Na chanchada populista só faltou cloroquina contra a inflação

Câmbio também afeta os preços e o maior fator de instabilidade mora no Alvorada

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 03h00

Arroz caro e populismo barato marcaram mais uma semana da grande chanchada política nacional. O presidente pediu patriotismo para conter os preços e perguntou como deter a alta do dólar. O Ministério da Justiça virou fiscal da inflação e prometeu “coibir aumentos arbitrários”, em conflito com os critérios do “posto Ipiranga”. O ministro da Educação lamentou a condição espiritual de jovens descrentes, convertidos, segundo ele, em “zumbis existenciais”. Contaminado pelo coronavírus pouco depois de chegar a Brasília, esse cavalheiro virou garoto-propaganda da cloroquina, curou-se e reapareceu como pregador. Quais seus planos para o setor educacional? Na sexta-feira o Procon de São Paulo também anunciou a disposição de examinar os preços da cesta básica.

Não ficou claro se o pessoal do Procon agirá como fiscal do Bolsonaro, do Doria ou de ambos. No tempo dos fiscais do Sarney a Polícia Federal chegou a caçar animais no pasto. Um dos efeitos do controle de preços, aplicado no final da cadeia, foi tornar o boi magro mais caro que o boi gordo. A maior especulação, comentou o então deputado Delfim Netto, seria levar o boi gordo para a sauna e fazê-lo emagrecer para aumentar seu preço.

Muito mais grotesca é a situação de hoje. Não há mais como levar a sério as velhas políticas de controle, depois de tanta experiência no Brasil, na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos. A última aventura americana ocorreu no governo do presidente Nixon – isso mesmo, um republicano.

Controle de preços já teve respeitabilidade teórica, até entre economistas considerados liberais e conservadores. Os mercados sempre foram “imperfeitos”. Então, valeria a pena, talvez, tentar compensar suas imperfeições, até para efeitos distributivos. Roberto Campos e Mário Henrique Simonsen quebraram a cabeça com essas questões. Mas isso foi há muito tempo.

As tentativas nunca deram certo, em tempos de paz e em países democráticos. Mesmo em regimes autoritários, como se verificou no Brasil, as experiências foram complicadas e produziram distorções. Qualquer pessoa passavelmente informada pode reconhecer esses dados. Não é preciso alinhar-se a uma ideologia.

Que o presidente Bolsonaro e a maioria de seus auxiliares desconheçam esses fatos – e tantos outros – parece normal. Mas ele poderia ter consultado seu “posto Ipiranga”, o ministro Paulo Guedes, para entender a situação dos preços e discutir soluções. Também seria preciso envolver a ministra da Agricultura. Afinal, estavam envolvidos preços de alimentos.

Mas Bolsonaro só reagiu como candidato, como tem feito quase sempre. Comida mais cara pode atrapalhar a campanha. O resultado foi patético. Ele pediu patriotismo aos donos de supermercados e depois cobrou margem de lucro próxima de zero. O Ministério da Justiça, chefiado por um candidato “terrivelmente evangélico” a uma vaga no Supremo Tribunal Federal, logo se pôs na linha de frente, no combate aos preços altos. Cinco dias foram dados a produtores e vendedores de alimentos da cesta básica para se explicar.

Mistério, no entanto, só existia para os desinformados. As exportações de alimentos cresceram muito, neste ano, puxadas principalmente pela enorme demanda chinesa e pela alta do dólar em relação ao real. Também os produtores de arroz entraram na festa do comércio exterior, até porque outros países tiveram safras menores.

A maior parte dos preços continua contida, sem risco visível de estouro inflacionário. O único desarranjo aparente, no quadro mais amplo, tem sido a forte depreciação do câmbio. Várias vezes o dólar esteve 40% mais caro do que no começo do ano. Ocorreu uma reversão no fluxo de capitais de curto prazo, aplicados em títulos. De janeiro a julho de 2019 houve ingresso líquido de US$ 14,1 bilhões. Neste ano, até julho, houve saída líquida de US$ 30,6 bilhões. A perda é bem maior que na maior parte das outras economias emergentes.

Algo assusta o investidor. Também essa história é sem mistério. Grandes fundos internacionais anunciaram a intenção de ficar fora do Brasil por causa da política ambiental do presidente Bolsonaro. Outros investidores têm fugido. Além disso, a incerteza quanto à gestão das contas públicas também afeta o câmbio.

Essa incerteza é claramente associada às prioridades do presidente. Seus objetivos eleitorais podem custar muito dinheiro. O Orçamento de 2021 ainda é assunto aberto, embora um projeto formal tenha sido entregue ao Congresso. Há também pressões de seus aliados do Centrão, sempre dispostos a cobrar muito por qualquer apoio, tanto mais caro quanto maior a necessidade do presidente.

O principal foco de instabilidade cambial mora no Palácio da Alvorada e despacha no Planalto. Qualquer pressão por ações eleitoreiras é facilmente associada a seu nome. Qualquer nova fogueira na mata remete direta ou indiretamente à política de tolerância à destruição de biomas. Dólar instável atrapalha os negócios e desarranja preços. Não adianta buscar um freio para o câmbio. O verdadeiro problema tem nome, sobrenome e endereço conhecido.

JORNALISTA

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