaçadoras também foram dirigidas ao STF, especialmente aos ministros Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. Depois das manifestações antidemocráticas de 7 de setembro, houve uma declaração de trégua, aconselhada pelo ex-presidente Michel Temer. Mas seria imprudência levar a sério esse aparente recuo. Para isso seria preciso desconsiderar três anos de manifestações autoritárias e personalistas, voltadas principalmente para os interesses individuais e familiares do chefão do Executivo.

Bolsonaro jamais assumiu de fato as funções e responsabilidades presidenciais, mas nunca deixou de proclamar seu poder de mando. Como grande mandachuva, interveio na publicidade do Banco do Brasil, deu palpites nos preços da Petrobras, desarticulou a proteção ambiental, ofendeu parceiros comerciais do País, desprezou o Mercosul e devastou os Ministérios da Educação e da Saúde.

Dificilmente alguém terá esquecido, mas vale a pena lembrar: diante da pandemia, o presidente desprezou a ciência, defendeu o uso de drogas sem eficácia – e até perigosas para alguns pacientes – e conclamou os brasileiros a se expor ao contágio, em busca de uma suposta imunidade de rebanho. Ele desprezou a mortandade, negou ser coveiro e recusou tratar do assunto com a imprensa. Foi fiel a seu currículo, na quinta-feira passada, quando negou saber de mortes de crianças causadas pela pandemia e questionou os interesses de quem defende a vacinação do público infantil.

Segundo dados oficiais, 301 crianças com idades entre 5 e 11 anos morreram de covid-19 até 6 de dezembro. Nenhuma outra doença prevenível por vacina causou tantas mortes nessa faixa de idade, nesse período, de acordo com especialistas. Se Bolsonaro conhecia esses dados, mentiu. Se os desconhecia, foi por negligência, por mau assessoramento ou pelos dois fatores, frequentemente combinados em sua desastrosa carreira presidencial.

Mais uma vez, Bolsonaro aproveitou a divergência para atacar os técnicos da Anvisa, questionando seus propósitos. “Qual o interesse da Anvisa por trás disso aí? Qual o interesse daquelas pessoas taradas por vacina? É pela sua vida? É pela saúde? Se fosse, estariam preocupados com outras doenças no Brasil, e não estão.”

Um discurso como esse justificaria a destituição do síndico de um prédio. Mas é insuficiente, no Brasil de hoje, para derrubar um presidente conhecido por seu desprezo à saúde e à vida, direitos consagrados internacionalmente e reconhecidos na Constituição. Talvez isso mude, nos próximos meses, se ele continuar afundando nas pesquisas, mas qualquer previsão, neste momento, é muito insegura. Basta pensar na presidência da Câmara, nos aliados moralmente próximos de Bolsonaro, no padrão atual da Procuradoria-Geral da República e nas possibilidades de atendimento ao Centrão, faminto devorador de verbas.

Por enquanto, a neutralização de Bolsonaro como desgraça nacional parece depender principalmente dele mesmo. A lista de crimes elaborada pela CPI da Covid e por juristas só produzirá efeitos quando ele se tornar um peso excessivo para seus apoiadores. Devem contribuir para isso a inflação acelerada, o desemprego elevado, o empobrecimento e a estagnação econômica prevista para 2022. Ainda assim, ele poderá resistir até a eleição.

Neste caso, se nenhuma grande estupidez for cometida por outros candidatos, ele talvez caia antes do segundo turno. Mas o País terá de suportar suas barbaridades, incluídas, talvez, novas manobras golpistas, até o fim do ano. Não há como desprezar a capacidade bolsonariana de autossuperação para pior. Todos devem ficar atentos também às crianças de menos de cinco anos.

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JORNALISTA

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