Muito além da sacolinha de Natal

Não a abandone jamais, mas tenha em mente que o verdadeiro processo de intervenção social exige um trabalho contínuo

Filipe Sabará, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2021 | 03h00

Se tem algo que ficou bem claro nesta crise sanitária que vivemos, é que a solidariedade também pode ser contagiosa. O ranking do World Giving Index, com o último Índice Global de Solidariedade, revelou que a pandemia produziu uma onda global de ações filantrópicas. Os dados de 2020 mostram que o Brasil subiu 14 posições (ficando em 54.º lugar numa lista de 114 nações), numa avaliação baseada em critérios como ajuda a estranhos, doação de dinheiro e tempo dedicado ao voluntariado.

Decerto, não foi um ano fácil para ninguém. Diante do aumento do desemprego, que atingirá 14,6% da população ao final de 2021, o Brasil tem buscado forças na filantropia em uma nova realidade de consciência coletiva de empresas e indivíduos. E tal sentimento é bastante mensurável com a chegada dos festejos de final de ano, quando circulam as campanhas de apadrinhamento de sacolinhas de Natal e de adesão às iniciativas de campanhas solidárias.

Mas, em meio a esta onda de comoção geral, vale a pena pontuarmos um debate que costuma acalorar as diferentes correntes humanitárias: como diminuir a questão da vulnerabilidade social, com assistencialismo ou filantropia? Acredito na cultura filantrópica efetiva como uma mobilização contínua que envolva esses dois conceitos – um focado em ações pontuais para resolver problemas emergenciais e o outro voltado para a disseminação de valores e ideias. O importante é que as duas ações, tanto as circunstanciais quanto as estruturais, são necessárias e complementares.

A Assistência Social no Brasil, até a década de 1940, estava baseada na caridade e solidariedade religiosa, atendendo famílias em situações de vulnerabilidade advindas da Segunda Guerra Mundial, inicialmente com foco no atendimento materno-infantil. Assim, a assistência foi crescendo e sua linha programática acompanhou as demandas do desenvolvimento econômico e social. O problema é que o assistencialismo no País virou uma prática de dominação política. Pelo valor da, entre aspas, gratidão, os assistidos se vinculam ao titular das ações de caráter assistencialista. Virou uma prática que estimula a subserviência e a troca de favores.

Essa cadeia tem de ser rompida. A proposta fundamental é darmos subsídios para que as pessoas em vulnerabilidade social possam se organizar de forma independente e sejam capazes de crer mais em si próprias do que em lideranças ou autoridades que se apresentem como superiores. Se, de um lado, existem entidades sem fins lucrativos engajadas em fazer o repasse de doações e a distribuição de seus serviços para quem precisa, de outro há empresas que buscam amparar a sociedade com algum tipo de recurso. A iniciativa privada está cada vez mais preocupada em auxiliar com parceria do terceiro setor. Quando falamos em empresas, no mundo, mais de 90% das instituições filantrópicas são fundações independentes ou familiares. Já no Brasil, esse índice cai para 64%. Portanto, há muito espaço ainda para crescer.

Em 2006, a revista The Economist publicou um artigo intitulado The birth of philanthrocapitalism. The leading new philanthropists see themselves as social investors (O nascimento do Filantrocapitalismo. Os novos filantropos líderes se veem como investidores sociais). Esse texto já anunciava a tendência da filantropia como investimento social, desenvolvida na intersecção dos setores privado e terceiro setor, e é algo em que acredito como transformação social.

O escopo do que chamamos filantropia é cada vez mais amplo e as corporações que se mobilizam a respeito do tema estão cada vez mais bem estruturadas, ao menos no contexto internacional. Um exemplo é o Global Philantrophy Forum (GPF), organização guarda-chuva que é espaço de debates e trocas de conhecimento sobre o filantrocapitalismo. Uma iniciativa do World Affairs Council, instituição criada em 1948 em São Francisco para pensar questões mundiais como migração, conflitos e pobreza. Ela é baseada na ideia de que as soluções para os problemas mais candentes do mundo são encontradas quando os setores privado, filantrópico e público trabalham em conjunto. O GPF foi criado em 2001 para ser uma rede de grandes filantropos e investidores sociais e atua em cerca de cem países com afiliados na América Latina, África e Ásia. Seu objetivo é construir uma comunidade de filantropos e fortalecer a natureza estratégica da doação e do investimento social de seus membros.

Se, etimologicamente, filantropia significa amor à humanidade, sua prática nunca foi uma tarefa simples. Por isso, seu universo é controverso e há diferentes narrativas sobre sua prática. No atual momento, rotular também não é caminho. Não abandone jamais a sacolinha de Natal, mas tenha em mente que o verdadeiro processo de intervenção social exige um trabalho contínuo. Há algumas semanas ouvi o relato de um dos trabalhadores do Projeto Horta Social Urbana, uma ação de empregabilidade para pessoas em vulnerabilidade social que está inserida na instituição que eu presido. Num testemunho entusiasmado, o rapaz que há pouco tempo morava nas ruas destacou: “Eu voltei a sonhar!” E isso só foi possível porque ele conseguiu trilhar o caminho da capacitação e conquistar tudo o que veio depois: renda, moradia e, acima de tudo, dignidade.

São presentes que a rede de voluntariado pôde lhe proporcionar que definitivamente não cabem numa sacolinha. 

EMPRESÁRIO, FUNDADOR DA ASSOCIAÇÃO 

DE RESGATE À CIDADANIA POR AMOR À HUMANIDADE (ARCAH), FOI PRESIDENTE DO FUNDO SOCIAL DO ESTADO DE SÃO PAULO E SECRETÁRIO DE DESENVOLVIMENTO DE SÃO PAULO DE 2017 A 20219

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