Mulher maravilha

Leiliane Rafael da Silva arriscou a sua vida para salvar outra vida. Verdadeira heroína!

Carlos Alberto Di Franco, jornalista

25 de fevereiro de 2019 | 03h00

Frequentemente, a informação veiculada na mídia produz um frio na alma. A sociedade desenhada no noticiário parece refém do vírus da morbidez e da síndrome do egoísmo. Crimes, aberrações e desvios de conduta desfilam no noticiário das metrópoles. A sociedade, encurralada pelo atrevimento da maldade, já encara a violência como parte da paisagem urbana.

A mídia tem sido acusada de estar dominada pela patologia da má notícia. Catástrofes e tragédias excitam pautas e ganham o status de manchete de primeira página. Queixam-se os leitores de que, com frequência, iniciativas bem-sucedidas têm recebido pouco destaque, ou, quando muito, migram para o lusco-fusco das páginas interiores. Essa tendência, no entanto, vem de ser derrubada pela coragem solidária de uma mulher.

Quem viu a força da vendedora Leiliane Rafael da Silva, de 28 anos, que venceu o metal da fuselagem do caminhão que se chocou com o helicóptero em estava o jornalista Ricardo Boechat, não poderia imaginar que ela também luta pela própria vida. Leiliane recebeu o diagnóstico de malformação arteriovenosa (MAV) em novembro do ano passado, pouco mais de um mês após dar à luz Lívia, hoje com 4 meses. “O primeiro hospital chegou a chamar minha família e falar que eu tinha um tumor cerebral maligno e que eu não tinha chance de vida”, disse à reportagem do G1.

Pois bem, amigo leitor, enquanto alguns marmanjos dominados pela compulsão digital fotografavam a tragédia, Leiliane foi lá. Resolveu. Salvou a vida do caminhoneiro. A cena, emocionante, foi imortalizada pelo ilustrador Angelo France. O artista não conseguia apagar a cena da vendedora socorrendo o motorista de caminhão. A força da mulher foi o que o inspirou para desenhar. Além da ilustração, ele fez o seguinte post no Instagram: “Minha visão da imagem marcante no momento do acidente que vitimou o jornalista Ricardo Boechat e o piloto do helicóptero Ronaldo Quattrucci. Heróis reais existem! Leiliane, que assistiu de perto à queda do helicóptero, desce da moto e corre para salvar a vida do motorista do caminhão atingido no acidente. Uma mulher forte, de coragem, que arriscava sua vida enquanto os homens à sua volta apenas se importavam em filmar, ao invés de ajudar. Parabéns, Leiliane! Verdadeira heroína!”.

Leiliane viu o desenho e agradeceu a homenagem. “Ficou lindo, perfeito. Mas eu não sou heroína, não sou Mulher Maravilha, acho que isso foi um pouco exagerado”, disse ela.

A notícia positiva, tão verdadeira quanto a informação negativa, é uma surpresa, quase um fato inusitado. Acabamos de redescobrir que a sociedade aparentemente anestesiada pela violência não perdeu a capacidade de se comover com um instantâneo de generosidade. O episódio, não obstante a cativante simplicidade da jovem vendedora, merece, portanto, um registro neste espaço opinativo. É importante que a opinião pública, habituada à síndrome de catástrofe e ao negativismo enfermiço que têm dominado inúmeras pautas, perceba que a solidariedade ainda pode ocupar o espaço de uma matéria.

Infelizmente, de algum tempo para cá alguns veículos de comunicação, sobretudo os da mídia eletrônica, manifestam preocupante dependência de um fluxo de escândalos e sensacionalismo para se manterem no negócio. Arma-se um espetáculo com o que a natureza humana é capaz de produzir de mais sórdido e perverso. A miséria material e moral é transformada em instrumento de marketing. O que importa na fria contabilidade do jornalismo aético é um bom desempenho nos índices de audiência. 

Alguns setores da mídia, em nome de suposta independência e de autoproclamada imparcialidade, castigam, diariamente, o fígado dos seus consumidores. Dominados pelo vírus do negativismo, perdem conexão com a vida real. O jornalismo não existe para elogiar, argumentam os defensores de uma imprensa que se transforma em exercício sistemático de contrapoder. A imprensa tem uma missão de denúncia, de contraponto. Concordo.

A deformação, portanto, não está aí, mas na miopia, na obsessão seletiva pelo underground da vida. O que critico não é o jornalismo de denúncia, mas a opção pelo sensacionalismo em detrimento da análise séria e profunda. Estou convencido de que boa parte da crise da imprensa pode ser explicada por sua orgulhosa incapacidade de mostrar as sombras e também as luzes que compõem o quadro da vida.

“Quando uma situação se corrompe, a primeira corrupção se dá na linguagem.” A afirmação, do escritor Octavio Paz, pode ser comprovada diariamente. A mídia, argumentam os aguerridos defensores do jornalismo mundo-cão, retrata a vida como ela é. Teria, contudo, o cotidiano do brasileiro médio tamanhas e tão frequentes manifestações de aberrações patológicas? Penso que não. Há uma evidente compulsão a pinçar os aspectos negativos da vida.

Por mais que a sociedade tenha mudado, tenho a certeza de que o pretenso realismo que se alardeia como justificativa para o excesso de violência e mau gosto que diariamente desaba sobre leitores e telespectadores não retrata a realidade vivida pela maioria esmagadora da população. Na verdade, ainda há muita gente que cultua os valores éticos, os quais dão sentido e dignidade ao ato de viver. Ainda há pessoas que, diante do vizinho doente, correm a socorrê-lo. E sofrem por uma criança abandonada. E estendem a mão a um amigo necessitado. E choram pelas vítimas de uma injustiça, como qualquer ser humano.

Por isso, caro leitor, a atitude da jovem Leiliane ocupou a nossa coluna. Para nós, profissionais de um jornalismo tão habituado à rotina do noticiário negativo, o episódio tem algo de inusitado. Leiliane deixa um belo legado de coragem e solidariedade para seus filhos. E a nós, jornalistas, mostrou que a grandeza humana bem vale uma matéria.

* CARLOS ABERTO DI FRANCO É JORNALISTA. E-MAIL: DIFRANCO@ISE.ORG.BR

 

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