Mitos e surpresas no ensino médio

Não é preciso ser um Estado rico para ter boa educação. Levando a sério, dá

Claudio de Moura Castro, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2021 | 03h00

Aladim encontra uma lâmpada e põe-se a limpá-la. Opa! Diante dele desenha-se a imagem de um mago. Para um pesquisador há uma mágica parecida. Contempla uma tabela e, pouco a pouco, delineia-se à sua frente uma história fascinante.

A tabela da avaliação do ensino médio por Estados brasileiros (Ideb) é prenhe de enredos. Surpreende e quebra mitos.

“Pois é, nossa educação tem problemas porque nos faltam recursos.” Será? Os números antipáticos negam a desculpa. O colossal São Paulo está praticamente empatado com o Ceará, um Estado árido e de parca indústria (em 5.º e 6.º lugar). O Distrito Federal, grande gastador na educação, já foi o primeiro e agora caiu para 10.º lugar. Está próximo do Tocantins, que faz pouco nem existia. O paupérrimo Piauí, mercê de um grande esforço, está à frente de 12 Estados, incluindo o Rio de Janeiro. Em suma, não há correlação entre gastos com educação (per capita) e nível de aprendizado. Não é preciso ser rico para ter boa educação.

A tabela também revela decepções. Minas, com toda a sua tradição e que já esteve no topo, caiu para um modesto 9.º lugar. A Bahia, ex-capital do Brasil, está no fim da linha, juntamente com o Pará, que nadava em dinheiro na época da borracha.

Em busca do legendário coronel Fawcett, Peter Fleming (irmão de Ian Fleming) explorou o que descreve como a maior região desconhecida do mundo. Isso foi em 1930, quando viajou pelo Centro-Oeste. Hoje, essa região amplamente ultrapassou o Norte e Nordeste, regiões de colonização antiga.

Quem conhece Rondônia? Pois vejam, está à frente do Rio de Janeiro, ex-capital e cartão de visitas do Brasil (19.º e 20.º lugar).

Depois de ver o desapontamento dos Estados mais tradicionais, afinal, quem estará em primeiro lugar? Goiás e Espírito Santo, dois Estados que jamais chamaram muito a atenção. Dizia-se em Minas que goiano é um mineiro que foi para o oeste e não teve energia para voltar. Vejam só, passou Minas e não foi por pouco.

Qual é o código que desvendará o sentido desses números tão destrambelhados? O mistério não desaparece completamente, mas vemos algumas luzes.

Em primeiro lugar, duro é melhorar a educação na Finlândia, a primeira no Pisa. O que a imaginação sugeria fazer já foi feito. Mas nestes nossos sistemas capengas e mal ajambrados um empurrãozinho já mostra resultados.

Continuidade nas gestões faz muita diferença. Muda o governador, o novo joga no lixo o esforço do anterior. Essa é a triste maldição, pois vão cair os indicadores. Os grandes saltos foram dados por gestões que duram mais de um mandato. Na década de 1990, quando Minas chegou ao topo, foram dois mandatos encadeados.

Vivas para o Espírito Santo e Goiás, onde subiu a oposição e teve a ousadia de manter os bons programas em curso. Será, por acaso, que estão em primeiro lugar?

Observadores atentos estão convencidos de que o empenho do governador é fundamental. Se embirra e quer melhorar a educação, começa escolhendo um secretário competente. O resto acontece.

O resto, em grande medida, é gestão, pois é por meio dela que as boas ideias são implantadas e as ruins, cerceadas. Jovem de Futuro é um programa do Instituto Unibanco dedicado a melhorar o ensino médio no País. Justamente, sua ênfase é apoiar a gestão, seja nas secretarias estaduais, delegacias ou nas próprias escolas (informação: sou do conselho do instituto).

Ao longo dos anos, Estados entraram e saíram do programa. Saíram aqueles cujos governos não levavam a sério nem a educação, nem as pautas do programa. Após um tempinho ficava claro que era um casamento inviável. Dos Estados que permaneceram, três – Ceará, Goiás, e Espírito Santo – estão entre os seis que exibem a melhor educação.

Piauí, Rio Grande do Norte e Minas aderiram mais recentemente. Portanto, não houve tempo para se poderem observar avanços significativos. Mas prenuncia avanços futuros a disposição de entrar e se submeter à trabalheira de implantar uma gestão mais eficaz.

Quanta história para uma reles tabela!

Concluo com duas notícias, uma boa e uma ruim. A boa é que entre o Ideb de 2017 e o de 2019 houve um salto espetacular no aprendizado, abrangendo o Brasil como um todo. Como nenhuma investigação conseguiu identificar algum tropeço nos testes utilizados, não há como negar o avanço.

A notícia ruim são as predições para o desempenho de 2020. O ensino a distância (EaD) sempre foi desaconselhado para o ensino básico. Mas era a única alternativa, diante de uma covid-19 malvada. Pior, foi implementado às carreiras, sem planejamento, sem recursos e sem boas orientações.

Que fique claro, não cabe mais duvidar do ensino a distância. Nas condições apropriadas, é altamente eficaz e tende a ser mais barato. Mas tudo militava contra um uso correto.

Sendo assim, estimativas muito preliminares sugerem que, praticamente, 2020 foi perdido para a educação. Dá para compensar? Voltemos às lições tiradas da tabela: levando a sério, dá.


M.A., PH.D., É PESQUISADOR EM EDUCAÇÃO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.