Mercadores do ódio

Uma minoria enquistada nos três Poderes tripudia da esmagadora maioria da Nação

Ives Gandra da Silva Martins, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2021 | 03h00

Tenho procurado me esquivar de discutir a crise ideológica por que passa o País, que envolve nos debates, cada vez mais repletos de ódio, membros dos três Poderes, órgãos de classe, professores universitários, formadores de opinião, mídia, pois contaminadores da lucidez que se deveria ter para enfrentar o momento delicado que vive o mundo, sendo o povo informado e desinformado, ao mesmo tempo, sobre tudo.

Lia, há alguns dias, artigo do presidente do Conselho Nacional de Medicina que mostrava seu desconforto ao ver o tema do tratamento médico da covid-19 ser analisado por políticos, jornalistas, magistrados, mestres não de medicina, com desenvoltura de grandes cientistas, condenando alguns medicamentos e aprovando outros, em moléstia para a qual ainda hoje não se encontrou forma eficaz de combatê-la. Conclui, ao final do artigo, que cabe a cada médico dar os cuidados clínicos que considerar mais adequados ao paciente, sem pressões ideológicas.

É interessante que o Brasil, em mortes por milhão de habitantes, tenha menos óbitos do que alguns países europeus dos mais civilizados, sem que a discussão lá seja colocada no patamar em que se põe por aqui.

Há, por outro lado, uma profunda insensibilidade de governos estaduais e municipais que buscam brechas na lei para conceder aumentos a servidores públicos em 2021, os quais lembram o tempo dos senhores feudais, quando, para sustentarem seu fausto, sua ostentação, tornavam os plebeus verdadeiros escravos. Hoje, uma minoria enquistada nos três Poderes e nas três esferas da Federação, em relação ao povo que amarga um desemprego crescente com a queda do produto interno bruto (PIB) por força da pandemia, tripudia, do alto de seus privilégios e subsídios, sobre a esmagadora maioria da Nação.

O Poder Judiciário no Brasil, composto, inequivocamente, de magistrados competentes, pela dificuldade nos concursos, é, todavia, o mais oneroso do mundo, em face de benefícios autoconcedidos acima do teto constitucional. Em recente quadro publicado por órgão de boa circulação no País, o peso seria de 1,4% do PIB, ante a média inferior a 0,4% nos países desenvolvidos e emergentes. Um tribunal estadual chegou a ofertar, durante as festas natalinas, subsídios e benefícios em torno de R$ 260 mil, de uma só vez, a cada um de seus desembargadores!

Os “mercadores de suspeitas”, na feliz expressão dos autores do livro Os Onze, nas Casas Legislativas, em órgãos de classe, no parquet, na mídia, procuram sobre qualquer ação pública ou privada de instituições ou pessoas motivações desonestas, inibindo muita gente boa de se expor a fazer algo pelo País para não ter sua vida privada desfigurada por interpretações, a maioria das vezes errôneas, por aqueles que não acreditam que ninguém possa fazer algo para o próximo de forma altruística.

A luta pelo poder, nos três Poderes, por sua vez, resta escancarada para a multidão, que hoje se divide entre a mídia tradicional, que também embarcou na luta política, e as redes sociais, que buscam desbancar a imprensa clássica, mas são facilmente manipuladas e manipuladoras dos acontecimentos.

Por fim, os preconceitos crescem, nesse cadinho enturvado de uma nação ideologicamente esfrangalhada, com o que a defesa de valores tradicionais de respeito à vida do ser humano desde que conformada, privacidade de suas convicções, respeito às suas crenças num Criador do universo, à família, à educação de seus filhos, é considerada antiquada, pois os novos tempos tudo permitem. É liberdade de expressão desfigurar o Deus dos cristãos em filmes de deletéria ignorância histórica e corrosiva deturpação midiática, mas é crime racial fazer uma piada sobre opção sexual pelo mesmo gênero!

E os preconceitos terminam produzindo “verdades absolutas” sobre “realidades imaginárias”, numa profunda deterioração da verdadeira democracia que é a discussão de todos os temas de interesse do povo com respeito às opiniões alheias.

As democracias, por enquanto, não crescem, no mundo inteiro, porque a luta pelo poder não mudou desde a sua origem, cada político querendo impor-se menos por suas ideias e mais por pisotear seu adversário no que fez de errado. Conhecer os pecados dos outros e desventrá-los é ainda a melhor forma de subir na política e vender notícias.

Reconheço que conciliar a natureza humana com os ideais de uma política de debate elevado parece inconcebível, mas continua campo de meditação, principalmente de filósofos, que, desde Confúcio, pré-socráticos e a trindade áurea de Atenas, sobre ele se debruçaram com suas reflexões.

Infelizmente, quanto mais vivermos o debate ideológico, e não o da eficiência e do respeito à opinião alheia – lembro que a ideologia é a corrupção das ideias –, mais abriremos fértil seara para que os “mercadores do ódio” desvirtuem o País, alavancando para um patamar insuportável a crise brasileira.


PRESIDENTE DO CONSELHO SUPERIOR DE DIREITO DA FECOMERCIO-SP, É PROFESSOR EMÉRITO DA UNIVERSIDADE MACKENZIE E DAS ESCOLAS DE COMANDO E ESTADO-MAIOR DO EXÉRCITO (ECEME) E SUPERIOR DE GUERRA (ESG)

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