Nossas pandêmicas culpas

Em inocente confiança no desconhecido, permitimos uma relação digital perigosa

Antonio Carlos do Nascimento, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 03h00

Todas as noites são vistas numerosas aglomerações de jovens em bares, baladas, postos de gasolina e festas de todos os apelos. As estatísticas os apontam como resistentes à maioria das intempéries contemporâneas, incluída a covid-19, não por impedimento ao contágio, mas pela posse natural de entraves aos recursos virais que desencadeiam os processos que subtraem a vida. Podem transmitir a seus iguais e deles contrair, infectar os contatos de seus convívios e os eventuais.

Em outra linha de atitudes estão frenéticos defensores dos medicamentos que se provaram ineficazes no tratamento dessa virose, insistentes opositores da ciência, os mesmos que sempre caminharam desmascarados e agora colidem com a pretendida vacinação.

Pudéssemos nos separar momentaneamente dos adolescentes e adultos imaturos em seu desdém pandêmico e não conviver com idealistas radicais, teríamos um cenário mais administrável? De um lado, estariam imunizados (ou mortos) pelo vírus e, de outro, mascarados e expectantes das vacinas?

A postos no contraponto das imprudências de jovens e extremistas está a maior parte da população, composta por indivíduos “algo” respeitosos às orientações de autoridades sanitárias, porém, em suas tentativas de reaproximação social, mostrando-se instintivos e habitualmente imprudentes, aceitando subliminarmente que seu convívio é seguro e os locais que frequentam são estéreis, desmascarando-se para a pseudossegurança. Talvez a melhor resposta para as perguntas anteriores seja que erramos (quase) todos, em proporções distintas.

No mesmo ensaio de culpados, mas em outra pandemia, lembro ter escrito neste espaço acerca da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), abordando a absurda exibição pública de nossas inúmeras privacidades pelos meios digitais. Anotei ainda que as indecorosas transgressões não deveriam avançar para nossas intimidades orgânicas, especialmente em suas falhas.

Mas comemorávamos, havia bom tempo, as recém-adquiridas funções de bancário e cliente nas instituições financeiras, em troca do desgaste da mobilidade e da espera das filas. Não demorou para perceber que pelos bônus arcamos com os custos da engrenagem, pois transações monetárias e patrimônios pessoais, se não eram do conhecimento do público geral, já estavam sob as lentes de grandes corporações, que não aquelas às quais devemos satisfações.

Faz pouco que este jornal publicou a falha que permitiu por várias semanas o acesso aos dados pessoais dos brasileiros que oficialmente haviam sido diagnosticados com covid-19. Em poucos dias viria a reportagem de capa apontando a escandalosa, indesculpável e inadmissível disponibilização acidental, por pelo menos seis meses, das informações pessoais de todos os brasileiros cadastrados no SUS ou clientes de planos de saúde.

Pouco importa o erro humano na inadvertida exposição informativa dos brasileiros com diagnóstico de covid-19. Tampouco nos fará diferença encontrar as falhas de software do sistema e-SUS-Notifica permissivas ao desastre. A relevância está na certeza da fragilidade do ambiente digital, a potencial publicação sumária de nossa vida para todos os olhares. Aos planos de saúde e empresas securitárias foram entregues ferramentas para minorar seus riscos, possibilitando a criação de algoritmos a seu critério para escolher clientes ou deles se distanciar, uma verdade que se estende a contratantes em busca de contratados.

Adicionalmente, neste contexto aparentemente irreversível de exposição pessoal, idealistas fanáticos, jovens irreverentes e componentes de todas as cores comportamentais serão monitorados em seus desejos, ou melhor, suas convicções, e terão seu endereço conhecido. Ainda que pareça alvissareiro, é aviltante, pois permitirá distinções individuais por juízo de valor ou interesses econômicos, a depender dos detentores desses informativos.

A covid-19 é um marco histórico, seguramente menor que as duas guerras mundiais do século passado e bem menos dramático que a pandemia de 1918. Enquanto muitos comemoram supostos dez anos de progresso antecipado, o que vemos são ratificações de recursos ou possibilidades já existentes, tais quais home office, conferências virtuais, deliveries e seus motoboys, e-commerce e avançadas logísticas, e, lamentavelmente, a apresentação sistemática de dados pessoais à nossa revelia em variados meios.

Somos todos culpados pelas duas progressões pandêmicas, mas especialmente pela que concebemos e principiamos sua perpetuação, obnubilados pelos seus derivantes confortos. Em inocente confiança no desconhecido, permitimos o surgimento de uma relação digital perigosa, que, longe de democratizar oportunidades, pode impedir escolhas.

Numa ampla contextualização planetária, despida de nossos brasileiros protagonismos, é possível dizer que para o inimigo viral produzimos regras de proteção e vacina, mas para os graves efeitos colaterais da mais extraordinária criação humana estamos exercitando o conformismo, que ao menos por aqui é definido pela expressão “seja o que Deus quiser”.


DOUTOR EM ENDOCRINOLOGIA PELA FACULDADE DE MEDICINA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP), É MEMBRO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ENDOCRINOLOGIA E METABOLOGIA (SBEM)

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