Novo dia? Novo tempo?

Esse negócio de Natal mexe com a gente, ficamos todos mais bobos, menos compostos

EUGÊNIO BUCCI*, O Estado de S.Paulo

20 Dezembro 2018 | 03h00

“A História não é algo que evolui no tempo, mas exatamente o contrário: a visão de tempo é que muda ao longo da História”

Gerald James Whitrow, em O Tempo na História

Porque tenho quilometragem suficiente para me lembrar do dia em que um televisor entrou pela primeira vez na casa da minha infância, em Orlândia, e para lembrar que era um Telefunken emoldurado em madeira clara, com três botões de plástico branco lustroso (numa alusão à nobreza predatória do marfim) bem na base da tela de vidro espesso e abaulado; porque me lembro do momento em que o aparelho desembarcou, carregado por dois homens falantes que o depositaram sobre uma mesinha lateral na copa onde a gente almoçava, jantava e tomava o café da manhã, eu posso assegurar: as festividades de fim de ano da Rede Globo não atravessaram toda a minha vida, só uma parte dela, quero dizer, atravessaram (e atravessam) a esmagadora maioria dos réveillons da minha existência, mas não todos.

Na casa da minha infância, a televisão chegou bem depois de mim. O mais grave é que a televisão chegou antes da Rede Globo. Isso mesmo. Quando instalaram a antena no telhado (quebraram telhas, para a cólera domada de meu pai) e desceram pela parede aquela fita esbranquiçada da largura de um durex pela qual passavam dois fios de cobre – um bem longe do outro, um dedo de distância, “para não dar interferência” – que foram aparafusados no fundo televisor, as imagens chuviscadas que pegávamos eram somente da TV Tupi. Vai parecer algo impensável, mas a Globo demorou um bom tempo para conquistar a atmosfera da Alta Mogiana.

Tudo isso para dizer que eu sei muito bem o que é viver sem a Rede Globo. Não digo que seja melhor, mas sei bem o que é.

Não consigo imaginar esse negócio de Natal e ano-novo sem as pirotecnias fluorescentes da Globo. Em cores, é claro. A cena mais bonita da literatura brasileira é aquela em que o menino de Guimarães Rosa experimenta os óculos e de repente começa a ter “a visão perfeita das coisas, a noção exata das microformas”. Comigo isso aconteceu quando vi as imagens de uma televisão colorida, que foi instalada em outro cômodo da casa, longe do refeitório. Quando vi a Globo em cores. Eram cores mais convincentes do que as cores do poste na rua, dos fiapos que saíam da máquina de beneficiar algodão e se depositavam nos fios elétricos, numa tapeçaria selvagem. A “visão perfeita das coisas” foi a televisão que trouxe. Não uso óculos. A calçada, a rua, as estradas de terra, o caminho da escola, tudo pasmaceira pálida.

Pressinto a cadência das décadas sincopadas nesse lento bater de sinos que é a canção “hoje, é um novo dia, de um novo tempo, que começou...”, etc. Você sabe do que falo, mesmo você que acha que não vê televisão. Abro os olhos, já com alguma preguiça, para ver o que cada final de ano nos reserva na tela da Globo. Cada ano o cenário muda um pouco. A coreografia, o figurino mudam. Agora o elenco da Vênus Platinada canta a velha canção fantasiado de aviadores, de maquinistas, trajando indumentárias que remontam a vestes antigas (um “visual vintage”, você sabe), como decalques de Santos Dumont, versões alegóricas de Saint-Exupéry, enquanto movem engrenagens, pedais, roldanas, guidões, cordas, manches, alavancas, fazendo girar traquitanas de uma tecnologia mecânica ao mesmo tempo industrial e idílica. Há um toque meio Mary Poppins nesse cenário deste ano. Uma sessão da tarde com Julio Verne. As estrelas globais representam um teatro em que acionam o imenso mecanismo do que parece ser um relógio ou uma caixinha de música. Fico olhando.

Todos e todas ali são celebridades. Tento reconhecê-las. É divertido. Onde está Wally? Eu já não identifico mais ninguém. Galvão Bueno? Sim. Serginho, está lá. Que mocinha de novela é essa aí? Não vejo Malhação há séculos. Não sei. É bonita. Uma multidão de “quem é mesmo?” canta e dança e gira geringonças diante das minhas retinas tão fatigadas. Não sei o nome de quase ninguém, mas são todos meus íntimos, certo que são. Ondulam os torsos, os braços, as vestes, sorriem com seus dentes ofuscantes, Papai Noel existe, o futuro já começou, não tem dono, é de quem quiser, a festa é sua, alegrias de todos(as), bailarina, paraquedista, motorneiro, plim-plim.

Esse negócio de Natal mexe com a gente. Ficamos todos(as) mais bobos(as), menos compostos(as), mais inimputáveis, eu que escrevo estas mal digitadas, você que as lê. Esse negócio de Rede Globo é complicado.

Este ano, diferentemente dos outros anos, olho para o “hoje é um novo dia de um novo tempo” (com as mãos no alto, indo para a direita e para a esquerda, por favor) e vejo um desfile de circo. Sim, pois eu, com a minha quilometragem, já vi a chegada de um circo à cidade pequena, o cortejo sobre as ruas de paralelepípedos com os malabaristas cuspindo fogo seguidos de uma jaula de leão sobre quatro rodas, o mágico em cima da carreta, o caminhão com a motocicleta do globo da morte. Não que eu veja nisso a Globo da morte, mas uma Globo circo ardendo nas retinas.

Vejo também um operariado. Com o perdão da boca entortada pelo cachimbo gauche – ou pelo olhar diferido em difração por força dos livros ainda mais antigos que os aviadores –, vejo ali um operariado contente, autômato, enfeitado, que se acredita dono da máquina, dono do tempo: operariado alienado. E o pior é que até disso eu gosto. Fazer o quê? Só o que incomoda é ver jornalistas no meio. Envelheci? Talvez. Eu e os paralelepípedos de Orlândia – hoje recobertos por um asfalto que transbordou as bordas originais do meio-fio, mais ou menos como o batom de Renata Vasconcellos dá um bypass na curvinha que lhe enfeita o centro cósmico do lábio superior – achamos que jornalistas não deveriam participar de encenações. Existe aí um conflito, se não de interesses, de prazeres. Tirando isso, façamos um tempo realmente melhor. Feliz Natal.

* EUGÊNIO BUCCI É JORNALISTA E PROFESSORDA ECA-USP

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