O Brasil muito doente e mal cuidado

Cabe levar ao povo a gravidade do problema previdenciário e pedir apoio para resolvê-lo

Roberto Macedo, professor sênior da USP

21 de fevereiro de 2019 | 03h30

Nosso país está numa situação crítica, marcada por vários sintomas. Entre eles, o mau desempenho da economia, na qual concentro meu interesse, por vocação e profissão. E também porque sem funcionar bem ela leva a outros problemas, como o alto desemprego e suas graves implicações sociais. Fica assim prejudicada a geração de mais recursos para necessidades mal atendidas, como as da população em geral, das empresas e do governo, neste caso via menos impostos, o que prejudica sua prestação de serviços.

A própria saúde da população vai mal, gerando manchetes do tipo Brasil está prestes a perder status de livre do sarampo. Deu até num navio de cruzeiro. Pernilongos e assemelhados frequentam o noticiário das TVs com a assiduidade de celebridades. O atendimento pelo SUS é em geral de má qualidade e agrava a desigualdade social também na doença e na morte.

Na educação destacam-se as carências na pré-escola e no ensino básico, que não resolvidas prejudicam o futuro de crianças e jovens. Venho de família com orçamento estressado por muitos filhos, mas tive acesso à educação pública de boa qualidade e a emprego formal ainda adolescente. Não vejo futuro para jovens que nem estudam nem trabalham.

A frágil infraestrutura urbana vez por outra sucumbe à natureza, como nos deslizamentos de terra e alagamentos, e ao trânsito, como os viadutos e pontes em São Paulo. A criminalidade é altíssima e a segurança pública não dá conta dela. O desastre de Mariana repetiu-se com muito maior gravidade em Brumadinho; do primeiro ainda se discutem indenizações e no segundo a última contagem registrava 169 mortes e 141 desaparecidos. Há outras barragens sob risco.

Nossa tradição é recorrer ao governo para resolver tudo, o que é impossível, e ele está prejudicado também pela má gestão dos recursos, incluídos os humanos, em que a hierarquia às vezes se inverte, com corporações de funcionários a comandar governantes. Em tese, estes seriam representantes do povo, do qual emanaria o poder político, que em nome dele e para ele seria exercido.

Tudo conversa. Os políticos estão distantes do povo, em particular no Legislativo, e não atuam visando o bem comum, nem são cobrados pelos eleitores. Reformas deveriam incluir a eleição distrital de parlamentares, para aproximar cidadãos de seus representantes.

Poderia prosseguir listando mais calamidades, mas ficarei no que possa pelo menos iniciar o tratamento das muitas que nos assolam. A prioridade deve ser a economia, pelo que já disse acima. Ela esgotou o modelo de crescimento seguido após a 2.ª Guerra, baseado na substituição de importações e na transferência de grandes segmentos populacionais do campo para as cidades, onde passaram a trabalhar com maior produtividade, ampliando assim o produto interno bruto (PIB) por habitante. Mais à frente, o Estado cresceu mais que o PIB total, exageradamente absorvendo recursos que famílias e empresários aplicariam com maior eficácia e eficiência. Num aspecto grave desse quadro, o Estado se financia com poupança de entes privados e deixa de investi-la produtivamente, fazendo assim uma “despoupança” que compromete o crescimento econômico.

Nas contas públicas os governos petistas acabaram produzindo déficits enormes, que ampliaram fortemente a dívida governamental. O temor de um calote provocou enorme incerteza entre agentes econômicos, que por isso retraíram os seus investimentos e impulsionaram para baixo as taxas de crescimento do PIB.

Depois de o PIB crescer 3% em 2013, em 2014 essa taxa caiu para 0,5% e em 2015 e 2016 passou a valores negativos, -3,5% e -3,3%. Em 2017 e 2018 voltaram a positivos, mas de apenas 1,1% e 1,3% (previsão). Assim, estes dois resultados foram claramente insuficientes para superar o desastre do biênio anterior.

Entre economistas e outros analistas da economia predomina a crença de que para alcançar crescimento bem mais forte é fundamental encontrar solução para as contas públicas, de modo a começar a dissipar incertezas quanto ao futuro do País. E aí o problema maior é o da Previdência Social.

Ele se agravou por um comportamento típico de nossos governantes, o de não cuidar de problemas importantes, mas vistos como não urgentes na visão deles e a seu tempo. Ora, essa atitude faz os problemas continuarem se agravando até emergirem como críticos, como o da Previdência. Ou seja, o pior que está não fica, do Tiririca, foi desmentido, pois pior do que estava ficou e continuará piorando se não resolvido.

Sendo um tema impopular, como aprovar uma eficaz reforma previdenciária num Congresso avesso a temas desse tipo? Até aqui ele só postergou o problema, mas este acabou por prostrar o doente. Fugirá novamente da sua responsabilidade por resolvê-lo?

De sua parte, Bolsonaro, chefe do Executivo, é também o chefe da família brasileira e cabe-lhe o papel de levar a ela a enorme gravidade do problema previdenciário, no esforço de convencê-la da necessidade de tratamento eficaz. Este, como em muitas doenças, será doloroso para segmentos da família, cabendo assim distribuir o ônus, concentrando-o nos mais capazes de suportá-lo.

Nesse apelo ao povo poderia usar trecho do discurso de posse, em 1961, do presidente John Kennedy, dos EUA: “Não pergunte ao país o que ele pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer pelo país”. E já adiantando a resposta: apoie a reforma da Previdência! E advertindo a turma do contra de que ela está sendo egoísta e aética ao não pensar no País e no bem comum.

Aliás, não pensa nem mesmo nos seus filhos, netos e gerações seguintes. Sem solução para o problema previdenciário terão dificuldades ainda maiores de encontrar trabalho e outras formas de desenvolvimento pessoal.

*ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR, ROBERTO MACEDO É PROFESSOR SÊNIOR DA USP

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