Novos caminhos para a Igreja

Povo católico é chamado a interagir, refletir e se manifestar sobre as questões em pauta hoje

Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2021 | 03h00

No dia 31 de maio deste ano, transcorreu o 14.º aniversário do encerramento da 5.ª Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, conhecida como Conferência de Aparecida. O evento foi aberto pelo papa Bento XVI no dia 13 de maio de 2007 e marcou a vida da Igreja Católica no continente. As Conferências Gerais do Episcopado são convocadas pelo papa e têm como objetivos principais avaliar a vida e ação da Igreja e definir diretrizes para o futuro próximo. Participam delas representantes dos bispos de todos os países do continente.

Ao todo, foram celebradas cinco Conferências Gerais na América Latina, sempre em cidades diferentes: Rio de Janeiro (1954), Medellín (Colômbia, 1968), Puebla (México, 1979), Santo Domingo (República Dominicana, 1992) e Aparecida (2007). Cada uma delas produziu um documento, que se tornou referência para a vida e a ação da Igreja no seu momento histórico.

A Conferência de Aparecida teve o efeito principal de suscitar um novo processo missionário. Consequência não prevista, mas nada indiferente, foi também a eleição do cardeal Jorge Mário Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, como sucessor de Bento XVI à frente da Igreja Católica, em 2013.

Bergoglio havia desempenhado papel relevante na Conferência de Aparecida como chefe da comissão de redação do documento final. Seu conhecimento privilegiado das questões trabalhadas em Aparecida contribuiu, certamente, para a redação do seu primeiro documento pastoral importante, uma vez eleito papa: a Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013). Nesse texto, Francisco estende para a Igreja inteira muitos temas e intuições da Conferência de Aparecida. Expressões encontradas com frequência em pronunciamentos do papa, como “Igreja em saída”, “atenção às periferias”, “conversão pastoral e missionária”, bem como a preocupação com a Amazônia e as questões ambientais, de modo geral, estão presentes no documento final da Conferência de Aparecida.

Considerando que, desde a realização dessa conferência já se passam mais de 14 anos, o Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) sugeriu recentemente ao papa a convocação de uma nova Conferência Geral do Episcopado. Francisco, porém, considerou que as intuições e diretrizes do Documento de Aparecida ainda permanecem válidas e têm muito a oferecer no presente. Em vez disso, ele pediu que o Celam realizasse uma Conferência Eclesial da Igreja no Continente para avaliar o caminho percorrido depois de Aparecida, apontar as lacunas ainda persistentes na aplicação de suas orientações e discernir sobre as novas realidades e os desafios postos à vida e à missão da Igreja no Continente.

A diferença entre uma Conferência do Episcopado e a Conferência Eclesial está, sobretudo, no fato de a primeira ter como membros e participantes apenas os bispos. Já na segunda participam representantes de todos os segmentos da comunidade da Igreja: cristãos leigos e leigas, consagrados na vida religiosa e membros do clero.

Um evento dessa natureza, com a participação de representantes tão diversificados do corpo eclesial, é um fato novo na Igreja Católica. A identidade e a competência de semelhante reunião ainda estão sendo discutidas e definidas de maneira mais precisa e serão traduzidas num novo documento, antes do início da Conferência Eclesial, cuja realização foi marcada para os dias 21 a 28 de novembro de 2021, na Cidade do México. A organização da reunião está a cargo do Celam e envolve todas as comunidades católicas da América Latina e do Caribe.

Enquanto isso, conforme manifesto desejo do papa, a preparação da Conferência Eclesial segue uma dinâmica sinodal, mediante consultas e sugestões em vários níveis, estendidas aos membros de cada comunidade católica do continente. Essa metodologia na preparação da conferência tem o objetivo de proporcionar uma verdadeira experiência sinodal ao povo católico, chamado a interagir, refletir e se manifestar com liberdade sobre as várias questões em pauta.

Não se trata de mera questão de método, mas de valorizar algo inerente à própria realidade da Igreja. Ela é um povo com muitas capacidades e dons, em que cada um contribui com sua parte para o bem de todos. São Paulo já comparava a Igreja a um corpo onde Cristo é a cabeça e os cristãos são os membros. Cada membro é importante, no exercício de sua função, para a vitalidade do corpo inteiro.

E não será a única ocasião oferecida aos católicos para fazerem uma experiência sinodal. A próxima assembleia-geral ordinária do Sínodo dos Bispos, marcada por Francisco para outubro de 2023, tratará do tema “Igreja sinodal – comunhão, participação e missão”. A ideia da sinodalidade já está presente, de alguma forma, no Concílio Vaticano II e faz parte da renovação da Igreja buscada pelo papa Francisco. Ela se expressa na participação corresponsável de todos os seus membros na vida e missão da mesma Igreja. Cada um a seu modo.


CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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