Milícia da intimidação anônima

Não há virtude na censura e na cultura do cancelamento do Sleeping Giants Brasill

Carlos Alberto Di Franco, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2020 | 03h00

A milícia anônima Sleeping Giants Brasil começou uma campanha de boicote à Gazeta do Povo, de Curitiba, justificada pelo fato de o jornal ter decidido manter em seu quadro de colaboradores o colunista Rodrigo Constantino. No dia 6 de novembro, Constantino fez um comentário controverso e infeliz sobre um caso de estupro. Embora se tenha desculpado por suas colocações e reiterado sua posição contrária a qualquer forma de violência sexual, o jornalista acabou sendo desligado, nos dias que seguiram, de suas atribuições na Jovem Pan e em outros veículos em que trabalhava.

A Gazeta do Povo, por sua vez, entendeu que Constantino foi “envolvido em uma falsa acusação de apologia do estupro” e considerou satisfatórios as explicações e o pedido de desculpas do jornalista. Ato contínuo, o Sleeping Giants demandou que os anunciantes boicotassem a Gazeta e, assim, ameaçassem a viabilidade financeira de um jornal com cem anos de existência e tradição de seriedade. O que pretendem é que o diário feche as portas.

O Sleeping Giants Brasil, que exibiu viés ideológico desde sua origem, no começo deste ano, iniciou sua atividade no País se vendendo como um movimento de caráter neutro, cujo único objetivo seria evitar a propagação de fake news por meio do boicote. Mas, nos últimos meses, a escolha enviesada de seus alvos escancarou um posicionamento político claro. Figuras públicas de esquerda são poupadas. Vozes liberais e conservadoras são perseguidas. O modo de atuação e os objetivos finais do Sleeping Giants ficam, por esses primeiros casos, explicitados: constranger e intimidar anunciantes que deem sustentação financeira a organizações de mídia que não estejam em sintonia com sua agenda ideológica.

Protegido pelo anonimato, explicitamente vedado pela Constituição, e pela falsa aura de proteção dos direitos humanos, o grupo brasileiro dissimula seu viés político e convence muitas empresas a aderir ao boicote, especialmente pelo impacto que o número de interações provoca nos tomadores de opinião das companhias.

Embora nos Estados Unidos os fundadores do Sleeping Giants se tenham tornado conhecidos – Nandini Jammi e Matt Rivitz –, os apoiadores e gestores de suas contas no Twitter e no Facebook no Brasil nunca foram identificados. Suas campanhas mais bem-sucedidas no País foram direcionadas para o boicote aos portais Conexão Política e Brasil Sem Medo, além de conseguirem fazer que os vídeos de Olavo de Carvalho fossem desmonetizados e seus cursos online não mais pudessem ser pagos via plataforma PayPal.

A organização apresenta-se aqui como defensora de “uma luta coletiva de cidadãos contra o financiamento do discurso de ódio e das fake news”, o que nos leva à discussão de quem é capaz de determinar o que é um “discurso de ódio”. Inevitável lembrar a conhecida pergunta elaborada pelo poeta romano Juvenal, há quase 2 mil anos: “Quis custodiet ipsos custodes?” – que poderíamos traduzir como “quem fiscalizará os fiscalizadores?” ou “quem há de vigiar os próprios vigilantes?”.

Todos devem ter o direito de expressar o que bem entenderem, sabendo que há consequências previstas na legislação para os casos em que haja calúnia, injúria ou difamação. Não é necessário nem desejado que um verdadeiro tribunal de exceção, por meio da intimidação dos anunciantes, como esse promovido pelo Sleeping Giants, seja estabelecido. As ações de cancelamento nada mais são que agressões escancaradas à liberdade de expressão. E o anonimato, covarde e imoral, só desqualifica seus autores.

Para Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), a liberdade de expressão não se constrói com base em intimidações. “A verdadeira liberdade de expressão não é apenas a liberdade de eu me manifestar livremente, mas sobretudo de admitir que outros, por mais reprováveis que possam ser as manifestações e contanto que não firam as leis, tenham o direito de se expressar sem medo de represálias. A liberdade de expressão não se constrói com intimidações ou restrições a manifestações, mas com mais liberdade e ainda mais pluralidade”, sublinhou Rech.

Um jornalista ou qualquer um que difame, calunie, distorça, minta, emita uma posição controversa ou não politicamente correta, agrida valores fundamentais da sociedade ou dos veículos para os quais trabalha, ou que se mostre simplesmente pouco qualificado em suas investigações, análises e conclusões, pode ser processado por quem se sentir indevidamente atacado ou desligado de suas funções por seu empregador.

Por outro lado, qualquer tentativa de pressão, coação, ameaça, chantagem, “cancelamento” ou linchamento virtual deve ser interpretada como uma intimidação descabida, ilegal e imoral de calar vozes dissonantes e que contrariam os interesses e visões dos eventuais e pretensamente isentos – e, para completar, anônimos – “checadores de fatos”. Uma democracia não se pode curvar às ameaças de milícias anônimas. Não há virtude na censura e na cultura do cancelamento.


JORNALISTA. E-MAIL: DIFRANCO@ISE.ORG.BR

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.