Minhoca e fofoca são só uma rima

Governar leva a respeitar para ser igualmente respeitado e respeitável

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2020 | 03h00

Quem vive no cimento armado das grandes cidades, como São Paulo, talvez pouco conheça das minhocas e não saiba que são sinal de terra fértil. Penso até que terá sido por encontrar minhocas que Pero Vaz de Caminha descreveu o território a que chegou com Pedro Álvares Cabral, em 1500, como o lugar que “em se plantando tudo dá”.

A visão do escrivão da esquadra lusitana ampliou-se ao longo dos séculos e perpassou a agricultura. Hoje, significa também todos os atos que “plantamos” no dia a dia. Ou tudo o que venha de quem nos governa.

Sim, pois os atos dos governantes se refletem em tudo, não só nos humanos habitantes do País mas, em especial, na natureza que deslumbrou Cabral. E é aí que minhoca e fofoca deixam de ser apenas uma sonora rima e mostram a desastrosa terra seca que habita o Palácio do Planalto e adjacências. Sem a fertilidade das minhocas, ali a fofoca é tanta que se tornou pública e integra o vocabulário oficial.

Em meio ao fogo no Pantanal e às criminosas “queimadas” na Amazônia, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles chamou de “Maria Fofoca” o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Luís Eduardo Ramos, que é general e, assim, ostenta (em parte) grau militar acima do presidente da República, que não vai além de capitão reformado.

E aí começa o xis da questão. Jair Bolsonaro inaugurou na Presidência da República novas formas de comunicação, a começar pela linguagem rude e tosca, que roça o baixo calão e vulgariza tudo. De fato, é um jeito de não ir ao fundo dos problemas e jamais propor soluções.

Desde chamar de “gripezinha” a pandemia do coronavírus até a torrente de vulgaridades que despeja pela boca nos encontros com fanatizados simpatizantes no portão do Palácio da Alvorada, o presidente inaugurou uma comunicação que predispõe à fofoca. Sim, pois quando tudo se diz e se faz na vice-versa do contrário, apelando ao subterfúgio para nos desviar da origem profunda do problema, a realidade passa a ser uma miragem no deserto, uma fantasia derivada do delírio de ter sede e não encontrar água. O fictício passa a primeiro plano e os áulicos assessores presidenciais são envolvidos por uma fumaça em que prolifera a invencionice.

Chamar publicamente um colega de ministério de “Maria Fofoca” não configura simples rixa interna no governo, como interpretou Bolsonaro ao dizer que “roupa suja se lava em casa”. Ao contrário, é algo público que revela o descompasso profundo que caracteriza o governo federal.

Governar não pode ser como navegar sem bússola pelo oceano. Até sem tempestade se perde o rumo, sem saber aonde chegar, tal qual agora. O que o presidente decide pela manhã pode ser revogado à tarde por ele próprio. Com Dilma, era comum que a presidente não concluísse as frases, deixando-nos sem saber se negava ou afirmava. Com Bolsonaro, os atos é que são desconexos.

Já advertia Camões que “um fraco rei faz fraca a forte gente” e, agora, a fraqueza surge como cipoal que nos enreda e aprisiona, como se tapasse o sol e nos deixasse na escuridão total, sem que nos saibamos guiar pelas estrelas ou qual rumo tomar.

O líder do governo na Câmara dos Deputados, Ricardo Barros, propõe “nova Constituição”, como se a atual, de 1988, fosse velha e decadente e todos os males surgissem dela. A Constituição não causou a corrupção nem transformou a política e os atos de governo em desprezível balcão de negócios. Nem é a Constituição que gera a suicida forma atual de governar, que destrói direitos e obrigações e torna difusa a administração em si.

Talvez a explicação dessa barafunda tenha vindo, agora, de um ex-assessor muito próximo a Bolsonaro, o general Otávio Rêgo Barros, ao lembrar que “o poder inebria, corrompe e destrói”. Num artigo em jornal da capital da República, o ex-porta-voz presidencial (visto como um dos intelectuais do Exército) adverte que a autoridade incorpora a crença de ter sido alçada ao Olimpo “por decisão divina, passando a acolher apenas as palmas”.

Trata-se da mais profunda crítica ao estilo de Bolsonaro, levando a pensar, até, que quem conheça a fundo o presidente não fica a seu lado. Aí estão Gustavo Bebianno, o general Santos Cruz, os ex-ministros da Saúde Luiz Mandetta e Nelson Teich, que saíram em silêncio, mais Sergio Moro e, agora, Rêgo Barros, que saíram atirando.

Governar leva a respeitar para ser igualmente respeitado e respeitável. O modelo que Bolsonaro tenta implantar, porém, se aninha no disparate e no escândalo. Quando candidato, fez-se famoso pelo dedo que imitava um revólver. Investido na Presidência, ele se expressa em linguajar beirando o obsceno, como dias atrás ao beber “ai Jésus” (com acento no e) popular refrigerante do Maranhão de cor rosa e indagando se por isso seria “boiola”.

Buscará, por acaso, popularizar-se pela rudeza da linguagem? Ou ignora que minhoca e fofoca nada têm em comum e apenas rimam?


JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

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