Moral da história

O poder está se autopreservando sem dar chance à sociedade de interromper o ciclo do inamistoso, frio, enrolador, o opaco como norma

Paulo Delgado, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 03h00

O Brasil se acostumou com a ideia de que opinião pessoal de político, juiz, procurador, policial e gente influente faz parte dos tribunais e das instituições. Das leis não há muito a saudar, dos costumes, cada um escolha os sentimentos para se arrepender. A lei de um dia, com objetivo específico, é enxurrada para criação do cidadão dócil ou revoltado, distante do indivíduo sereno, com força para exigir que o social prevaleça sobre o individual.

De repente alguém parece acordar acordando o outro. É que, se algo é feito no lugar errado, resta um poder cuidar da responsabilidade do outro poder. A Constituição é um peixe fora d’água servindo de intermediário ao arbítrio das instituições, citada como lição de autoajuda para autoridade em torre de marfim. Crua realidade de um sistema político e jurídico que finge fazer a coisa certa para enfrentar como justa a vida falsa das instituições, imersas num estatismo sufocante, sem consciência do subterrâneo em que afunda a sociedade.

O efeito do chicote precisa arrefecer. O poder está se autopreservando sem dar chance à sociedade de interromper o ciclo do inamistoso, frio, enrolador, o opaco como norma. O impulso do pensamento se manifesta deformado, corretivo, tendente ao pior aspecto da dominação. O egoísmo se alastra, os jovens estão perdidos, a pobreza aumenta, a riqueza se isola, o preconceito assume forma sofisticada. A sociedade para a massa – não de massa – manipula a tragédia do dia testando a emoção impotente da massa. O matagal quer se fazer de bosque.

O Parlamento anda insone e sem perspectivas de ajudar o País a esperar pela manhã. A emenda suja ofende o pobre quando usa o sim do oposicionismo governista para azedar o não insuficiente da oposição. As diferenças são psicológicas e servem para manter a evidência de que o corredor do meio do plenário não separa mais as distinções. Um lado transita para o outro usando a pobreza, a economia, a grosseria, a paixão, a quente ou a frio, como massa de manobra. Quer autonomia para ser subordinado do Executivo, com sua cota de poder intacta para entupir prefeito de trator, asfalto, esgoto, executando o Orçamento com iniquidade.

Quando o político não reflete mais a sua origem, se ajeita como valor de troca na dominação geral a que se adaptou.

Toda experiência que as instituições acumularam está sendo desmentida, partidos em seus interesses locais. Paralisia, alheamento, nem o prazer do humor se pratica, com receio de atrapalhar o cortejo do funeral dos sonhos que avança.

Ninguém dispõe de liberdade quando faz tudo em proveito próprio e o direito à satisfação é mais forte do que a inibição da vontade. Quanto mais é alcançado, mais insatisfatório tudo fica. Movendo num tempo livre a insônia tira tudo do sujeito e tudo lhe parece demasiado pouco.

Sendo massa ou distinção, o prazer é nada temer, indiferente ao eleitor e seu poder de interpretação.

Se os Três Poderes abolissem imediatamente suas redes de televisão e só fosse possível reconhecer a autoridade pela voz ao telefone, o truque pelo qual estamos sendo governados certamente não devolveria aos ouvidos a admiração, mas pouparia o olhar de tanta gente feia. Pelo timbre, ao menos poderíamos supor a beleza de algumas vozes. O desejo de parecer pomposo e influente e a expressão infantil e agressiva de seres orgulhosos de sua deficiência cultural revelam noite mal dormida, cheia de pesadelos próprios. Não se parece em nada com a expressão que acompanha o fim do sono e a novidade do amanhecer.

A beleza da manhã começa fraca e hesitante como a esperança parece sombria e ignorada. Mas é mesmo neste tom de luz pouco vistoso que repousa o brilho da alvorada. Seria bom conhecer o que levou Theodor Adorno a escrever Mínima Moral e entender por que a Inglaterra se salvou e a França, soberba e indulgente, foi facilmente dominada pela conversa fiada que a desonrou. A mentira, aqui, tem pernas longas, mas a capacidade subjetiva da felicidade ainda não morreu definitivamente entre nós.

Quando a oposição começa também a se servir da mentira para não ser eliminada é que o oculto da dominação está escancarado. Ou você não acredita de forma alguma no que não quer ou você entrega os pontos e parte para explicações grandiloquentes. É o jeito que a política tem se comportado, inventando jogos para sobreviver, o que explica o estrondoso sucesso do fracasso do governo. Acreditar na mentira que fala não é dizer a verdade.

Emaranhado, o blefe brasileiro está no emaranhado, na chocante transparência de tudo, na simplicidade como se oculta a verdade.

O alvo do indivíduo insaciável na sociedade atual é o desempenho inútil para o coletivo. Por isso a fúria na maneira de agir sem entrave ou estorvo. Todos os obstáculos caíram para os desagradáveis e os desinibidos. A ordem é desembocar em algum lugar. O engodo do inconformado como a forma espetacular de expressar seu conformismo.

O grito de Ciro e o rigor de Rosa contra a prerrogativa secreta de um poder são verso de Baudelaire: avalanche, você não vai me levar na sua queda! 

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SOCIÓLOGO.

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