O agro é uma riqueza de todos e não tem partido

Seus interesses são vitais e permanentes. Os governos, como sabemos, são efêmeros

*Roberto Brant, O Estado de S.Paulo

10 de agosto de 2020 | 03h00

A revolução da agricultura e da pecuária brasileiras foi resultado de uma feliz conjunção de políticas públicas e de iniciativa privada. O Estado brasileiro ofereceu a privilegiada qualidade das universidades rurais, o investimento público em pesquisa tecnológica, o sistema de crédito rural e um ambiente institucional que garantia a propriedade privada e a liberdade. O setor privado ofereceu uma nova geração de empreendedores dispostos ao risco e à inovação.

O início da nova agricultura foi obra do governo Geisel, que enfrentou os mitos em que se baseava então o pensamento dos políticos ditos progressistas. Depois dele, em grau maior ou menor, todos os sucessivos governos deram continuidade ao apoio estatal, tornando claro que o agro brasileiro não tem origem nem cor política, é patrimônio de todos os brasileiros.

O comércio exterior tornou-se elemento essencial do agro brasileiro. Nossa grande presença no comércio internacional é recente e tomou corpo já neste século. No início a expansão foi muito forte, passou de US$ 20 bilhões no ano 2000 para US$ 95 bilhões em 2011. A partir daí nossas exportações se estabilizaram por mais dez anos nesse patamar. No futuro os avanços serão mais difíceis, requerendo um esforço conjugado de produtores e governo.

Os efeitos da pandemia nas economias do mundo nos levam a prever um futuro próximo de desglobalização e de protecionismo, o que significa dificuldades adicionais para o crescimento das nossas vendas externas. Para ampliar ou mesmo apenas manter nossos diversos mercados o agro brasileiro está agora também dependente das atitudes e do discurso do governo brasileiro. Dois pontos em especial têm sido causa de preocupação. Um diz respeito à imagem que se formou na opinião pública internacional de que o Brasil tem políticas hostis à proteção do meio ambiente, particularmente da Floresta Amazônica.

Parte dessa percepção tem raízes em interesses comerciais e na ação de ativistas políticos, notadamente na Europa e nos Estados Unidos. Mas parte importante deve-se a fatos que são reais. É fato que ações ilegais vêm provocando queimadas e desmatamento na Amazônia numa escala importante há bastante tempo, conforme dados de nossas próprias entidades oficiais. Os esforços de sucessivos governos para deter essas ações não têm sido suficientes. É uma realidade que, graças à tecnologia dos satélites, é visível a todo o mundo e não podemos ocultar.

Setores do atual governo adotaram uma retórica defensiva e, às vezes, negacionista, que dá munição às críticas que sofremos. Mas ignorar que a preocupação ambiental é hoje um sentimento autêntico de milhões de pessoas em todo o mundo e atribuí-la tão somente a posições ideológicas é estar desconectado da realidade.

O agro brasileiro não é culpado por essas transgressões ambientais. Se, ao lado de madeireiros clandestinos, de garimpeiros ilegais e de aventureiros de toda sorte, há uma ínfima minoria de produtores rurais associados à predação da Amazônia, eles não merecem nossa complacência. Para todos eles o Estado tem o dever de estender sua mão pesada e entregá-los à Justiça. Essa é a única resposta efetiva. Sem ela a economia do agro vai pagar um preço alto.

Não podemos fugir também do efeito nas exportações do agro de alguns movimentos de nossa atual política externa. O agro, por seus próprios meios, conquistou mercados em todo o mundo e não pode perdê-los para a política. Nosso maior mercado é a China, que absorve um terço de tudo o que exportamos. Ao promover um alinhamento aberto com o atual governo americano, autoridades brasileiras têm adotado uma posição de mal disfarçada hostilidade em relação ao nosso maior parceiro, que compra do Brasil cinco vezes mais do que os Estados Unidos. É fácil imaginar que esse comportamento pode trazer consequências.

O grupo de países islâmicos importa anualmente mais de US$ 16 bilhões do Brasil e é naturalmente sensível aos nossos gestos de intromissão no intratável conflito entre Israel e os palestinos, no qual nunca nos metemos, por estar fora da nossa agenda geopolítica. O Irã, até recentemente o quinto destino de nossas exportações agrícolas, foi hostilizado a ponto de o governo brasileiro impedir o abastecimento de seus navios que estavam aqui para embarcar cereais que haviam sido comprados e pagos. Hoje nossas exportações caíram de US$ 2,2 bilhões para pouco mais de US$ 300 milhões.

A política externa brasileira sempre esteve alinhada aos nossos interesses econômicos. Ao mudar essa tradição, a atual política põe em risco posições duramente conquistadas pelo setor privado, em troca de nada. Nenhum país sensato procede dessa maneira.

Cada produtor rural tem suas próprias opiniões políticas e não delega a ninguém essa representação. Mas o agro, como estrutura produtiva, não pode ter partido ou opinião política, porque é obra conjunta do Estado e das pessoas. Seus interesses são vitais e permanentes. E os governos, como sabemos, são efêmeros.

*PRESIDENTE DO INSTITUTO CNA

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