Na economia, outra má notícia: PIB cresceu apenas 1,1% em 2019

Faltam diagnóstico mais amplo, plano para crescer mais e acerto político

Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2020 | 03h00

O IBGE divulgou ontem seu relatório sobre as Contas Nacionais Trimestrais do último trimestre do ano passado, cobrindo o desempenho do produto interno bruto (PIB), seus desdobramentos e outras informações.

A taxa de variação do PIB em 2019 foi de novo medíocre, 1,1%, e até um pouco abaixo da também má taxa de 1,3% observada em 2018 e 2017. Essas taxinhas positivas estiveram longe de tirar o PIB da depressão em que se meteu em 2015 e 2016, quando caiu 3,5% e 3,3%, respectivamente. 

Ainda em curso, essa depressão foi a responsável maior por levar o PIB na década passada à sua pior taxa decenal, se comparada às das 11 décadas anteriores a partir de 1900, conforme venho enfatizando em artigos e entrevistas. E mais: com o resultado de 2019, o PIB brasileiro apenas voltou ao valor que já havia apresentado no último trimestre de 2012.

O noticiário e as análises do PIB costumam dar pouca atenção ao PIB por habitante, ou per capita. Mas como a população ainda cresce hoje cerca de 0,8% ao ano, a situação neste caso é ainda pior, pois esse outro PIB teve as seguintes taxas no período de 2015 a 2019: -4,4%, -4,1%, 0,5%, 0,5% e 0,3%, respectivamente.

O ano passado começou com previsões bem maiores do que 1,1% para a variação anual do PIB, e do primeiro ao terceiro trimestre as taxas trimestrais, com ajuste sazonal, se mostraram crescentes (zero, 0,5% e 0,6%, respectivamente), mas insuficientes para sustentar essas previsões. E esse novo relatório do IBGE confirmou a visão que se formou no início de 2020 de que houve um fraquejo da economia no final do ano passado, pois a taxa do PIB no último trimestre de 2019 caiu para 0,5%.

As primeiras informações sobre a economia em 2019 não mudaram esse quadro apático. E trouxeram novas preocupações. Do lado político, uma piora adicional do relacionamento entre o Executivo e o Congresso, com o temor de que isso possa dificultar ainda mais o andamento das reformas que o ministro Paulo Guedes quer ver aprovadas no Legislativo. E em cima disso veio da China o coronavírus, com seu impacto sobre a economia mundial e a brasileira, como o faz ao prejudicar cadeias produtivas internacionais pela redução de insumos importados daquele país, em face de interrupções da produção local. E, ainda, porque elas também prejudicam as importações chinesas de insumos, tudo isso causando danos ao comércio internacional e ao PIB de outros países. 

Dado esse quadro, as previsões para o crescimento do nosso PIB passaram a cair. Conforme o Relatório Focus, do Banco Central, que semanalmente divulga previsões macroeconômicas, que recebem grande atenção, para a taxa do PIB começaram o ano em 2,31%, mas na última edição desse relatório, divulgada em 2/3, esse valor já havia caído para 2,17%. No meu último artigo apresentei minha própria previsão, uma taxa abaixo de 2%, e hoje acrescento: com viés de baixa.

Também pode acontecer que a divulgação da taxa do PIB em 2019 inferior à dos dois anos anteriores tenha efeito negativo sobre as expectativas de empresários e consumidores, prejudicando suas decisões de investir e consumir. 

O que fazer? Para um crescimento mais vigoroso e sustentável do PIB é indispensável o aumento dos investimentos em formação bruta de capital fixo, criando ou ampliando fábricas, fazendas, escolas, hospitais, obras de infraestrutura, etc., capazes de aumentar a oferta de bens e serviços no País. Fazendo isso, também seriam gerados mais renda para trabalhadores e mais lucro para empresários, aumentando a sua demanda de bens e serviços. Ou seja, uma coisa puxa outra.

Ora, o relatório do IBGE diz que a taxa de investimento aumentou de 15,2% para 15,4% do PIB de 2018 para 2019, mas nos detalhes do documento percebe-se que essa taxa havia alcançado a média de 20,5% do PIB no período 2010-2014, quando, também por essa razão, o PIB crescia bem mais do que hoje. Em seguida, ela despencou para 14,6% do PIB em 2017, junto com o início da depressão em 2015. Ou seja, o valor que ela atingiu em 2019 está longe do que seria necessário para dar um impulso bem maior à economia. 

Ainda não vejo as propostas de reformas necessárias do ministro Paulo Guedes, se aprovadas, e tampouco os projetos governamentais de infraestrutura, concessões e privatização, e os investimentos privados em andamento, como capazes de dar força bem maior aos investimentos como um todo, e trazer aumentos do PIB substancialmente superiores aos observados no último triênio. 

Estagnado ao crescer abaixo do seu potencial nas quatro últimas décadas, a situação econômica do Brasil é bem mais complexa que a dada pelo diagnóstico predominante. É preciso um mais amplo e um plano nacional de crescimento econômico focado nos muitos problemas por enfrentar. E sustentado por um acerto político entre o Congresso e o presidente, e por lideranças que convoquem a Nação para a sua formulação e execução. Voltarei ao assunto neste espaço.

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), PROFESSOR SÊNIOR DA USP. É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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