No desgoverno do Brasil só cabe a agenda eleitoral

Até o risco eleitoral criado pela pandemia, emprego e pobres ficaram fora do radar

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2020 | 03h00

Deus fez chover em Mato Grosso um dia depois da visita do presidente Jair Bolsonaro, festejou o general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo. “Deus está com nosso presidente e continuará a abençoar o Brasil”, acrescentou. Os incêndios na Amazônia e no Pantanal são fenômenos naturais e nenhuma ação humana pode evitá-los, garantiu outro general, Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional. As críticas à política ambiental brasileira, segundo ele, são ligadas a um “evidente” movimento internacional para derrubar o governo. O chefe dos generais, presidente do país abençoado, também cuidou do fogo, pouco depois, em discurso na Assembleia-Geral da ONU. Na Amazônia só índios e caboclos fazem queimadas, mas na mata úmida nenhum incêndio se propaga, assegurou.

É isso mesmo o Executivo brasileiro? É mais que isso – e muito menos que um governo. É preciso acabar com a erotização das crianças e com a discussão de gênero nas escolas, disse o ministro da Educação, Milton Ribeiro, em entrevista ao Estado. Mais sociável que Abraham Weintraub, o novo ministro reafirma prioridades de seu antecessor e também os valores e o padrão – por assim dizer – cultural de seu líder comum, o presidente da República. Nenhuma surpresa, portanto, quando o novo ministro se refere a homossexuais como produtos de famílias desajustadas e descreve a desigualdade como “problema do Brasil”, fora da responsabilidade de sua pasta.

Educação, igualdade e liberdade são temas correlacionados há mais de dois séculos, como comprovam as Cinco Memórias sobre a Instrução Pública, de Condorcet. Um tratamento recente do assunto aparece no livro Capital et Idéologie, de Thomas Piketty, publicado em 2019. A difusão de conhecimentos e o acesso às qualificações são apontados por ele como fatores primordiais, em longo prazo, para a redução das desigualdades em cada país e em âmbito internacional (páginas 622-623). Condorcet abre seu livro, editado no fim do século 18, atribuindo à sociedade o dever de proporcionar instrução ao povo “como meio de tornar real a igualdade de direitos”.

Mas desigualdade, segundo o ministro da Educação, é problema do Brasil. Não envolvam seu ministério nessa história. Ideia estranha? Nem tanto, para quem acompanha as ações do grupo chefiado, em Brasília, pelo presidente Jair Bolsonaro. Problemas do Brasil – ou da maior parte dos brasileiros – nunca foram incluídos na agenda normal do Palácio do Planalto, desde janeiro de 2019. De fato, nem mesmo houve mais que uma pauta de interesses bolsonarianos.

O combate à pandemia, tem repetido o presidente, foi delegado a governadores e prefeitos pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Isso é falso, como se observou muitas vezes. Decisões sobre isolamento e etapas de abertura foram atribuídas aos poderes estaduais e municipais, mas o Judiciário apontou a “competência concorrente” dos três níveis, sem isentar de responsabilidade a administração federal.

Evitar essa responsabilidade combina com a negação do problema. Depois de qualificar a covid-19 como gripezinha, o presidente se opôs ao isolamento e classificou como inútil o uso da máscara, objeto de piada em sua transmissão da última quinta-feira, em que aparece ao lado do ministro do Meio Ambiente. No fim, os dois tentam ridicularizar o toque de cotovelos como cumprimento.

Covid-19 é assunto dos outros. Devastação ambiental é história inventada por inimigos do Brasil. Isso inclui brasileiros a serviço de interesses estrangeiros, como dirigentes dos maiores bancos privados nacionais, cientistas famosos, membros de organizações ambientalistas e líderes da ala mais moderna e mais produtiva do agronegócio.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e estudos do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) são apontados como contrários ao discurso oficial. Mas nada disso importa. Gente empenhada em cobrar ações de quem exerce o poder só atrapalha.

Por mais de um ano o presidente desprezou a economia, deixando o assunto para o “posto Ipiranga”, o ministro Paulo Guedes. O impacto da pandemia nos negócios forçou a revisão de padrões. Foi preciso pensar nas pequenas empresas, nos assalariados e até nos muito pobres. Antes, nenhuma dessas categorias havia estado entre as prioridades. Sem operações de socorro, no entanto, nem os empresários fiéis a Bolsonaro ficariam livres de grandes perdas.

Essas operações, semelhantes às implantadas em dezenas de países, atenuaram a crise e tornaram o presidente mais popular até no Nordeste, região dominada, até aí, por seus adversários. A ajuda aos pobres virou parte da estratégia da reeleição, item número um da pauta presidencial. Por que não criar uma Bolsa Família com marca própria? Melhor ainda se um congressista, como o relator do Orçamento, cuidar do assunto, assumindo o custo de mexer em verbas muito apertadas. 

Teria o presidente chegado até aí se tivesse perdido tempo governando? Brasil acima de tudo, Deus acima de todos e reeleição em primeiro lugar.

JORNALISTA

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