No cardápio, inflação e desemprego

A melhor contribuição de Bolsonaro, neste ano, seria encerrar o mandato sem grandes iniciativas e sem ameaça à democracia.

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2022 | 03h00

Muito mais arrumadinho, o mundo de outros tempos oferecia um cardápio de problemas com opção possível entre inflação e desemprego. Essa escolha parece uma desvairada fantasia, num Brasil com 12 milhões de desocupados, equivalentes a 11,2% da força de trabalho, e preços com alta de 11,3% em 12 meses. No quarto ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro, multidões buscam alguma ocupação para garantir a sobrevivência, enquanto preços em alta reduzem seu poder de compra já diminuto. Mas aquele mundo certinho e misterioso para os brasileiros cabia sem dificuldade em manuais escolares, onde se encontrava um desenho especialmente fascinante.

Em 1958, o economista Alban William Phillips descreveu num estudo uma relação inversa entre inflação e desocupação. Quanto menor o desemprego, maior a inflação, e vice-versa. Para favorecer a oferta de vagas, a autoridade poderia, por exemplo, estimular o aumento do consumo, facilitando a expansão dos negócios e também das contratações. A contrapartida seria um aumento mais veloz dos preços. A teoria, resumida numa famosa “curva de Phillips”, foi discutida e criticada, mas nunca descartada integralmente.

A teoria foi revista e recauchutada, para dar conta de experiências conjuntas de inflação e desemprego, batizadas como estagflação. Experiências desse tipo ocorreram várias vezes no último meio século – e sua estranha denominação tornou-se palavra corrente. Houve estagflação no Brasil, com certeza, nos anos 1980, no final do período militar. Hoje, desocupação muito alta, preços em disparada e escassa perspectiva de melhora marcam a paisagem econômica brasileira, mas como rotular esse conjunto? Não há estagflação, garante a equipe econômica. Mas o ritmo da atividade permanece muito baixo, mesmo com a criação de algum emprego, e o Ministério da Economia já baixou de 2,1% para 1,5% a expansão prevista para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2022.

Nem a equipe do ministro Paulo Guedes se arrisca a prever um desempenho mais parecido com aqueles observados, de modo geral, nas economias emergentes. As projeções divulgadas por outras fontes, mesmo de chapa branca, são ainda menos otimistas. O Banco Central calcula para este ano uma expansão de 1%. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou há poucos dias uma estimativa de 1,1%. No mercado, as expectativas têm ficado na vizinhança de 0,5%, segundo a pesquisa Focus.

O Brasil nunca se recuperou totalmente da recessão de 2015-2016. A recuperação conseguida em 2017 e 2018, no governo do presidente Michel Temer, perdeu impulso em 2019, no começo do mandato do presidente Jair Bolsonaro. Já estava enfraquecida, portanto, quando a pandemia atingiu o País, em 2020. A reação de 2021 pôs a economia num patamar pouco superior ao anterior à covid-19, mas a melhora logo se esgotou. Os serviços, muito afetados pela crise sanitária, voltaram com algum vigor, graças ao sucesso de uma vacinação retardada e desacreditada pelo presidente.

Mas nenhuma recuperação iria muito longe num ambiente de inflação acelerada e condições de trabalho muito ruins. No trimestre encerrado em fevereiro deste ano, o rendimento médio habitual de quem conseguiu alguma atividade foi 8,8% menor que o de um ano antes, corroído pelas dificuldades de ocupação e pelo surto inflacionário.

O desemprego de 12 milhões de pessoas é apenas parte de um amplo quadro de empobrecimento. O conjunto dos desempregados, desalentados, subocupados com insuficiência de horas e afastados do mercado totalizava, nesse período, 27,3 milhões de pessoas. Foi um contingente menor que o de um ano antes, mas desastrosamente grande.

A equipe do ministro Paulo Guedes pode estar certa quanto a um ponto. Talvez seja inadequado falar de estagflação, se essa palavra indicar principalmente um fato conjuntural. O baixo crescimento – atual e potencial – caracteriza a economia brasileira há muitos anos, pelo menos desde o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. O baixo potencial permanece. Nenhum economista respeitável se atreve a projetar para os próximos anos taxas de crescimento muito superiores às do último decênio.

Estimar o crescimento potencial pode ser muito complicado, mas é fácil identificar algumas das principais deficiências. As mais visíveis são o baixo investimento em capital físico, raramente superior a 18% do PIB, a escassa integração nas cadeias internacionais de produção e a formação insuficiente de capital humano.

A desindustrialização do País decorre tanto desses fatores quanto de uma falha fundamental e mais grave, a carência de planos, metas e programas de modernização e fortalecimento da economia urbana.

Reformas são necessárias, obviamente, mas têm de ser muito mais amplas e mais bem desenhadas do que aquelas propostas a partir de 2019. Quanto a isso e, mais amplamente, quanto à retomada de uma economia próspera e mais ajustada, a melhor contribuição do atual presidente será um encerramento menos tumultuado de seu mandato – se possível, sem novos ataques à democracia.

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JORNALISTA

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