O ataque à agropecuária brasileira é um tiro no pé

Isso pode provocar uma crise na oferta, com risco de desabastecimento de alguns países e aumento dos preços.

Fábio de Salles Meirelles, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2021 | 03h00

É inadmissível e absurda a onda de ataques desencadeada, a partir de distintos países, contra a agropecuária brasileira, cuja qualidade é inquestionável e que tem um papel decisivo, em âmbito global, no atendimento das demandas relativas à segurança alimentar e ao fornecimento de matérias-primas, energia renovável e commodities. É preciso destacar, ainda, o aspecto sanitário e os cuidados exemplares com os rebanhos, um exemplo para o mundo. Sem querer cogitar qualquer teoria da conspiração, a verdade é que parece haver uma orquestração internacional, bem engendrada, com alegações injustificadas e sem quaisquer embasamentos técnicos plausíveis.

Os lamentáveis problemas começaram com o embargo chinês à importação da carne bovina brasileira, em razão do aparecimento de dois casos isolados e atípicos de vaca louca que acometeram animais velhos, que nem sequer haviam sido encaminhados para a produção. As compras já deveriam ter sido restabelecidas, porque é eficaz o trabalho de vigilância conduzido pelo serviço veterinário oficial brasileiro, que constatou não haver quaisquer ameaças. Tal diagnóstico, aliás, foi corroborado pela Organização Mundial da Saúde Animal (OIE), que concluiu rapidamente um relatório sobre a questão, enfatizando não haver risco algum no produto brasileiro. 

Considerando essa questão técnica irrefutável e reconhecendo os esforços de nosso governo, enviamos ofício ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e ao Ministério das Relações Exteriores pedindo esforço diplomático ainda maior para restabelecer os embarques para o país asiático, hoje o maior comprador da carne brasileira.

Cabe ponderar que a demanda crescente dos chineses foi determinante para o investimento de muitos produtores de nosso país. Assim, haverá significativos prejuízos para o setor com a manutenção do embargo. Sua adoção já está sendo responsável por acentuar a queda no preço dos animais de abate e com poucas perspectivas de solução em curto prazo, considerando que o ambiente de especulação ganha força e pressiona bastante os pecuaristas. Para que se tenha uma ideia do impacto, o preço da arroba do boi, por causa da suspensão das vendas, já caiu de R$ 315 para R$ 265.

Pela mesma razão alegada por Pequim, assistimos à forte pressão nos Estados Unidos – marcada pelo projeto de um senador e pelo lobby da National Cattlemen’s Beef Association (NCBA), entidade de classe representativa da pecuária de corte – pela paralisação das importações da carne brasileira. Trata-se, do mesmo modo, de um movimento absolutamente desprovido de lógica e de justificativa de ordem técnica.

Não bastasse essa questão da carne, deparamo-nos com a absurda proposta da União Europeia de restringir a importação de produtos agropecuários brasileiros, sob alegação de supostos problemas ambientais em nosso país. Repudiamos tal atitude, que viola normas de recentes acordos internacionais, incluindo o de Paris. Temos uma das mais avançadas legislações ambientais do mundo, o que torna incompreensível e inaceitável a justificativa de que hoje o Brasil apresenta alto risco de desmatamentos.

A proposta é injustificável, porque não diferencia as práticas legais, adotadas pela imensa maioria dos produtores, das ilegais desenvolvidas por uma minoria, que deverá responder por seus atos nos termos da lei. Temos um Código Florestal que é modelo para o mundo. Não é certo os europeus usarem um argumento prejudicial à expressiva maioria de produtores de nosso país, que age de maneira absolutamente correta. Consideramos acertada e estamos apoiando a posição do Ministério do Meio Ambiente de questionar a proposição.

Seria mais adequado que esses países, em vez de usarem argumentos inconsistentes para depreciar nossa agropecuária, adotassem atitudes mais práticas e assertivas, como formalizar o mercado de créditos de carbono, o pagamento de serviços ambientais e a valorização das nossas florestas em pé, que geraria renda e ajudaria a conservá-las. Cabe questionar por que não fazem isso. Nesse aspecto, foi falha a 26.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-26).

Governos, políticos e entidades que conspiram contra a agropecuária brasileira poderão estar dando um tiro de canhão nos próprios pés. Afinal, nossa produção tem volume muito elevado e participação significativa na cadeia global de suprimentos. Uma prolongada ausência de nossos alimentos e commodities agrícolas nos principais mercados consumidores mundiais certamente provocaria uma crise na oferta, com risco de desabastecimento de alguns países e aumento dos preços.

A questão, portanto, vai muito além do jogo de cena que se faz com os temas da sustentabilidade e da saúde animal, pois as implicações desses ataques têm alcance social e econômico e ultrapassam as fronteiras do Brasil. 

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PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO ESTADO DE SÃO PAULO (FAESP)

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