Maldades ocultas da nova pandemia

Vive-se a perigosa tolice de haver gente que negue a vacina e invente mentiras estapafúrdias

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

05 de fevereiro de 2021 | 03h00

Todas as urgências e emergências fazem perder de vista a origem profunda dos próprios problemas, ou até da vida em si. Se, por exemplo, alguém estiver se afogando por não saber nadar, seria absurdo mandar que, para se salvar, tenha aulas de natação, cuja ausência seria, de fato, a causa do eventual afogamento.

Mas as urgências mostram as carências ou erros acumulados, como agora com as vacinas da covid-19. Tal qual noutros setores, continuamos dependentes da ciência e da tecnologia estrangeira. Temos de apelar (ou mendigar) a dois países asiáticos, China e Índia, que – meio século atrás – tinham o mesmo nível de subdesenvolvimento do Brasil. Os chineses constituem, hoje, uma potência mundial e desbravam até o espaço.

O caso da Índia, porém, é, talvez, mais emblemático. Nossa independência ocorreu em 1822. A Índia tornou-se independente somente em 1947, 125 anos depois do grito às margens do riacho Ipiranga. As diferenças começam em que nós tivemos Pedro I, príncipe devotado à vida mundana, enquanto os indianos tiveram Mahatma Gandhi e sua pregação de analisar para resistir, mas com cordura e não violência.

Não tento estabelecer comparações, pois as duas sociedades são diferentes em termos históricos. Na Índia persiste o brutal e opressivo regime de castas. Paralelamente, porém (e em liberdade), desenvolveram a pesquisa científica e tecnológica, enquanto, aqui, a normalidade democrática era interrompida por duas décadas de ditadura e cada um de nós se extasiava em ser campeão mundial no futebol, pondo o desporto como parte essencial da vida. Além disso, vivemos montados num Estado burocrático, em que os papéis contam mais do que a realidade.

Conclusão: hoje, vimos nossos governantes pedindo ajuda aos governantes da Índia e da China para não nos deixarem sem os componentes farmacêuticos da vacina contra a covid-19... Sabemos copiar seguindo as normas vindas do estrangeiro, mas não nos interessamos em criar a partir da experimentação científica.

As vacinas que o Instituto Butantan e a Fundação Oswaldo Cruz fabricam aqui dependem totalmente de insumos farmacêuticos do exterior. Portanto, são “nossas vacinas” somente na mão de obra científica da etapa final. Ou, para usar uma caricatura verbal: no Brasil, descobrimos a água morna a partir do esfriamento da água fervente...

Nunca o mundo viveu algo tão brutal quanto a covid-19, amontoando mortos em todos os continentes. Em Portugal, com os hospitais lotados, os doentes são levados para a Áustria e já existe “crise funerária”. Escasseiam coveiros e cemitérios, tal qual meses atrás em Manaus. Aqui, no Brasil, os contagiados em Rondônia ou no Amazonas são levados, agora, para São Paulo e Rio Grande do Sul para serem medicados. Com isso, a nova variante amazônica do vírus corre o risco de se espalhar pelo Sudeste e o Sul, ampliando ainda mais o horror.

Muito antes, no início da pandemia, o desdém do governo federal abriu portas à expansão da peste. O presidente da República negou, sempre, o perigo, chegou a chamar a covid-19 de “gripezinha” sem importância e, hoje, insiste no absurdo de dizer que não se vai vacinar, como se proclamasse uma verdade a ser seguida pela população.

A postura de Jair Bolsonaro torna-se, assim, um acinte e uma agressão não só à ciência, mas até ao sentido comum. Como todo absurdo, tem o falso requinte de “ser diferente” e assim consegue adeptos e seguidores. No caso de Bolsonaro, há um perigoso e extravagante fanatismo que multiplica o horror entre a população desinformada que o apoia de boa-fé.

E, assim, hoje se vive a perigosa tolice de haver gente que negue a vacina e até invente e espalhe mentiras estapafúrdias pelas chamadas “redes sociais”. A mais estrepitosa inventa que “a vacina pode mudar o DNA de quem a receba...

Nesse monturo de desperdícios, seria até desnecessário lembrar o “mal menor” da pandemia ou de como pisoteia nosso idioma e o substitui por desnecessárias expressões em inglês. Dizemos lockdown em vez de “bloqueio total” ou “fecha tudo”, tal qual nos vacinamos em drive-thru e não “ao dirigir o carro”.

A balbúrdia provocada pela desorganização do governo federal na distribuição da vacina fez com que deixássemos de lado a ameaça permanente e ainda mais perigosa da crise climática.

Tempos atrás, o papa Francisco alertou: “Não há duas crises separadas – uma ambiental e outra social –, mas uma única e complexa crise socioambiental”.

Vale relembrar as palavras do papa aos ministros de Economia de oito países europeus: “Se nos aproximamos da natureza sem admiração e encanto, se deixamos de falar a língua da fraternidade e da beleza da nossa relação com o mundo, então nossas atitudes serão as do dominador, de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de impor um limite aos seus interesses imediatos”.

Aqui, ignoramos as maldades e pisoteamos a beleza da natureza.


JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO  DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

 

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