Nosso crime de todos os dias

Não despertamos ainda para os efeitos do aquecimento global e sua transformação em crise. Trata-se de um delito coletivo.

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2022 | 03h00

Existem malefícios que perduram no tempo, mesmo que se conheçam os desastres e as maldades que provocam. Em 1827, há quase dois séculos, o físico francês Jean-Baptiste Fourier previu “efeitos atmosféricos” aquecendo o planeta “além do que devia”. Era o descobrimento do que, hoje, chamamos de efeito estufa e que constitui a grande ameaça à vida em si.

Nestes quase 200 anos, a situação se agravou com a Revolução Industrial, que nos trouxe conforto no dia a dia, mas poluiu o planeta muito mais do que em todos os milhares de anos de existência. Vivemos atualmente em plena crise climática, com tempestades e alagamentos ou secas e longas estiagens, numa situação imprevisível que – afirma o Painel Intergovernamental do Clima da ONU (IPCC) – foi provocada pela ação do ser humano. É desnecessário descrever os fenômenos atípicos das últimas décadas e, para ilustrá-los, basta citar dois exemplos. Na gélida Sibéria, no ano passado, fez calor em pleno inverno. Na região amazônica, onde costumeiramente chovia todos os finais de tarde, houve longa estiagem um ano atrás.

O crime maior está à solta e evitá-lo ou minorá-lo depende de cada um de nós. Ou de nossos governantes, que decidem por nós e em nosso nome constroem (ou destroem) o futuro.

Acordos internacionais buscam estabelecer controles para evitar o agravamento das mudanças climáticas e impedir que se transformem em crise insolúvel. Os acordos de Kyoto e de Paris foram os marcos fundamentais dessas ações, cujo ponto essencial foi chamar a atenção para o perigo dos combustíveis fósseis, como carvão, petróleo e gás. Meses atrás, em Glasgow, na Escócia, os compromissos se renovaram.

Os governos, porém, tratam do tema burocraticamente, sem planos ou programas para mudar os hábitos cotidianos. No fundo, os confortos que a sociedade de consumo propicia no dia a dia contradizem quase tudo o que se prega. Continuamos a depender cada vez mais do petróleo ao usar nossos automóveis todos os dias. A tecnologia que nos leva aos carros elétricos é cara e inacessível às maiorias.

No caso do Brasil, a partir de janeiro de 2019 o governo Bolsonaro mudou a política ambiental. E a devastação da Amazônia aumentou num ritmo sem precedentes. As árvores da Amazônia, do Cerrado ou da Mata Atlântica não têm título eleitoral e, assim, estão ausentes da ação governamental…

Num mundo que despertou para o perigo das mudanças climáticas, no Brasil os órgãos de controle ambiental vêm sendo desmantelados pelo governo federal. Assim ocorreu com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e com o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Não despertamos ainda para os efeitos do aquecimento global e sua transformação em crise. O exemplo gritante é a atual campanha presidencial, em que o tema não aparece. A dois meses da eleição, nenhum dos aspirantes ao Palácio do Planalto sequer menciona o meio ambiente como meta. Dias atrás, provocado por uma pergunta da entrevistadora da GloboNews, Ciro Gomes mostrou conhecer o assunto, mas teve de ser indagado na televisão sobre isso, sem ter tomado a iniciativa de mencioná-lo.

Desconhecer um problema como o impacto do CO2 na atmosfera é grave, pois o gás metano aí permanece por mais de cem anos, sem dissipar-se ou extinguir-se.

As queimadas na Amazônia para transformar a floresta em áreas de pastagens ou agrícolas lançam 8 bilhões de toneladas de CO2 na atmosfera a cada ano. O mais absurdo é que, por causa do solo pobre em nutrientes, a região amazônica não é adequada como área agrícola ou pastoril. Nem esse detalhe, no entanto, serve para deter a sanha (ou o sonho) de cobiça dos madeireiros ilegais que derrubam florestas.

O crime das mudanças climáticas transforma-se, assim, num delito coletivo. Cada um de nós, em maior ou menor grau, ao escolher os governantes que decidirão por nós e em nosso nome, é partícipe do episódio.

A atual (e angustiante) pandemia da covid-19 representa, no entanto, uma brutalidade menor do que as mudanças climáticas. É fácil de entender: há vacinas para a pandemia, mas mão há vacina injetável para salvar o planeta.

A “vacina” está em nosso comportamento ou em nossa decisão eleitoral em outubro. O futuro do planeta está em nossas mãos. A partir de 1970, a temperatura média da Terra aumentou 0,55 grau Celsius, número aparentemente pequeno, mas que já derrete as geleiras do Ártico, no Polo Norte, e o gelo da Antártida, ao Sul. O nível dos mares se eleva e ilhas habitáveis nos oceanos irão desaparecer.

Aqui, em São Paulo, algumas praias de Ilhabela inundadas pelo mar têm hoje menos areia, num pequeno exemplo do futuro que virá.

A ciência e os governantes coincidem em que é urgente salvar o planeta da hecatombe da crise climática. A encíclica do papa Francisco sobre “nossa casa comum” alertou, anos atrás, sobre a necessidade de nos unirmos na mesma e idêntica causa.

Se não o fizermos, o crime será obra de cada um de nós.

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JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UnB

 

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