O Brasil descobre a Mont Pèlerin

Que a bandeira da liberdade econômica seja definitivamente hasteada no nosso país

Antonio Cabrera, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2020 | 03h00

“A economia é o resultado das ações dos homens, e não de suas intenções”- Hayek

Após o fim da 2.ª Guerra Mundial, em 1947, quando muitos dos valores da civilização ocidental estavam ameaçados, 36 acadêmicos, principalmente economistas, mas também alguns historiadores e filósofos, foram convidados por Friedrich Hayek a se reunir em Mont Pèlerin, na Suíça. Nessa ocasião, os regimes nazista e comunista haviam infligido danos irreparáveis aos direitos humanos, principalmente por que tais sistemas de governo tinham total controle sobre as sociedades em que operavam.

No Ocidente, um dos primeiros a reconhecer essas conexões entre ambos os regimes não foi outro senão Hayek, proclamando, em 1945, que o “nazismo não é nada mais do que um irmão gêmeo do socialismo”. A Sociedade Mont Pèlerin surgiu, então, como resposta à ruína social, política, intelectual e moral que dominavam a Europa durante e depois da Grande Guerra. O objetivo era manter acesa a chama intelectual da liberdade econômica nos dias sombrios do pós-guerra e criticar as noções intervencionistas centralizadoras que então prevaleciam em muitos países.

Estes fundadores se comprometeram não com uma ação política, mas com uma vigorosa batalha de ideias, rejeitando teorias errôneas sobre sociedade e História. Era importante demonstrar que o desastroso impacto do socialismo foi a “destruição completa da liberdade humana”, afundando a economia em pobreza e falta de direitos humanos.

Desde então, com raríssimos momentos de lampejos, como os de Roberto Campos e Meira Penna, o Brasil tem sido um mero espectador minúsculo dessa luta na defesa da liberdade econômica. O resultado é que, num país com mais de 210 milhões de habitantes, apenas oito brasileiros são hoje membros da Mont Pèlerin, o que exibe a monocultura ideológica da nossa classe intelectual, mormente nas universidades brasileiras.

A razão disso, como já alertavam as primeiras reuniões da Mont Pèlerin, é uma triste ignorância da História, pois o colapso dos regimes socialistas não impediu que alguns intelectuais se mantivessem ligados a uma errônea popularidade do socialismo. Estes, quando pensam no socialismo, não pensam em Stalin, eles pensam tangencialmente na capitalista Escandinávia.

A melhor vacina para isso é ouvir os imigrantes que vieram desses países socialistas. As reuniões da Mont Pèlerin mostram que a transição do planejamento central para economias orientadas para o mercado na Europa Oriental e Central fornece um laboratório fascinante para pesquisa em teoria econômica e prática de negócios.

Com o colapso do comunismo, as ineficiências do planejamento centralizado foram desnudadas. Reforçando que a “liberdade é um fruto delicado de uma civilização madura que precisa de cultivo constante”, isso requer uma série de fatores, principalmente a liberdade econômica.

Infelizmente, no Brasil tomamos um caminho diferente e ostentamos posições vergonhosas no Índice de Liberdade Econômica ou no de Direitos de Propriedade. Com esse retrospecto, foi uma agradável surpresa ter o nosso ministro Paulo Guedes, da Economia, como o principal orador na última reunião da sociedade.

Guedes não só apresentou resultados, mas também a nova Lei da Liberdade Econômica (Lei 13.874/2019). E indicou para o plenário a nova bússola que agora orienta o Brasil. Embora haja ainda muito por fazer, temos de entender que a liberdade econômica é o que capacita uma pessoa – não importando a sua raça, o seu gênero ou a sua fé – a desencadear a sua criatividade.

Todas as liberdades conquistadas pela moderna civilização são importantes, como a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa ou a liberdade religiosa. Mas a liberdade com que a maioria das pessoas comuns se importa é a liberdade econômica. É esta que propicia o direito ao trabalho, abrir um negócio ou avançar na inovação. É por meio dela que garantimos o mais básico direito: o direito à sobrevivência. No entanto, é geralmente uma das últimas liberdades que uma civilização defende.

Assim, cada vez mais precisamos saber que a liberdade econômica é a força vigorosa que diminui a pobreza e gera prosperidade em todo o mundo. Talvez a economia seja um assunto nada interessante, mas tudo em nossa vida está ligado à economia. Se a economia se deteriora, nosso padrão de vida vai junto. E, com ele, nossas mais básicas liberdades civis. A economia está fortemente ligada ao que você come, bebe, veste, estuda ou planeja para o futuro. Por estar em todas as coisas, sem a liberdade econômica não é possível haver nenhuma outra liberdade.

A liberdade econômica mostra que o cidadão é a parte mais importante da sociedade, e não o governo. É essa bandeira que, em 1947, esse grupo de intelectuais levou para as trincheiras remanescentes da 2.ª Guerra Mundial, alertando que quem não se lembra do passado é condenado a repeti-lo.

Que essa bandeira seja hasteada definitivamente em nosso Brasil.

MEMBRO DA SOCIEDADEMONT PÈLERIN, FOI MINISTRO DA AGRICULTURA E REFORMA AGRÁRIA

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