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Método e substância

Ativismo diplomático sem bom conteúdo de nada serve ao povo brasileiro

Kátia Abreu, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2021 | 03h00

A política externa precisa retornar ao seu leito normal. Estamos tentando reunir esforços das diversas instâncias do Estado brasileiro para que a diplomacia volte a ser a voz da moderação e do consenso. Uma voz ativa e propositiva, engajada na construção de um futuro melhor, verdadeiramente sustentável e inclusivo. Ficar contra o mundo deixou de ser uma opção.

Os devaneios ideológicos e incidentes diplomáticos acumulados nos últimos anos causaram imenso prejuízo ao Brasil: um forte desgaste de nossa imagem no exterior, o surgimento de obstáculos a negociações comerciais estratégicas, a retração do fluxo de investimentos e um letal atraso na aquisição de vacinas.

Daqui em diante, a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado pretende evitar que semelhantes erros se repitam. Vamos atuar como instância complementar do processo de reconstrução da política externa brasileira. Pretendemos agir em defesa do interesse nacional, conforme nos instruem os artigos 4, 49 e 52 da Constituição. Nosso compromisso é impedir equívocos que possam afetar a renda, o emprego e a saúde dos brasileiros.

Uma política externa compatível com o interesse público observa três pilares: 1) os objetivos estratégicos do Brasil, voltados para o desenvolvimento sustentável da Nação e o bem-estar do nosso povo; 2) a dinâmica internacional e suas tendências de médio e longo prazos; e 3) nossa experiência histórica, com seus êxitos e fracassos. Vale ressaltar que diplomacia não é política externa. Política externa é a substância que rege os interesses de um país no mundo. E diplomacia é o método pelo qual se executa a substância. Ativismo diplomático sem a preponderância de bom conteúdo em nada serve às necessidades do povo brasileiro.

O Senado espera do Itamaraty relatório pormenorizado das propostas que a política externa terá para os anos de 2021 e 2022, os recursos financeiros que serão empregados em cada ação, os responsáveis designados para cada iniciativa, os resultados esperados para o País e uma análise de risco quanto aos projetos propostos. Isso se chama, em linguagem técnica, planejamento estratégico. Como escreveu Machado de Assis, “o esperado nos mantém fortes, firmes e em pé. O inesperado nos torna frágeis e exige recomeços”.

É preciso traduzir objetivos e metas em resultados, com indicadores claros, para que o Senado e o público em geral possam monitorar o bom uso dos recursos públicos. Nesse desenho, a demanda do Senado busca compreender com clareza os objetivos internacionais do País e prestar contas aos seus constituintes – o povo brasileiro.

O mundo hoje avança para um novo ordenamento, centrado no desenvolvimento sustentável, na economia verde e nas tecnologias inovadoras. A proteção do meio ambiente e o acesso à tecnologia 5G serão elementos decisivos. Equívocos em tais áreas podem resultar em danos ao comércio exterior do Brasil, ao setor produtivo e às famílias brasileiras. O agronegócio – carro-chefe da nossa economia – deve abraçar o desenvolvimento sustentável. Somos, por natureza, uma potência climática e uma potência agrícola. Temos vocação para as energias limpas, para a preservação da biodiversidade e para a agropecuária sustentável. Seria tolo e antieconômico abrir mão dessas conquistas.

Ao contrário, devemos estar atentos às novas oportunidades. O correto acesso dos brasileiros às plataformas de inovação, como no caso do 5G, vai permitir a todo o País avançar em qualidade, produtividade e sustentabilidade, de modo a ampliar a sua participação numa economia global cada vez mais exigente e competitiva. Não menos relevante: precisamos de políticas específicas para desenvolver e aprofundar as relações bilaterais com os Estados Unidos e com a China. Não pode ser “um” ou “outro”. Não são parcerias estratégicas excludentes. Em defesa do nosso interesse nacional, precisamos extrair o melhor de cada uma dessas duas superpotências.

A América do Sul é a nossa circunstância. Por isso, precisamos estar atentos e engajados numa clara política exterior para a região. Liderança não vem a reboque da inércia. O Brasil precisa definir com clareza como quer projetar o seu poder e como quer ser indutor do desenvolvimento no contexto regional.

O Brasil necessita, ainda, reativar a sua interlocução com os países africanos. O que nos une é incomensurável e, portanto, não podemos seguir equidistantes.

Igualmente devemos buscar uma relação estável e respeitosa com as potências europeias.

Garantir que essas mudanças se concretizam é o papel constitucional do Senado e as pessoas esperam de nós ousadia e coragem. Só assim vamos seguir em busca de um País mais justo, um Brasil seguro de si mesmo, uma Nação fortalecida pelo respeito ao meio ambiente e pelo cumprimento dos direitos humanos.


SENADORA (PP-TO), PRESIDE A COMISSÃO DE RELAÇÕES EXTERIORES E DEFESA NACIONAL DO SENADO, FOI MINISTRA DA AGRICULTURA (GOVERNO DILMA ROUSSEFF) E PRESIDENTE DA CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL

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