O Brasil já perdeu dois bondes no governo Biden

Mas o País é maior do que o governo que tem e isso é reconhecido no exterior

Paulo Sotero, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2021 | 03h00

A participação de Raquel Krähenbühl, da Rede Globo, no pool de jornalistas que acompanhou o presidente Joe Biden no dia de sua posse resultou da competência e dedicação da jornalista, a única correspondente internacional incluída no grupo. Mas ela ilustra algo maior, a que me referi em novembro neste espaço: a despeito da devoção subserviente de Jair Bolsonaro a Donald Trump, que levou o Brasil a perder os bondes do combate à pandemia e às mudanças climáticas, Biden não hostilizará o Brasil – embora não faltem motivos para fazê-lo. Isso não significa que a nova administração em Washington terá tempo para um presidente que reafirmou sua devoção ao fracassado ex-líder americano mesmo depois de ele ter desencadeado manobras para invalidar a surra que levou nas urnas de novembro e que culminaram num assalto sem precedentes ao Capitólio, no dia 6 de janeiro, justificando a instauração de um segundo processo de impedimento constitucional – fato inédito na História dos Estados Unidos.

A atrasadíssima carta de congratulações que o presidente do Brasil mandou ao colega americano não vale o papel em que foi impressa e foi recebida como uma manifestação sem significado. As mensagens oriundas do Brasil que contam hoje em Washington são duas, e estão relacionadas com prioridades do governo Biden. A primeira, intensamente negativa, é a desastrosa resposta brasileira à epidemia de covid-19, tragédia que os dois países compartilham por motivos parecidos e levou as autoridades americanas a reimporem as restrições de acesso aos EUA por viajantes oriundos do Brasil, que Trump tinha levantado no apagar das luzes de seu governo. Se for para valer e produzir resultados – ou seja, punições exemplares –, será bem recebida a investigação que o Supremo Tribunal Federal ordenou contra o ministro da Saúde, um general sem qualificação para o cargo que ocupa e que comprovou sua incompetência em logística, supostamente sua especialidade, deixando que faltassem tanques de oxigênio nos hospitais de Manaus.

A substituição do ministro por um ou uma profissional de saúde de qualidade, acompanhado por sanitaristas reconhecidos, animaria talvez Washington a reiniciar atividades de cooperação bilateral. Ilusória no momento, tal cooperação produziria dividendos além da proteção da saúde e da vida dos brasileiros. Entre eles está a volta da segunda maior economia das Américas, dado não trivial e que seria boa notícia também para nossos vizinhos.

A outra área de cooperação são as mudanças climáticas. Aí também o governo brasileiro é um desastre. Mas sua postura é menos importante do que posições expressas por um número crescente de líderes empresariais, políticos, acadêmicos e da sociedade civil que compreendem o impacto da mudança climática nos seus negócios e nas comunidades que representam. Ante o vazio que é Brasília, dezenas deles começaram a se organizar no ano passado em coalizões como a Concertação pela Amazônia e receberam endossos importantes, como os de 17 ministros da Fazenda e presidentes do Banco Central desde a redemocratização. No final de janeiro, o Instituto Arapyaú, de São Paulo, o Instituto Clima e Sociedade e o Instituto Humanize, do Rio, que coordenam a Concertação, e o Brazil Institute do Wilson Center, de Washington, juntaram-se para criar um canal de comunicação entre governos subnacionais, os setores privados e as entidades não governamentais dos dois países com vista aos desafios do mundo pós-pandemia, que exigirão abordagens fortes e inovadoras.

Nos EUA, a iniciativa tem acesso privilegiado à administração Biden e prepara atividades voltadas para um diálogo bilateral ancorado na sociedade civil de ambos os países. As ordens executivas anunciadas por Biden em 27 de janeiro pavimentarão o caminho para uma cooperação balizada pela gradual descarbonização da economia, que Biden descreveu como central nas políticas externa e de segurança nacional do seu governo. Trata-se do mais agressivo conjunto de ações relacionadas ao uso de energia e redução de emissões de CO2 da História do país. O custo estimado da execução de tais políticas, de US$ 1,9 trilhão, é menor que os prejuízos causados por eventos climáticos nos EUA nos últimos anos.

Para o Brasil, que possui a rede mais limpa do planeta na produção de eletricidade, o desafio é dotar o País de uma administração que compreenda e incorpore políticas voltadas para a promoção de seus ativos energéticos e ambientais, que não são poucos nem pequenos, e os articule de forma vantajosa. O problema imediato para o Brasil é político, como afirmou recentemente ao Valor o ex-embaixador dos EUA no País Thomas A. Shannon: “O Brasil precisa ter uma voz que tenha ressonância dentro e fora do País e, neste momento, não tem nenhuma”. O diplomata acrescentou que uma plataforma como a Concertação pela Amazônia representa importantes grupos da sociedade e não depende só do governo federal, hoje ausente: “Mais importante é a ação dos governos estaduais, municipais e do setor privado”. Meno male. O Brasil é maior do que o governo que tem e isso é reconhecido no exterior.


JORNALISTA, É PESQUISADOR SÊNIOR DO BRAZIL INSTITUTE DO WILSON CENTER, EM WASHINGTON

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