Momento exige forte abordagem multissetorial

Pandemia da covid-19 mostra que devemos reduzir nossos pontos cegos relativos ao risco

Børge Brende, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2020 | 03h00

À medida que a América Latina (AL) começa a lidar com o aumento dos casos de covid-19, há um fato marcante que vale a pena considerar. Embora não tenhamos sido capazes de prever detalhes exatos desta pandemia, sabemos há anos que os riscos de uma pandemia global vêm aumentando, com potencial para grandes repercussões em toda a economia global. 

Então, por que parece que esta crise surgiu do nada?

A resposta é que os indivíduos geralmente identificam riscos facilmente perceptíveis – seja por exposição pessoal, pela cobertura da mídia, ou ambos – como os mais ameaçadores. Já os riscos que não estão diretamente à nossa frente tendem a passar despercebidos. E por muitos anos o risco de uma pandemia não foi o principal na lembrança dos indivíduos.

Dados da Pesquisa de Percepção Global de Riscos, do Fórum Econômico Mundial, com cerca de participantes, demonstraram isso. Na última década as doenças infecciosas classificaram-se entre os cinco principais riscos percebidos apenas uma vez, em 2015, logo após a epidemia de ebola, quando ficou em segundo lugar, considerando seu impacto. Embora a pesquisa solicite aos participantes que levem em consideração os últimos dez anos, no ano seguinte as doenças infecciosas não aparecem mais entre os principais riscos. Em vez disso, o que nossa pesquisa mostrou foi que, a partir de 2016, questões relacionadas ao clima começaram a dominar a percepção de riscos de nossos entrevistados. Não por acaso esse ano foi o mais quente já registrado.

O mesmo fenômeno pode ser visto em pesquisa separada realizada pelo Fórum em 2019 com líderes empresariais. Nela os entrevistados na AL classificaram a propagação de doenças infecciosas como risco menor que o de fazer negócios na região. O único país do mundo a considerar as doenças infecciosas em primeiro lugar foi a Guiné, que passara pela crise do ebola alguns anos antes. Mas os líderes empresariais na AL estavam mais preocupados com os desafios de governança, sociais e econômicos – o que não surpreende, dados os eventos recentes, incluída a onda de protestos que ocorriam então.

De fato, é da natureza humana sentir-se mais ameaçado pelo que parece mais próximo. Mas um perigo em potencial é que, quando um risco é excluído de nossas linhas de visão coletivas, ele pode não ser corrigido e podemos estar mal preparados para lidar com isso quando se manifestar.

O que podemos fazer para nos prepararmos melhor para os riscos no futuro?

Para começar, devemos estar cientes de nossos pontos cegos. Ainda que, com razão, tenha havido um aumento da preocupação com a mudança climática em muitos países nos últimos anos, não devemos deixar de considerar que outros riscos ainda persistem. Da mesma forma, à medida que a atenção do mundo agora se volta para o surto de covid-19, a comunidade global não pode deixar de lutar por ações mais ambiciosas quanto às mudanças climáticas, ou por soluções para os desafios de segurança cibernética e segurança internacional.

Com a pandemia do coronavírus, já vimos importantes cúpulas climáticas canceladas, como a Cúpula Mundial dos Oceanos, no Japão, e dificuldade em reagendar a Convenção sobre Diversidade Biológica. Embora precisemos dar conta de novos perigos e enfrentar a pandemia, é importante que não paremos o importante trabalho de organizar a comunidade global para aumentar a ambição relativa à ação climática.

Simultaneamente, devemos adotar medidas que tornem menos provável a ocorrência de pontos cegos coletivos. Nesse aspecto, é fundamental uma forte estrutura global multissetorial – uma em que governos, empresas e organizações internacionais cooperem, visto que diversos atores têm perspectivas diversas e tendem a ter pontos de contato diversos nas sociedades. Garantir que uma variedade de atores nas regiões e indústrias estejam em contínua comunicação oferece maior possibilidade de que os riscos que se distanciaram das linhas de visão diretas de uma parte ainda sejam contabilizados coletivamente.

Mas, sejamos claros, é impossível prever e ter uma vigilância constante relativamente a todos os riscos potenciais ao nosso redor.

Portanto, devemo-nos posicionar para estar prontos para lidar com os riscos que se materializam. Mais uma vez, relativamente a esse aspecto, é fundamental uma estrutura multissetorial. Basta olhar para 2009 para perceber a importância que teve uma estrutura multilateral pronta para encaminhar a economia global no sentido da recuperação. O G-20, por exemplo, por estar em posição de reunir rapidamente os governos, conseguiu lançar o Quadro para um Crescimento Forte, Sustentável e Equilibrado, que ajudou a evitar uma recessão mundial.

No momento em que o coronavírus está dominando a nossa atenção, é fundamental uma forte abordagem multissetorial – por meio de organizações internacionais e iniciativas globais – com vista à criação da resiliência e à preparação para futuras consequências econômicas, políticas e sociais. Mas, talvez tão importante quanto isso, também é fundamental para garantir que estejamos em posição resiliente relativamente aos riscos que não estão diretamente à nossa frente neste momento.

PRESIDENTE DO FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL

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